11/08/2006

A morte de Oliveira Bastos




- 08 de Novembro de 2006

HÉLIO
FERNANDES_______________________________________________


Eclético, lúcido, inesquecível

Já começo a manhã com a notícia que não me surpreendeu mas me entristeceu de forma impressionante. Já esperava, essa tristeza foi a morte de Oliveira Bastos. Atingido violentamente pelo câncer, resistia bravamente, como resistiu em outras oportunidades, por motivos os mais diversos. E o mais importante é que se dizia um não resistente, embora não abandonasse nunca a trincheira.Foi sem dúvida um dos maiores jornalistas brasileiros. E nem adianta enclausurá-lo na sua geração e no seu tempo, pois Oliveira Bastos era incomparável. Seu texto era claro, límpido, lúcido, elucidativo. Dava a impressão de que escrevia recitando as recomendações de Graciliano Ramos: "Uma frase só está pronta quando não se pode tirar ou acrescentar uma palavra que seja".Mas Oliveira Bastos era mais do que jornalista, do que escritor, era uma personalidade e um personagem excelso e irredutível. E tinha outro título que ninguém tem mais, a internet matou todos como o câncer matou Oliveira Bastos: conversador. Podia passar horas e horas, tinha o que falar e o que ouvir.
Eclético em tudo, com uma cultura sólida e acumulada em anos e anos de leitura, era também eclético nas amizades. Foi sempre um dos meus maiores amigos, e sem dúvida alguma o mais incondicional amigo de Roberto Campos, com "lanterna na popa" e tudo. Nunca me falou sobre Roberto Campos, nunca falou a ele sobre Helio Fernandes. Essa é uma característica e uma qualidade que poucos têm e só raros percebem. E praticam.
De 1996 a 2003 ficou no Maranhão, voluntário da pesquisa e da literatura. Telefonava regularmente, me dizia satisfeitíssimo: "Estou aqui fechado, isolado, empoeirado, mas realizado. Vou desmontar a farsa da literatura do Nordeste, mostrar a verdadeira dimensão da `Bagaceira', do José Americo, e do `Quinze', da Rachel de Queiroz".
Era um apaixonado pela Literatura. E com aquele jeito irresistível, com o riso que era impossível de interpretar, me acusava fortemente: "Você me desencaminhou, me introduziu no jornalismo, eu só queria fazer literatura. Sonhava em escrever um rodapé como Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, e mais tarde Alvaro Lins, você me obrigou a fazer coluna diária. E sobre política, que eu detesto".
Em 1972, o episódio estrepitoso e retumbante de quem esperava que a vida o mantivesse longe de polêmicas, debates, contradições. Mas só ele mesmo acreditava nisso, pois era um debatedor extraordinário. Um dia me falou: "Helio, vou passar 1 mês sem escrever, quero descansar no Pará, de onde nunca deveria ter saído". O que eu podia fazer? Concordar, lógico.
Como despedida foi jantar no Bistrô, na época o Centro do Rio, onde quase todos acabavam a noite. Era um feudo de Delfim-ministro-todo-poderoso, que raramente ia a Brasília. Lá no Bistrô, Delfim dizia: "Os dias no Poder são maravilhosos. Ah! Mas as noites do Poder, essas são inesquecíveis". Delfim reinava junto sua corte jovial e juventude.
Oliveira Bastos vinha escrevendo muito sobre (e naturalmente contra) Delfim. Os "Delfim-boys" viram Oliveira Bastos e o agrediram brutalmente. Ele saiu de lá, foi para a redação da Tribuna, escreveu artigo magnífico (redundância), deixou em cima da minha mesa, com um bilhete: "Helio, se não quiser publicar, não publique, escrevi enraivecido". E terminava: "Mas o que me enfureceu mesmo, Helio, é que o gordo assistiu tudo, ria enquanto me agrediam".
PS - Nessas circunstâncias eu publicaria qualquer artigo, naturalmente publiquei o do Oliveira Bastos. Meu erro foi não ter repetido o artigo 3 dias seguidos. Agora não dá, Bastos, mas ainda conversaremos sobre o assunto.
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N da R - Oiveira Bastos era paraense. Começou como repórter da Folha do Norte . Há mais de 50 anos emigrou para o Rio de Janeiro – atiou em todos os jornais, inclusive na Tribuna da Imprensa onde ficou mais tempo - e depois para Brasília (Correio Brasiliense).
O jornalismo do Pará ficou mais pobre.
Paz à sua alma.

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