10/07/2011

"Relembrando Cabeludo




No passado mês de setembro “Cabeludo” completou oito anos de morto. “Cabeludo” era o apelido de Antônio Farias Vieira, um dos maiores nomes - senão o maior - do artesanato de Icoaraci.
Na realidade, tudo começou com ele.
Na década de 50 (1956), Antônio Farias Vieira (o “Cabeludo”... nome dado devido à sua vasta cabeleira!), nascido na Vigia, casou com a jovem Cosma Croelhas e foi morar no bairro do Livramento (Paracuri). "Cabeludo” ganhava a vida como pintor letrista, fazia faixas, murais, desenhos, criava imagem, etc. Era exímio na sua arte.
Uma ocasião folheando um livro sobre artesanato encantou-se com a foto de um vaso de cerâmica; tanto que resolveu reproduzi-lo. Para que isso acontecesse, foi até uma olaria e pediu para o artesão fazê-lo no torno. Após queimá-lo, ele fez as pinturas (algumas de sua criação, com a reunião de vários tons) utilizando como base as cores marajoaras (vermelho, preto e branco). Devido à sua curiosidade, posso garantir que "Cabeludo" inaugurou uma nova fase do artesanato icoaraciense.
"Cabeludo" se interessou pelo assunto; e, a partir daí, reproduziu várias peças, assim como criou várias outras obedecendo ao estilo das culturas marajoara, tapajônica e maracá, as quais estudou com afinco.
Para aperfeiçoar ainda mais a sua técnica e os seus conhecimentos, “Cabeludo” passou a frequentar com assiduidade o Museu Paraense Emilio Goeldi. Os cientistas do museu observaram que o caboclo vigilengo “dava pra coisa” e resolveram ajudá-lo ensinando-lhe algumas técnicas. O aluno, diligente, surpreendeu os professores. Suas reproduções contrastavam com as originais... sendo inclusive mais bonitas... .e, é claro, difícil de distingui-las.
O nosso artesão-maior trabalhou em silêncio até 1960 quando foi descoberto por mim que, àquela altura, integrava os quadros da extinta “Folha do Norte”.
Quem me deu a “dica” foi José Claudino da Conceição Silva, ou simplesmente J. Claudino – Sargento Fuzileiro Naval aposentado, poeta e escritor, que faleceu em 2008.
Fui lá ao seu atelier de "Cabeludo" e comprovei que tudo era verdadeiro. Naquele homem simples se escondia um grande artesão um artista de primeira linha.
Muitos foram os seguidores desse Grande Mestre - vizinhos, amigos e curiosos - além da sua numerosa família.
O aluno mais ilustre foi Raimundo Saraiva Cardoso – falecido em abril de 2007 - que anos mais tarde se transformaria no “Mestre Cardoso”. Ele deu prosseguimento ao trabalho de “Cabeludo” e, praticamente, resgatou a arte marajoara, a qual apenas muito mais tarde os artistas da Região iriam aderir.
Outros artesãos também começaram a copiá-lo. Alguns iam trabalhar com “Cabeludo”, aprendiam as suas técnicas e, depois, caminhavam sozinhos em suas olarias. “Cabeludo” tinha muito prazer em ensinar tudo o que sabia, e ficava feliz com o progresso dos discípulos.
Graças a “Cabeludo” o Paracuri se tornou o centro do artesanato de Icoaraci onde, atualmente, se concentra cerca de 90% da comunidade de ceramistas. São inúmeras oficinas e olarias, alinhada uma ao lado da outra, por toda a extensão do bairro, a partir da Rua 15 de Agosto (4ª Rua). Esse ato fez com que a minha Vila Sorriso se transformasse no maior centro produtor e divulgador da cerâmica indígena da Amazônia, conhecida em todo o mundo.
O nosso “Cabeludo” ficou por muito tempo esquecido. Tanto que morreu nessa situação: pobre e ignorado. Ninguém se lembrava de que ele foi o primeiro, o precursor do artesanato icoaraciense.
Mas para tudo há remédio. Há 13 anos surgiu o Movimento Cultural de Vanguarda de Icoaraci (Mova-CI) disposto a resgatar a memória e as tradições da Vila Sorriso.
“Cabeludo” foi uma delas.
A cada ano o Mova-CI realiza – ou realizava - a Mostra “Mestre Cabeludo” que reúne (ia) os “virtuoses” locais nas mais variadas expressões da arte, destacadamente o artesanato e a cerâmica local.
Foi feita justiça.
“Cabeludo” não foi (e jamais será) esquecido. Principalmente no dia do no dia aniversário de Icoaraci, terra que amava e a adotou com sua,onde casou e criou os seus filhos. Num dia desse ele chamava todos os amigos para “senhor” almoço na sua “palhoça”.
Muita gente importante participou desse evento. Inclusive o prefeito Stélio Maroja e o “subprefeito” Evandro Bonna.
O artesanato e o povo icoaraciense lhe devem um grande tributo.

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