1/07/2016

EDYR AUGUSTO PROENÇA


FELIZ ANO NOVO



S
abe quando dois dormem em uma cama e, nos movimentos dos corpos, se esbarram e se acordam? Acordaram. Um olhou para o outro. Esfregaram os olhos. Quem é você? Eu é que pergunto. Quem é você? Eu também não te conheço. Eu não te conheço, com certeza. O que é isso? Não sei. Como, então, viemos parar aqui? Boa pergunta, não faço a menor idéia. Por favor, você me empresta esse pedaço de lençol, porque estou nua. Eu também estou nu. Tem certeza que não me conhece? Sei lá, alguma coisa aconteceu.
Eu não te conheço. Nunca te vi mais gordo, posso garantir. Não me lembro de ontem, ter feito algo diferente. Será que botaram essas substancias..
Também não sei. Estou com dor de cabeça, mas fique tranqüilo, eu não bebo. Mas então, que brincadeira de mau gosto.. Me dê licença, olhe para o outro lado, eu vou até o banheiro. Mas aqui não tem banheiro. Deve haver, então, no corredor desta casa, deste apartamento. Eu não sei onde estou. Nem eu. Levanta, cobre-se com o lençol. Minhas roupas. As minhas também.
Essas aqui, são roupas de mulher, mas não são minhas roupas. Sim, eu também. Essas roupas não são minhas. Olhe para o outro lado. Vou me vestir para ir ao banheiro. O engraçado é que servem exatamente. Isso aqui está muito estranho.
Que horas são? Estou sem relógio. Vou me vestir, também. Você já olhou na janela. Eu não conheço nada. Por favor, venha olhar para ver se reconhece este lugar. Olha. Será que estamos na... não, não é possível.
Eu também não sei onde estamos. É um prédio e esta janela é para os fundos. Mas não sei de onde. Escute, você consegue lembrar o que estava fazendo, ontem à noite?
Bem, em primeiro, meu nome é Mário Sérgio. Sou gerente de um banco, casado, duas filhas e ontem estava na festa de reveillon de um amigo. Deixa ver.. recebi um telefonema de um amigo, Carlos, que não queria subir até a festa e precisava me dar um abraço.
É só o que me lembro. E você? Eu sou Claudia, solteira, vendedora de perfumes a domicílio. A última coisa que me lembro é de chegar em um bar e pedir uma cerveja enquanto esperava o Zé Maria, um amigo.
E aí, mais nada? Mais nada. Você vê, não há como imaginar como possamos ter nos encontrado e acabar aqui, nesta cama, no primeiro dia de 2016, nus e sem nunca nos termos visto antes.
Meu Deus, o que vou dizer à minha mulher, meus filhos, meus amigos. Sumir, assim..
A essa altura, o Zé Maria deve estar me procurando até na Polícia. Sabe, a gente namorava, assim, de vez em quando. Ele é muito ocupado. Eu, como sou sozinha e também não tenho ninguém em vista, até gostava. Não tinha compromisso, sabe.
Bem, vamos lá? Tropeça em algo. Você, como é mesmo seu nome? Claudia. Olha aqui! É uma pessoa! Os pés. Debaixo da cama. Toque, chame.. sei lá.. será que está morto? Não, acho que está dormindo.. ainda respira.. Puxam o corpo. Ao mesmo tempo, exclamam: Carlos! Zé Maria! Entreolham-se..
Mas como Carlos? E Zé Maria? Pra mim esse é o Carlos. Não, senhor, este é o Zé Maria, posso dizer com certeza. Bata nele, faça-o acordar, sei lá.. Batem no rosto, dão tapinhas. Empurram. Nada. E agora? Agora, sei lá, talvez seja melhor avisar a família.
Vai ver, é família dele. O Zé Maria não tem família. O Carlos, não sei, nunca falou. É Zé Maria! É Carlos! Ele nunca pareceu estranho? Nunca fez nada, assim, meio sem nexo? Será que ele tem a ver com isso que aconteceu com a gente?
Essa roupa, que não é minha, é super cafona. E isso é hora de pensar em roupa? Imagina essa blusa, toda colorida, horrível. Sentam na cama. Não sei o que fazer. Nem eu. Preciso sair daqui. Escuta, afinal, esse seu Zé Maria, que pra mim é Carlos, o que é mesmo, pra você? Me levava pro motel. Motel dos bons. E esse seu Carlos? O Carlos é um namorado, meu.


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•• Publicada a pedidos.