2/24/2016

RAY CUNHA





Yasmim,meu amor







Depois que tu nasceste, meu universo é só eternidade
A luz preencheu o navio da minha mente
O mar ancorou no porto da minha alma
E ouço, agora, o tempo todo, o som do éter

Depois que tu nasceste, jasmineiro eterno,
Doce música espraiando-se no espaço
A Terra é só primavera
Prenhe de crianças que voam como pássaros

E eu, que era um asteroide vagando,
Depois que tu nasceste, meu bem!
Tornei-me astro iluminado

De modo que já não vago por aí, andarilho sem rumo,
Sem aportar em parte alguma, como ninguém,
Pois desde que tu nasceste, sinto, de Deus, o triunfo!


Senti tua presença logo nos primeiros dias após tua concepção, pois Josiane, tua mãe, começou a ficar ainda mais bonita, a desabrochar como rosa grávida. Eu sentia no ar tua presença como a luz na alma; a música de Mozart nunca pulsou tão divina e o perfume da vida me extasiava. Eras tu que vinhas, para alegrar, para sempre, minha vida.

Logo o ventre da tua mãe começou a crescer. Eu o beijava e tu tentavas, lá do teu mundo uterino, tocar em mim. Os meses passavam e eu, agora, tinha duas namoradas. E queria também ficar juntinho do ventre da tua mãe, e líamos contos dos gênios da literatura infantil para ti. Abraçado à tua mãe, eu te sentia, e me sentia Deus. Já não criava somente personagens de ficção, mas estava prestes a ver o triunfo de uma criação perfeita.

 
Josiane ficou esplêndida, um santuário que eu beijava ajoelhado. Uma noite, 22 de fevereiro de 1990, o rio da tarde acabara de desaguar no Ocidente quando tu anunciaste que querias nascer. Joanira, um anjo que te acompanha desde sempre, levou tua mãe e eu ao Hospital Regional da Asa Norte, e, às 23h40, os jardins do mundo se iluminaram, pois nasceu um jasmim.

 Na manhã do dia seguinte, fui te conhecer. Quando te vi, filha, senti uma emoção tão intensa que verti rubis azuis. Assim que te vi, recém-nascida, transferi para ti, para sempre, a firmeza das minhas mãos, a fortaleza dos meus músculos e pedras preciosas que escavei na minha alma. Pedi a Deus, meu Pai, que arrumasse a manhã para ti, a manhã da tua vida, e Ele, então, me muniu de luz, amor, sabedoria, gentileza, para que eu cuidasse de ti. E tu cresceste como botão que abre imperceptivelmente as pétalas ao sol, como um poema, cada vez mais azul.

Todos os anos te dou o mesmo presente, que sou eu. Pertenço à tua mãe, de quem tu fazes parte, e sou teu porque és parte de nós dois, por isso teu é o meu coração, que é o que me resta, pois nas histórias que te contei já te dei o mundo, e todos os jardins, e todas as rosas, e os girassóis de Van Gogh, e todo o perfume, e a música de Mozart.

Quando nasceste, ganhei asas, e minha mente quebrou todos os grilhões que me acorrentavam ao átomo, e o mundo rebentou em jardins se derramando. Tu és forte como os olhos dos bebês felizes, como pétalas ao sol, como o amor, porque nada temes, por isso és meu exército; basta evocar teu riso para sentir o sabor da imortalidade; o riso da tua infância, que guardo no meu coração, é minha perene alegria.

Tua beleza, que vai muito além do sorriso, nasceu da minha conjunção com a mulher amada, em explosões lá para os lados do Grande Atrator. Nasceste sob o signo da luz, no Lar do Progredir Infinito. Meu Pai me tocou com Seu hálito, e então criei a flor definitiva. E desde que nasceste, flutuo, e nunca mais parei de voar, principalmente agora, que me dás o combustível para eu cavalgar a luz. Sou anjo e leão porque tu és minha fé no triunfo das manhãs.



______________
••• RAY CUNHA – Escritor e Jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil

Nenhum comentário: