8/31/2010

ELIAS PINTO


Bruno de Menezes:
espero que vocês encontrem,
à venda nos estandes das livrarias,
um livro do homenageado




A Feira Pan-Amazônica, como naquele anúncio de automóvel, precisa rever seus conceitos

“Esqueceram de mim”, diz o fantasma do patrono


O jornalista, folclorista, pesquisador, escritor, funcionário público, acadêmico e, acima de tudo, poeta Bento Bruno de Menezes Costa (1893-1963) é o patrono da Feira Pan-Amazônica do Livro. Aberta na sexta-feira, o tema da décima quarta versão do evento são os países africanos que falam português. Em seus melhores momentos, Bruno de Menezes é autor de uma poesia original e regional, de um “modernismo” caracteristicamente nosso, como dele disse o professor Francisco Paulo Mendes. A influência africana, que, segundo a ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura, Maria Annunciada Chaves, o poeta “assimilou diretamente, nos subúrbios da capital guajarina, no Umarizal, na Cremação, na Pedreira, no Jurunas [bairro em que nasceu], nos terreiros de macumba, nas rodas populares do Ver-o-Peso e do cais do porto”, está presente, com a força de uma sensualidade rude, de um ritmo vibrante, em seu livro mais conhecido, Batuque, de 1931. Em edições posteriores, o livro ganhou a companhia harmoniosa das ilustrações de Raimundo Martins Viana, acentuando o gosto do terroir dos poemas, como tão bem frisou Machado Coelho, com o colorido “de tudo enfim que é de nossa terra e de nossa gente”.
Muito bem. Na feira, o leitor assistirá, certamente, a palestras interessantes em torno da obra do autor de Batuque. Naturalmente, atiçado pelos comentários dos conferencistas, quem não o conhece aproveitará os estandes das livrarias para adquirir uma de suas obras. Mas, fatalmente, não topará com nenhum exemplar do preclaro patrono da vez. Como ocorreu em recentes edições da feira, o fantasma do patrono poderia, mãos nas cadeiras, diante das livrarias, constatar, hollywoodianamente: “Esqueceram de mim”. Não sei se ainda resta em catálogo a edição, de 1993, das obras completas de Bruno de Menezes, em três volumes, pela Secretaria de Estado de Cultura.
Ao definir o homenageado do ano, será que a organização da Pan-Amazônica não poderia agendar uma edição comemorativa do autor, a reedição de um de seus livros ou uma antologia? Para não falar, neste ano, da duvidosa programação musical, com cara mais de showmício disfarçado.
É preciso repensar a feira. Curiosamente, a reclamação dos escritores locais quanto à programação assemelha-se ao que ouvi – por exemplo, de um escritor brasileiro vencedor de uma das mais importantes e bem pagas premiações literárias do país – na última Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Há uma separação entre os escritores estrangeiros convidados e os nativos. Aqueles constituem uma casta privilegiada, dizia-me esse escritor, ocupando os melhores horários e mesas individuais. Aqui em Belém, os nossos estrangeiros são os autores da banda de lá, Rio de Janeiro, São Paulo e entorno, que ocupam o horário nobre e bancada solo (com um mediador que, por sua vez, não deveria ser o mesmo para todos os “gringos”). Alguns desses buanas das letras, aliás, e com todo o respeito, pois gosto e até conheço pessoalmente alguns, já viraram arroz de festa, ou melhor, arroz de pato, que agora a gente encontra em toda birosca.
E assim de passagem: será que nenhum escritor jurunense, como o atual patrono Bruno de Menezes, não poderia ocupar o horário nobre, a entrevista com as estrelas? Para citar um (ainda que não jurunense nem meamofinado), cito o Edyr Augusto, autor de uma obra já encorpada.
Bem, essa revisão pan-amazônica das letras papaxibés fica para o próximo governo a ser eleito este ano, seja o mesmo, reeleito, ou o novo (novo?). A organização da feira precisa ser repensada, arejada, lavando-se do ranço político.
Aproveito e faço minha particular homenagem ao patrono da Pan-Amazônica. Publico, a seguir, trechos do, por sinal, inacabado “Belém e o seu poema”, obra em andamento que a morte de Bruno de Menezes, em 2 de julho de 1963, interrompeu. Apesar de sua extensão, a poesia mal ensaia o início de sua caminhada por Belém, demorando-se na Cidade Velha e no Jurunas, berço de Bruno de Menezes. Até onde chegaria esse poema-quase-reportagem-com-jeito-de-crônica? Mais vale acenar (dar sinal), tomar assento e aproveitar esse roteiro que lembra o trajeto de um circular que a indesejada das gentes desviou do caminho, o condutor conduzido ao ponto final. Com essa publicação, pretende-se, de alguma forma, religá-lo ao moto-contínuo da leitura. E tomara que vocês encontrem um livro dele na feira – talvez na do Ver-o-Peso...


BELÉM E O SEU POEMA

Agora
vamos entrar na sala do Mundo Verde.
Faz de conta que chegamos
à Cidade do Sol e da Chuva,
cercada de águas crioulas e corredeiras,
coberta de árvores gordas de sombra espessa.

Não perguntem como foi que ela cresceu
sem ficar serviçal do rio,
nascendo do tijuco guloso
– cama dos amores da Cobra Grande...

Já se sabe da empreitada do luso Castelo Branco,
fazendo a indiada e a soldadesca
levantarem o Forte do Presépio, com licença da
[boiúna,
devido à força da enchente e a correnteza das marés...

Foram-se os caminhos da primitiva cidade,
pois viraram outras Ruas e Travessas,
Avenidas e Parques Públicos,
avançando para a terra firme,
com nomes de vultos importantes.
Mais tarde, não respeitaram a velha Pracinha do
[do Carmo,
que ajardinaram geometricamente,
nem a capela, desaparecida, de construção dos
[escravos.

Hoje, aproveitando a serventia das águas,
varamos pelo Beco do Cardoso e da Usina Bitar,
largamos das garagens náuticas rumo às ondas
[guajarinas.
E, em terra, na Praça da Sé, recebemos a bênção
[em bronze,
de D. Frei Caetano Brandão,
que está, pontifical e vigilante,
diante da Igreja de Santo Alexandre,
com seu frontal barroco.

Também assiste à Catedral de Belém, onde Nossa
[Senhora,
lá no alto da fachada, tem no colo o Menino,
e, embaixo do altar-mor, mora a cobra encantada...

Mas é preciso olhar
a histórica e secular Igreja do Carmo,
que entrou na luta dos cabanos,
reformada na sua decoração colonial,
para depois lhe darem uma ruela de saibro,
que conduz os peões até o Porto do Sal.

Quanto rememorar nessa Cidade Velha,
que ostenta a tradição do Arsenal de Marinha,
frente à Praça de herói que foi Tamandaré!

E antes de irmos aos bairros da classe obreira,
(peregrinos viajantes)
vejamos a Igreja de São João Batista,
com sua piedosa Santa da Consolação,
em que esteve prisioneiro, ainda humilde capela,
padre Antônio Vieira, o iluminado pregador.

Por falar naquele porto proletário,
não quereria alguém viver sem movimento,
de canoas veleiras, de lanchas, de motores
[castanheiros,
de pequenos navios que atracam no trapiche,
vindos dos tantos rios que trabalham na Amazônia?

Não só as embarcações cotidianas:
– ver também o Mercado de arquitetura estilizada,
a vendagem de peixe seco e outros negócios a varejo;
os estaleiros e o mangal todo verde de aningas,
para o encalhe de inúteis barcos sepultados.

Esse Porto do Sal, destinado a ser pobre,
que ainda usa uma Rua São Boaventura,
parece ter mandinga,
feita pelos pajés das ilhas mal-assombradas...

Santa Maria de Belém, que foi crescendo,
com presidentes provinciais
e o nobre Palácio do Governo, a tela grandiosa
da “Conquista do Amazonas”.
Que subiu de Intendência a Prefeitura Municipal,
com os serviços do Fórum e o Café Judiciário,
o famoso quadro documentário
“Últimos momentos de Carlos Gomes”.

Belém da Praça D. Pedro II,
de rústicos bancos para os idílios diuturnos,
sombreada de mangueiras dadivosas,
que põem frutos maduros como seios de cunhãs,
e ostenta a estátua do General Gurjão,
guardado por quatro leões de mármore,
que honrou as tradições de bravos no Paraguai.

Cidade que esqueceu os sobrados de azulejos,
que deixou secar o chafariz de pedra-sabão
da Praça Felipe Patroni.
Que traz sempre em vigília o Quartel dos Bombeiros,
tocando silêncio para os estudantes do Ginásio,
que têm na Praça o busto de Antonio Marçal,
educador de gerações.

Belém que arboriza, precariamente,
a Praça da Bandeira, com seu grande mastro
[simbólico,
se orgulhando de possuir um Quartel General.

Assinalando este urbanismo,
Ainda avulta na Avenida Portugal
um Obelisco com versos do “Brasileis”,
povoada de Clipers rendosos,
atravancada de ambulantes, engraxates, sorveterias,
e paradas para espera de transportes coletivos.

Subiremos,
como faziam os habitantes da Cidade,
ao tempo das saudosa e “Formosa Belém”,
pela Avenida 16 de Novembro,
que perdeu o carinho por suas nobres palmeiras,
e foi igarapé feito rua,
levando a remo os frades da piedade,
até o convento de São José, modificado para presídio,
na monotonia da Praça Amazonas,
e o busto de Oswaldo Cruz olhando os presos...

Compensando esta transformação citadina,
encontramos os falados bairros dos Tamoios,
dos Jurunas, da populosa Conceição,
que vieram boiando das várzeas inundadas
pelas enchentes de águas vivas.
É aí que o povo aprendeu o jeitoso equilíbrio
de caminhar sobre estivas e tabuados,
que são os caminhos para as suas palhoças,
e, na quadra chuvosa,
a ter de imitar a vida dos caranguejos...

(...)

Depois dessas andanças,
sigamos pelo asfalto evaporante
da Travessa do Jurunas, que está se arborizando
de verdes tamarineiros despenteados;
e assim conheceremos o Mercado incipiente,
que não tem o suficiente para os jurunenses,
mas deixa sobrar cabrochas,
pretiocas, curibocas,
nas filas dos talhos, namoricando...

Adiante, podem-se ver
o Posto Policial e a Mercearia do “Macaco Branco”,
que era o portuga seu primeiro dono;
a Igreja de Santa Terezinha que tem muitos devotos,
que bate o sino e reza preces à Ave Maria,
com reuniões sociais no seu Oratório;
O padre Serra, no Ambulatório, com falta de
[remédios,
Mães solteiras como a Bereca,
o Grupo Escolar lembrando Camilo Salgado,
e o Posto Médico e o Lactário da Saúde.

Para a mesclada juventude do bairro,
o Clube Esportivo “São Domingos”,
fundado pelo padre Magalhães e seus amigos,
é o veterano em vitórias e simpatias,
dando bailes com damas de se escolher...
E, na Aldeia do Rádio Clube do Pará
– sonho, vida e morte de Roberto Camelier –
auditórios superlotados, artistas e conjuntos gozados,
programas infantis de envaidecer os pais...

Ah, Jurunas moleque,
dos negrinhos e negrinhas soltos nas ruas,
que trazem o jogo do bicho
riscado na ardósia das pernas corredeiras,
que ouvem falar na fama do capoeira Pé de Bola
e no turuna de fama, boi bumbá “Pai do Campo”!

Com o pavimento feito pista,
e os ônibus mais ou menos da Viação “Morais”,
o Jurunas não se envergonha
dos noticiários da imprensa,
em casos de ciumadas, de desordens, cachaçadas,
suicídios, malandragens,
perdida a dignidade de suas temidas valentias.

O que ainda lhe dá renome
é a Escola de Samba “Não posso me amofiná”,
que arrasta o povão por toda parte
na quadra carnavalesca,
enchendo a Cidade de sonoras batucadas,
do baque cadenciado dos tamborins,
para o melexo gostoso das sambistas de sua taba...

De maneira sentimental,
revemos as bandeiras vermelhas, as luzes de vendas de
[açaí,
os tabuleiros de tacacá pelas esquinas,
enquanto o baixo Jurunas das bandas do rio,
de capim viçoso e mururés nos valados,
continua de pé no chão, e, nas noites de chuva,
dorme com os solfejos da saparia
e os violinos dos carapanãs mal-educados...

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Transcrito do Diário do Pará de domingo, 29 de agosto de 2010

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