2/28/2013

    Fotos: João Gomes

 

Cotijuba terá sistema modelo de transporte público 

Licitação para novo contrato do barco que faz a linha Icoaraci-Cotijuba ainda em março será o ponto de partida para o projeto de transporte da ilha, construído a partir das demandas apresentadas pela população


O som do barco que se aproxima do porto de Icoaraci anuncia ao grupo de professores que ainda faltam 40 minutos até chegar ao destino final, a escola municipal da Faveira, localizado na Ilha de Cotijuba. Márcia Barata percorre o trajeto Cotijuba todos os dias da semana para lecionar na escola primária da ilha. Na chegada ao porto ela e os outros colegas de trabalho ainda pegam um bondinho que leva o grupo por mais 10 minutos de estrada até o colégio onde as crianças já os aguardam. Na volta para casa, caso percam o barco-escolar os professores precisam pagar um barco de transporte regular.
“Uma das maiores deficiências no transporte da ilha é falta de catracas de Passe Fácil nos meios de transporte coletivo local. Barcos e bondinhos não aceitam o cartão e, caso a gente perca o transporte escolar, precisamos desembolsar o dinheiro da passagem”, diz Márcia. A falta do validador digital de Passe Fácil apontado pela professora é apenas uma das reclamações apontadas pela população na reunião organizada pela Autarquia de Mobilidade Urbana de Belém com moradores de Cotijuba no último sábado,23.
Atualmente um barco regular oferecido pela Amub faz a linha Icoaraci-Cotijuba, com duas saídas e dois retornos diários. A passagem subsidiada custa R$ 2,20 de segunda a sábado, e R$ 4,40 aos domingos e feriados, aceitando benefícios previstos em lei, como meia passagem para estudantes e gratuidades para idosos e portadores de deficiência. Além disso, 27 barcos especiais, cinco bondinhos com tração motora, 15 charreteiros com tração animal e cerca de 25 mototáxis formam os serviços de transporte ofertados aos usuários da ilha, muitos deles sem atender os pré-requisitos necessários para o transporte de passageiros.
“É preciso organizar e regularizar esta situação. A população tem direito e merece meios de transporte de qualidade com conforto”, disse a diretora-superintendente da Amub, Maisa Tobias, que apresentou alguns dos projetos já previstos para o primeiro semestre de 2013, entre eles a implantação do validador digital no barco regular subsidiado pela prefeitura.
O projeto de transporte nas ilhas, anunciado pelo diretor de Transportes da Autarquia, Gilberto Barbosa, prevê um estudo sobre meios que associem segurança de passageiros e preservação ambiental, com ênfase, por exemplo, no uso de charretes, mas os serviços já em funcionamento não serão desativados, e sim regulamentados. “O primeiro passo é regularizar os meios que já funcionam, como os mototaxis. Convidamos os profissionais para se credenciarem no próximo edital que será publicado ainda no primeiro semestre, lembrando que o número de concessões será proporcional às demandas da população”, antecipou o diretor.
Maísa Tobias anunciou o lançamento de edital público para licitar a empresa que fará a linha Icoaraci-Cotijuba, ainda em março, quando vence o contrato em vigor. “Vamos priorizar a empresa que oferecer um projeto de transporte de qualidade ao usuário. Será um contrato de dois anos, renovado por mais dois anos”, informou, avisando que também em breve será implementado o projeto de integração com bilhete único, onde uma única passagem dará direito a utilizar o transporte hidroviário e seguir viagem nos coletivos terrestres e vice-versa.
“O processo licitatório para regularizar o transporte hidroviário da ilha vai suprir as necessidades da comunidade e gerar mais conforto e segurança para quem precisa se deslocar até Belém com frequência”. enfatizou Maria Waldenize Braga, administradora distrital da ilha de Cotijuba.

Soluções

A construção de um terminal hidroviário na ilha de Cotijuba também aparece como um dos destaques do projeto de transporte local. “Queremos fazer um porto hidroviário que sirva à população e que seja digno, com itens indispensáveis como um abrigo para proteger os usuários da chuva enquanto aguardam o navio”, destacou Maisa. O vereador Mauro Freitas, líder do governo, que representou a Câmara Municipal na comitiva, também falou sobre a implantação de um outro terminal hidroviário em Icoaraci. “O projeto hidrofluvial ainda será votado e tem como proposta interligar a linha fluvial ao projeto do BRT (Bus Rapid Transit). Além de facilitar o acesso dos moradores das ilhas à capital, padronizar o sistema de transporte dessa população vai gerar um custo menor para eles”, destacou o vereador. “Ações como esta valorizam o que a população das ilhas têm de maior potencial, que é o transporte hidroviário”, destacou Mauro Freitas.
Enquanto isso, soluções mais práticas já devem sair do papel, como cursos de capacitação para barqueiros e operadores de charretes, além da parceria com o Detran para regularizar o serviço de mototáxi que há alguns anos impera na área, para que o serviço oferecido seja mais qualificado. “Nossa primeira missão é oferecer um transporte que dê conforto ao usuário, com equipamentos seguros e que apresente manutenção adequada”, disse Gilberto Barbosa.
A falta de segurança e qualidade no transporte escolar na ilha também é um problema enfrentado hoje no local. Situação que deixa o morador Adevilson Mocinho indignado. Segundo ele, para chegar à escola os alunos são levados em um bondinho que não tem estrutura adequada para tal serviço. O presidente da Funbosque, Fabrício Modesto, que estava na comitiva e conhece bem as dificuldades dos estudantes da ilha, garantiu que vai buscar uma solução para esse problema. “Assim como já conseguimos autorização para a construção de uma nova escola na Unidade do Seringal, o transporte adequado desses alunos também é meta da minha gestão”, anunciou. A escola a que ele se refere, hoje de madeira, ganhará uma estrutura em alvenaria ainda neste primeiro semestre, para que no retorno às aulas em agosto aos alunos já usufruam de melhores instalações.
Com tantas novidades anunciadas na área de transporte e educação na ilha, Márcia Barata ficou mais otimista. “Esta é a primeira vez que um superintendente do órgão vem a Cotijuba, em toda a história. Isso deixa a gente com a autoestima lá em cima e faz a gente acreditar que vale a pena continuar a cumprir a nossa missão aqui, o que no meu caso significa lecionar e trazer conhecimento aos alunos. E se o transporte melhorar, com certeza a qualidade de vida melhora e, com isso, a ilha só tem a crescer”, acredita a professora.
Segundo os representantes da Amub, a intenção é que o projeto de transporte que começou a ser traçado nesta reunião se torne um modelo a ser implantado nas demais ilhas de Belém. “Queremos aproximar as ilhas e mostrar que este rio não é um símbolo de separação, mas uma via que aproxima a ilha do continente”, disse Maisa Tobias.

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Elianna Homobono
 /Adriana Lyra

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