6/16/2013

RAY CUNHA





Posse ao anoitecer


T
eu dorso, à sombra da tarde que finda e escoa em murmúrios,
É alvo como pétala de rosa vermelha; sinuoso; nu.
Agarro-me aos cabelos, às ancas, aos ombros, ao perfume,
Bêbedo de gemidos.
A noite se instala como transatlântico no porto;
Feérico, iluminado, Copacabana Palace.
Tuas costas são alvas como jambo.
De olhos fechados, sorvo cheiro de nudez,
Sabor de Dom Pérignon, safra de 1954;
Ouço Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo,
E os 14 minutos e 10 segundos do Bolero, de Maurice Ravel, 
Sob a regência de Silvio Barbato.
Abro os olhos e enxergo o halo vermelho da noite,
Suave como o primeiro movimento, allegro,
Do Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor,
Número 20, K. 466, de Mozart;
Pulsar longínquo, o atrito da Terra no espaço,
Gemidos femininos se esvaindo,
Som de maresia,
Sangue circulando nos tímpanos.
O segundo movimento, romanze,
Estrelas acamando-se no azul da alma.
O terceiro movimento, rondó,
Flores se abrindo ao riso de crianças.
Solto o urro, vibrante, de leão alado, ao ouvir gritos abafados,
E sentir que desmaias ao acme.


Brasília, 15 de junho de 2013

Natural de Macapá, cidade localizada na margem esquerda do maior rio do planeta, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador, na Amazônia Caribenha. Vive em Brasília, Distrito Federal, Brasil.

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