7/21/2016

RAY CUNHA


O acupunturista velho


BRASÍLIA, JULHO DE 2016 – Sou aluno do Curso de Medicina Tradicional Chinesa da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). A maioria dos meus colegas são jovens, inclusive os professores; boa parte deles são pessoas de meia idade, e alguns são idosos. Talvez eu seja o mais velho, 62 anos. Outro dia um colega ficou preocupado comigo, pois, no seu entendimento, firmar-se como acupunturista pode levar 10 anos; então, eu estaria com 72 anos. Expliquei-lhe que não me preocupo nem com amanhã, quanto mais com 10 anos.
A eternidade é agora; a minha curtição é agora. Só as centenas de pacientes que já atendi voluntariamente, e o sorriso que ganhei de presente de muitos deles, valem mais do que 50 anos de mercado.
Para mim, o significado de juventude é único. Sinto-me, inequivocamente, espírito, e no mundo espiritual não existe a dimensão do tempo. O corpo se submete às leis da matéria: espaço – altura, largura e espessura –, tempo, força de gravidade e código genético. De modo que chega um momento em que até as pessoas mais saudáveis, mais fortes, mais cheias de vitalidade, vão esmorecendo, perdendo o viço, encolhendo, murchando, esfarelando-se, o rosto vai ficando como maracujá de gaveta, as juntas vão emperrando, o coração se esforça desesperadamente. Velhice é a aproximação da morte.
Às vezes, aparece uma rosa que incendeia o coração, e então o Qi da alegria transforma de novo a vida num jardim, e sentimos que a eternidade é agora, intensidade, poesia, vida. A vida jamais se extingue; o que se extingue é a matéria, a matéria sem a vida – átomos.
Os jovens não sabem disso. O que os jovens sentem é que são fisicamente imortais, talvez porque ainda não despertaram para o mundo espiritual. Os jovens são também imortais por causa da beleza inerente à juventude; a beleza é imortal por si mesma, contêm a eternidade das rosas.

Caro colega, já estou descendo a ladeira, sem freio, mas essa velocidade é nada perante o cheiro azul do mar, o perfume das virgens ruivas, as asas da luz.

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••• RAY CUNHA – Escritor e Jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil, e o mais antigo colunista do Jornal do Feio

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