10/10/2016

RAY CUNHA



Capítulo 8 do thriller político-policial

A CONFRARIA CABANAGEM, de RAY CUNHA



O novo romance de Ray Cunha mistura realidade e ficção. Senador lidera nas pesquisas para governador do Pará, mas interesses poderosos conspiram para que ele seja assassinado, aparentando morte natural. Conhecedor da Amazônia profunda e ciente de que a tragédia do Trópico Úmido é a mentalidade de colonizado da maioria dos amazônidas, o senador Fonteles, que lidera nas pesquisas eleitorais, se tornou a esperança dos que querem tirar o Pará da Idade Média, concorrendo ao governo contra o ex-governador Jarbas Barata, que governa das sombras o estado. Porém, uma organização clandestina, a Confraria Cabanagem, que luta pela democracia e o desenvolvimento do Pará, detecta uma conspiração para assassinar o senador Fonteles, e convoca o único homem capaz de deter o assassino: o ex-delegado de polícia e detetive particular Apolo Brito, que mora em Brasília.

Some do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) um frasco com ínfima porção de homobatracotoxina, o mortal veneno do Phyllobates terribilis, juntamente com um muiraquitã, branco, de jadeíta, de 50 milímetros, pesando 42 gramas, de 2.500 anos, uma peça tapajônica sem preço. Em conversa com o assessor de imprensa do museu, o jornalista Montezuma Cruz, Apolo Brito descobre indícios de que estariam traficando água do rio Amazonas, e mergulha na chamada questão amazônica, e em símbolos caros aos paraenses, como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, o Ver-O-Peso, a Estação das Docas, o tacacá.
Neste romance ensaístico, personalidades vivas transitam entre personagens de ficção, como é o caso do lendário jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, um dos maiores intérpretes mundiais do enigma da Amazônia, que se encontra com o fictício detetive Apolo Brito no restaurante Restô do Parque, na ex-residência oficial dos governadores do Pará, na Avenida Magalhães Barata 830, antiga Avenida Independência, no bairro de São Brás, palácio erguido no início do século passado, em estilo eclético, em que predomina o neoclássico, e elementos de art nouveau, e que, em 1998, passou a ser chamado de Parque da Residência, onde moraram os dois mais ilustres governantes da história recente do Grão-Pará: Lauro Sodré (1917-1921) e Magalhães Barata (1888-1959).

CAPÍTULO 8

No dia seguinte, a multidão que aguardava a saída da Virgem começou a se mover às 6h30. Apolo Brito colara no senador Fonteles já dentro da Catedral e quando ele enveredou na multidão rumo à Corda.

A corda não é como o cânhamo
a envira, a juta, a malva, manilha
trançada torcida e retorcida
em mãos paradas
em círculo estático
formando uma muralha.
É o caminhar sem caminhar
o andar sem andar
o rezar sem rezar
a simples fé na Santa do lugar...

Enquanto seguia o senador Fonteles, Apolo Brito lembrou o Discurso sobre a Corda, de Benedicto Monteiro, que Batista Campos declamara no dia anterior, e também um poema de João de Jesus Paes Loureiro:

Quisera ser essas folhas de mangueira
à tua passagem
e te roçar de leve com meus lábios.
Quisera ser esse raio de sol
por entre as folhas,
para tocar tua imagem e te aquecer.
Quisera ser essa brisa
das manhãs de Belém,
para agitar levíssimo o teu manto.
Quisera ser um hino
a rebrotar dos lábios das crianças.
Um hino em teu louvor!
Quisera ser os passos da paixão
te acompanhando,
como o peixe acompanha
a procissão das águas,
como o tema da canção
que passa
por entre a melodia.
Quisera ser as sílabas do amor
para a linguagem ser dos que te amam.

A Corda media 400 metros de comprimento e duas polegadas de diâmetro. Utiliza-se aquele tipo de corda na ancoragem de navio. Era de sisal oleado e pesava uma tonelada. Cerca de 7 mil pessoas a carregavam, aglomeradas como formigas, o suor escorrendo sob 33 graus centígrados, potencializados talvez para 40. O senador Fonteles apenas se aproximara da Corda, de modo que pudesse ver aquele formigueiro móvel e assim irmanar-se a ela pela mente, pois se fizesse isso fisicamente estaria morto. Atrás dele, Apolo Brito o seguia. O senador era alto para os padrões dos amazônidas. Lembrava Castro Alves. Dona Eleonora não fora. Apolo Brito identificou dois seguranças. Cabanos, certamente. Mas qualquer pessoa, inclusive os seguranças, poderia se aproximar do senador Fonteles e dar uma insuspeita espetadinha nele. “Maria, a bem-aventurada porque acreditou.” A Corda lembrava a cobra grande, ao som de 2,2 milhões de romeiros que desaguavam dos afluentes no rio principal, de 3,7 quilômetros, numa “demonstração de fé única, que não pode ser descrita, mas vivida” – dissera o arcebispo dom Alberto Taveira. Quando a Virgem chegou o mais perto do edifício Manoel Pinto da Silva, um ícone arquitetônico da Amazônia, inaugurado em 1958, de 25 andares e 100 metros de altura, na confluência da Praça da República e avenidas Presidente Vargas, Nazaré e Serzedelo Correa, uma chuva de papel picado turvou o céu. Apolo Brito julgou ter visto Jarbas Barata no primeiro andar. Dali, o Círio se arrastou pela Avenida Nazaré, sob o túnel de mangueiras, até a Basílica de Nazaré, na Praça Santuário, onde chegou ao meio-dia. Então a população imensa foi se diluindo, rumo ao banquete do Círio. Consome-se cerca de 100 toneladas de pato, 60% congelados, importados do Canadá e do Rio Grande do Sul, porque a produção local não dá conta. Contudo, o prato mais consumido é maniçoba. Além de maniçoba e pato no tucupi, os mais abastados se banqueteiam também de vatapá, caruru, pescada ao molho de camarão, unha de caranguejo, bolo de macaxeira, suco de taperebá, de cupuaçu, de graviola, açaí com farinhas de tapioca e d’água, tacacá.

A CONFRARIA CABANAGEM está à venda somente no Clube de Autores

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••• RAY CUNHA – Escritor e Jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil, e o mais antigo colunista do
Jornal do Feio

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