10/20/2009

Antônio Cavalcante



ASSEMBLEIA DOS MITOS

Meados de 2003, durante a lua cheia de agosto os entes da floresta reuniram-se em assembléia no Bosque Rodrigues Alves Jardim Botânico da Amazônia, para deliberar sobre assuntos referentes às questões do meio ambiente e também prestar sua homenagem aos 120 anos da centenária instituição que desde 1883 vem defendendo a biodiversidade da Amazônia, preservando um fragmento florestal representante do bioma amazônico, no meio urbano da capital paraense.
Presentes na referida reunião estavam o Mapinguari, o Curupira, a Iara, e a Matinta Pereira. O Boto, e a Cobra Grande justificaram suas ausências através de mensagens. O primeiro encaminhou um documento parabenizando o Bosque pelos 120 anos e declarando a sua preocupação com o meio ambiente, a bio-pirataria, lamentando a perseguição e o modo como está sendo tratado por alguns seres humanos, apresentando sua epístola no formato de lamento poético conforme transcrição na íntegra a seguir:
Lamento do boto - Fui criado em rio limpo / De águas puras amazônidas. / Em torno de mim surgiu a lenda / De caboclo conquistador./ Fui culpado injustamente/ De ceifar a virgindade, / De formosas cunhãs na floresta, / Emprenhando-as docemente / Ao fim de festas enluaradas, / Por secula, secula, seculorum. / Muitos se aproveitaram / Dessa afamada sina. / Até caçando meus parentes / Para o sexo retirar, / Transformando esse órgão / Em matéria prima de mandinga/ Para um amor conquistar. / Porra; vão castrar os seus iguais. / Deixem a minha família em paz./ Isso é muita sacanagem; / Deixem a minha família em paz. / E agora pra completar / Estão poluindo minha morada / Vivo fugindo do mercúrio, / Agrotóxicos e merda humana / Lixo, chorume e detritos. / Seres de ambição desmedida./ Destruindo o meu habitat./ Eh! Homem vê se te manca. / Ta na hora de despertar, / Respeitar a natureza, / É voltar à verdade da vida.
A Cobra Grande também justificou sua ausência por escrito, conforme citado anteriormente, em seu documento ela diz: que esta muito preocupada com os incêndios ocorridos pela serra dos Carajás, pela poluição das praias de Barcarena e que estava tendo muito trabalho lá pelas bandas da mesopotâmica região Xingu e Tapajós, principalmente nas zonas de garimpos onde o meio ambiente está sendo poluído pelo mercúrio, afetando a saúde dos seres vivos daquele lugar.
A reunião contou ainda com a participação do Lobo como observador internacional, que aproveitou a oportunidade para agradecer a homenagem prestada aos seus ancestrais por ocasião da implantação do paisagismo do bosque há 100 anos atrás.
O local escolhido para a realização do evento foi a Gruta encantada, em sua parte superior, para melhor receber a influência da Lua e assim receber os fluídicos lunares nas decisões propostas pelos participantes do encontro.
Todos os presentes manifestaram sua alegria nas mensagens de congratulações pelo centésimo vigésimo aniversario do Bosque Rodrigues Alves e a sua transformação em Jardim Botânico da Amazônia, bem como pelo centenário do paisagismo do ícone da biodiversidade belenense, e que sentem que uma considerável parcela da população humana esta no rumo certo nas questões ambientais, no respeito e conservação da natureza, chegando a considerar o Bosque como um grande laboratório para a manutenção da biodiversidade amazônica, numa perfeita relação homem x natureza.
Esse momento foi de total descontração no encontro servindo inclusive, para quebrar as tensões, revoltas, e magoas pelos fatos ruins que estão acontecendo na região, como a ação da bio-pirataria, pois é sabido que pessoas inescrupulosas em nome da pesquisa científica se aproprie das coisas do bioma amazônico e faça o registro de propriedade em seu nome ou do seu país, fazendo com que a utilização do material registrado, implique no pagamento de royalties, impedindo dessa forma, o inalienável usufruto do planeta terra a que todos temos o direito. É também bastante preocupante a questão dos grandes projetos de mineração na região, notadamente pela situação do visinho estado do Amapá que alem das mazelas sociais restou ainda uma grande dívida ambiental, com o fim das atividades mineradoras da ICOMI, empresa que explorou por mais de 50 anos aquelas terras.
Diante desses episódios a figura lendária do Mapinguari estava totalmente transtornada, chegando a ponto de querer aprontar para cima da Guarda Municipal e vigias daquele logradouro. A Iara com a beleza do seu canto encantado e o Curupira com aquele seu jeito moleque conseguiram contemporizar o ambiente, fazendo com que os presentes como que anuviados, soltassem gostosas gargalhadas de sua diabrura.
O que se pode notar no evento é que essas figuras lendárias da mitologia amazônica, de um modo geral, estão preocupadas com o destino da região, com as questões ambientais como desmatamento, queimadas, poluições diversas, tráfico de animais silvestres, expansão da fronteira agrícola, utilização de agrotóxicos e a bio-pirataria, atividades essas que com certeza afetarão o ecossistema do bioma amazônico podendo levar ao desaparecimento dos seres vivos nas suas diversas formas nesse santuário ecológico.
Por outro lado sentem que poderão ser utilizados de forma figurada nas ações de educação ambiental, que não cobrarão nenhum cachê das ONGs que usarem seus personagens nas historias voltadas para esse fim, desde que respeitem a origem de suas lendas, e que sejam instrumentos de combate a bio-pirataria e as agressões a natureza, para que as futuras gerações tomem conhecimento desta rica mitologia bem verde amarela e usufrua com os demais habitantes da terra as benesses desse santuário ecológico, oriunda das atividades geradas pelos povos da floresta na figura dos índios, seringueiros, ribeirinhos, em sua atividades extrativistas, obedecendo as regras de um desenvolvimento sustentável ecologicamente correto.

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Tatá Cavalcante
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