7/20/2011

RAY CUNHA


A pior e a melhor entrevista que fiz como repórter


Em 1976, trabalhei como repórter em A Notícia, diário de Manaus, já extinto. Foi o segundo jornal em que trabalhei. O primeiro foi o Jornal do Comércio, também de Manaus, em 1975, onde comecei a carreira, como repórter policial. Era autodidata, pois tinha apenas o curso básico incompleto, e só me graduei em jornalismo 12 anos depois, em 1987, pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
A Notícia foi uma escola para mim. Foi lá que conheci José Marqueiz, Prêmio Esso em 1973, por cobrir para O Estado de S.Paulo a expedição dos irmãos Vilas-Boas de contato dos índios kranhacarore, no Mato Grosso. Marqueiz era correspondente do Estadão e redator de A Notícia. Ele foi o primeiro a pavimentar meu texto jornalístico. Depois, tive outro mestre, Octávio Ribeiro, o Pena Branca. Fui redator dele, que era editor de polícia em O Estado do Pará, lá por 1978, e com ele aprendi a escrever de maneira objetiva e clara. Obrigado!
O Marqueiz e eu nos tornamos amigos. Batemos muito papo no Amarelinho. Quando fez a reportagem que lhe daria o Esso, Marqueiz contraiu malária, e para combater o frio, bebia. Tornou-se alcoólatra. Bebia parte da noite, pequenos tragos de Pitú, seguidos de chopp. Certa noite pernoitei na casa dele e saímos cedinho. Paramos no bar de um português, no centro de Manaus, que Marqueiz frequentava, e ele me convidou para fazer o desjejum: um copo de Pitú na cintura, que ele sorveu de um só trago. Recusei. O máximo a que cheguei foi fazer desjejum com a maravilhosa Antarctica manauara.
Mas a pessoa de quem quero falar, realmente, é Bianor Garcia, então diretor de redação de A Notícia. Comparo os diretores de redação a comandantes de navio. Se não conhecerem as vísceras da arte de fazer jornal e tiverem talento e pulso, a redação naufraga, e, com ela, a empresa. Nesse contexto, o maior mestre que tive foi Walmir Botelho, brilhante jornalista paraense e ser humano iluminado. Walmir, por si só, constitui-se em caudaloso artigo. Se Walmir, que é um dos mais brilhantes editores de jornal do país e um dos textos mais enxutos, resolvesse escrever suas memórias, a história recente do Pará seria enriquecida pela sua luz.
Voltemos a Bianor Garcia. Nosso relacionamento era bom. Eu tinha 21 anos de idade, mas assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, e cobria a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Certa vez, ele foi convocado a dar uma explicação ao comandante Militar da Amazônia e enviou a mim para representá-lo. Foi nesse contexto que, acredito, fiz a pior entrevista como repórter. Fui escalado para entrevistar Roberto Carlos.
A produção conseguiu entrevista exclusiva com Roberto, que fora apresentar-se em Manaus (um dos grandes shows que vi) e estava hospedado no Hotel Amazonas, centro da cidade. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava meia de mulher como touca, antes dos shows. Pergunta bizarra, mas que satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal. Tudo bem! O problema era que o gravador estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista meu destino estaria selado: rua. Aí, só me restaria mudar de cidade, pois saberiam disso no jornal concorrente, A Notícia, e eu não teria para onde correr.
Fui fazer a entrevista. No hotel, fomos conduzidos para o corredor do apartamento do Rei, onde o fotógrafo e eu fomos recebidos por dois seguranças. Roberto não nos recebeu no apartamento, mas, depois de aparentemente se arrumar, saiu do apartamento, que suponho fosse modesto, pois que o hotel, salvo engano, era três estrelas, e me deu a entrevista no corredor.
O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia, assunto que fora objeto de revista de fofoca. Ele me respondeu numa boa. Mas não me lembro do teor da entrevista, pois estava preocupado com o gravador, de olho nele, vigiando o rolo de fita girando. Era um velho gravador de tamanho médio. Assim, não prestei atenção à fala do Rei. Mais tarde, na redação, desgravando a entrevista, vi o quanto ela foi burocrática. Mas tudo bem! Restou uma fotografia com o Rei.
A Notícia me proporcionou, também, o que julgo ser uma das melhores, senão a melhor entrevista que já fiz como repórter. Também foi em 1976. Estávamos nos anos de chumbo, a Ditadura dos Generais (1964-1985), governo de Ernesto Geisel. O ministro da Educação era o general de brigada Ney Braga. No dia 31 de março de 1976, Ernesto Geisel inaugurou o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, de Manaus. Ney Braga foi também.
Quase toda a equipe do jornal foi escalada para cobrir a permanência de Geisel e comitiva em Manaus, o dia todo. Fazia parte da minha pauta fazer entrevista exclusiva com Ney Braga e perguntar a ele se o Decreto 477 (editado em 1969) ainda era necessário. Bianor Garcia deixara claro: se eu não conseguisse a entrevista era melhor nem voltar para o jornal. Desconfiei, inclusive, que Bianor queria se livrar de mim, pois a missão era impossível.
A propósito do Decreto 477, enquadrava estudantes e professores que, pensando alto, contrariassem o regime. Em 1972, eu era aluno da quarta série do antigo curso ginasial (equivalente, hoje, à quarta série do ensino básico), no Colégio Amapaense, em Macapá, minha cidade natal, e editor de A Rosa, um jornal anarquista, mimeografado. Um exemplar desse jornal fora enviado para o general Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Amapá, mas um amigo meu o interceptou. Caso tivesse chegado às mãos do general talvez eu tivesse sido expulso do mundo estudantil. Só peguei 15 dias de suspensão, após inquérito disciplinar, quando fui interrogado pelos diretor e vice-diretor do colégio.
Voltemos a Manaus. À noite, Ney Braga participaria de um encontro num clube da alta sociedade no centro de Manaus. Fui para lá, desta vez com um gravador que estava funcionando normalmente. Sentia-me meio condenado, mas com o estímulo do tudo ou nada. Fiquei de plantão num local pelo qual Ney Braga teria que passar. Quando ele se aproximou, avancei. Os seguranças foram pegos de surpresa, pois não dei tempo a ninguém. O gravador na mão, avancei para Ney Braga, com a serenidade dos que não têm nada a perder, me identifiquei como repórter da A Notícia e sapequei a pergunta:
- O Decreto 477 ainda tem razão de ser? - algo assim.
Ney Braga parou, me olhou nos olhos. Os olhos dele tinham a opacidade de quem compartilha as intimidades do ditador, uma espécie de tédio e certeza de que pode tudo.
- Você é jornalista? – ele me perguntou. Eu não era jornalista. Sequer tinha o ensino básico completo. Só em 1982 é que comecei a cursar jornalismo, por pressão das empresas jornalísticas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará.
- Sou repórter de A Notícia – repeti.
- E o que é que você acha? Você acha certo a anarquia? – ele disse algo mais ou menos assim.
- Quero saber sua opinião, ministro – insisti.
O restante da entrevista caiu para a burocracia. O general, e seu labirinto, foram-se logo. Creio que ele encerrou a entrevista mais por enfado do que por pressa. Naquelas alturas, suponho, os generais começaram a sentir que a farsa já havia ido longe demais. Voltei iluminado para o jornal. Havia compreendido várias coisas, entre as quais a de que quem está na chuva é para se molhar.
Anos depois, o sargento paraquedista do Exército, Abílio Teixeira, que foi segurança de vários generais, me ensinou que um general é um homem como outro qualquer. A única coisa que o diferencia é seu uniforme. E um uniforme é só um uniforme. Aquela entrevista foi uma das melhores que já fiz porque comecei, naquele momento, a ter noção disso. E meu texto começou, naturalmente, a desmitificar a ditadura.

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