2/09/2012

RAY CUNHA


A vida boêmia dos rapazes do Trem





O bairro do Trem tinha aquele movimento agradável de início de noite. Latejava, na conversa, a expectativa de beber.
- Vamos para o GEM? – disse Gig.
O GEM ficava na Tiradentes, e Gig, Boi Manco e Gim Garrafa foram para lá, aqueceram-se com três doses iniciais e sentaram-se numa mesa no passeio público, com uma garrafa de Pitú.
- E o Galego Demônio? – o dono do bar quis saber, servindo-os de pedaços de genipapo.
Era sexta-feira e o movimento cresceu logo. Resolveram dar um pulo no Bar Caboclo, para ver como as coisas estavam lá. O bar Caboclo estava lotado, o ar saturado de fumo, sebo, gargalhadas e música ordinária.
- Três de Pitú.
Uma mulher se aproximou deles e pegou no rosto de Gim Garrafa.
- Mas que criancinha bonitinha! Vou te levar para a minha cama... – beijou-o no nariz. – Quantos anos você tem, lindeza? Você é uma criancinha linda...
Ela era muito feia e Gin se chateou com aquilo.
- É melhor a gente pegar rum na taberna do Mário Porreta – disse Gim.
Quando chegaram no Mário Porreta havia um bêbedo dormindo na frente.
- Vamos botar fogo na mão dele? – sugeriu Boi Manco.
- É bom. Só assim ele vai se esquentar – disse Gim Garrafa.
Havia um pedaço de jornal na rua.
- Me dá aqui – pediu Gim Garrafa. – Agora é minha vez – continuou ele, rasgando e colocando um pedaço de jornal na mão do bêbedo e ateando fogo. Era um bêbedo muito velho. Ele se mexeu. Tornou a se mexer, mas não acordou.
- Vamos fazer uma bandalheira com ele – Gim Garrafa decidiu. Mas Boi Manco sabia que ele estava muito doido.
- É melhor a gente pegar rum e ir para a praia.
- É melhor – Gig concordou. – A gente aproveita e rouba também uns enlatados.
- Gig e Boi Manco ficaram vigiando. Gim Garrafa entrou pelo telhado. Ele sabia fazer muito bem o negócio. Depois apanharam coco na casa de Gim Garrafa, que ficava bem perto, e desceram para a Vacaria do Barbosa. Lá pela manhãzinha Gim Garrafa começou a dar pinotes até cair de vez. Gig acendeu um pedacinho de papel na mão dele e disse: “Aguenta firme”. Pois ele aguentou firme e não acordou.
- Vamos tomar banho – disse Gig.
Avistaram uma garota. Boi Manco segurou-a e levaram-na para trás de uma moita de aturiazeiro. Ela chorava, mas depois se calou. Quando acabaram Boi Manco disse: “Vamos, tenho sono”.
O dia amanheceu todo. De noite teriam um baile na casa do Galego Demônio.


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Conto do livro A grande farra – edição do autor (Ray Cunha), Brasília, 1992, 153 páginas, esgotado



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♦ Escritor e jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil

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