2/16/2012

RAY CUNHA




Brasília, 15 de fevereiro de 2012 – Este blog é pessoal, portanto, de ordinário, publico, a princípio, apenas textos de minha autoria, mas, de vez em quando, abro exceção, como agora, em defesa de um dos maiores jornalistas do mundo, patrimônio do estado do Pará, ameaçado pelo capuz do Judiciário.






Jornalista ameaçado: somos todos Lúcio Flávio


RICARDO KOTSCHO




14 de fevereiro de 2012 - Caros leitores e colegas jornalistas,


Trabalhei durante muitos anos com um jornalista excepcional: Lúcio Flávio Pinto, um paraense de notável coragem, que dedicou toda sua vida pessoal e profissional a divulgar e defender a sua terra e a sua gente. É o maior especialista em Amazônia do jornalismo brasileiro.
Lúcio é, acima de tudo, um estudioso, um trabalhador incansável, que não se conforma com as injustiças e as bandalheiras de que são vítimas a floresta e o povo que nela habita. Por isso, foi perseguido a vida toda pelos que ameaçam a sobrevivência desta região transformando as riquezas naturais em fortunas privadas.
Agora quem está ameaçado é o próprio Lúcio Flávio, na sua luta solitária contra dezenas de processos movidos pelos poderosos na Justiça para impedi-lo de continuar denunciando os assassinos da floresta.
Quem sempre esteve ao seu lado foi Raul Martins Bastos, nosso chefe no Estadão, que me enviou na noite de segunda-feira a mensagem transcrita abaixo. É um libelo não só em defesa do grande jornalista, mas da nossa profissão permanentemente ameaçada nos tribunais.
Onde estão nesta hora as poderosas entidades patronais da mídia, como a ANJ e o Instituto Millenium, e seus arautos sempre tão preocupados na defesa da liberdade de imprensa e de expressão?
Lúcio está fora da grande imprensa há muitos anos, sobrevivendo com o seu Jornal Pessoal, um quinzenário que produz sozinho. Talvez por isso não mereça a atenção dos editorialistas dos jornalões e das entidades que costumam se manifestar nestas horas, como a OAB e a CNBB.
Cabe, portanto, a nós, jornalistas, sair em sua defesa como propõe o mestre Raul Bastos e sermos todos Lúcio Flávio nesta hora.


A indignidade que estão fazendo contra o jornalista Lúcio Flávio Pinto


RAUL BASTOS


Lúcio Flavio Pinto é um jornalista de Belém do Pará que há quase vinte anos edita uma publicação chamada Jornal Pessoal. É um profissional excepcional e fonte obrigatória quando for escrita a verdadeira história da região dos anos 70 para cá. Trabalhou, entre outros lugares, na Realidade, no Correio da Manhã e, por longos anos, no O Estado de S.Paulo como principal repórter da região e coordenador geral da cobertura dos correspondentes na Amazônia. Nesse período teve vida acadêmica e deu cursos sobre a Amazônia em universidades dos Estados Unidos e da Europa.
O Jornal Pessoal ele faz sozinho, da apuração à edição. Não tem publicidade. Evidentemente, o jornal luta para se manter. Mas esse é o menor problema da vida do Lúcio Flávio.
O grande problema é a pressão sistemática que ele sofre dos poderosos da região por publicar matérias que denunciam indignidades e incomodam justamente os poderosos da região. Tentam calá-lo de várias maneiras, da intimidação à agressão, e ele tem resistido bravamente.
Tentam sufocá-lo e calá-lo com 33 processos. Um deles está para ser concluído e tudo indica que poderá ser desfavorável.
Qual o "crime" do Lúcio Flávio Pinto?
O Lúcio publicou denúncias comprovadas de que estava ocorrendo uma enorme grilagem de terras na região. Com isso impediu que o empreiteiro CR Almeida fizesse na Amazônia a maior grilagem da história do Brasil. Em represália, foi processado por CR Almeida sob a alegação de ter sido chamado de pirata numa das matérias do Lúcio Flávio, o que julgou ofensivo.
Foi indo, foi indo e, agora, anos depois e por incrível que pareça, o caso está terminando assim:
Com o CR Almeida não aconteceu nada.
Com o Lúcio, se avizinha uma condenação. Com essa condenação, a perda da primariedade, uma porta aberta para a intimidação absoluta.
Os amigos do Lúcio Flávio, entre os quais com muito orgulho me incluo, decidiram que ele não pode e nem vai ficar sozinho.
Vamos batalhar para tentar esgotar todas as possibilidades jurídicas do caso.
Vamos batalhar para que o caso ganhe espaço na imprensa e nas redes sociais. Vamos chamar a atenção da imprensa especializada e internacional para o caso.
Vamos batalhar, se por acaso ocorrer o pior, para que ele tenha recursos para enfrentar a situação.
O objetivo deste e-mail é dar conhecimento do que está acontecendo e da nossa disposição de não deixar continuar acontecendo.
O objetivo deste e-mail é pedir a sua ajuda. Primeiro, divulgando o que está acontecendo no seu veículo de comunicação, na sua coluna, nos sites, redes sociais. Depois, nos ajudando nas ações nas áreas das comunicações e mobilização que tomaremos diante de cada circunstância.
Para quem quiser mais informações do que aconteceu e do que está acontecendo ler o texto abaixo do próprio Lúcio.
Contando com você, muito obrigado e um abraço do Raul Bastos.


O Grileiro vencerá?

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal


Em 1999, escrevi uma matéria no meu Jornal Pessoal denunciando a grilagem de terras praticada pelo empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país, com sede em Curitiba, no Paraná.
Sem qualquer inibição, ele recorreu a vários ardis para se apropriar de quase 5 milhões de hectares de terras no rico vale do rio Xingu, no Pará, onde ainda subsiste a maior floresta nativa do Estado, na margem direita do rio Amazonas, além de minérios e outros recursos naturais. Onde também está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, para ser a maior do país e a terceira do mundo.
Os 5 milhões de hectares já constituem território bastante para abrigar um país, mas a ambição podia levar o empresário a se apossar de área ainda maior, de 7 milhões de hectares, o equivalente a 8% de todo o Pará, o segundo maior Estado da federação brasileira. Se fosse um Estado, a "Ceciliolândia" seria o 21º maior do Brasil.
Em 1996, na condição de cidadão, ajudei a preparar uma ação de anulação e cancelamento dos registros das terras usurpadas por C. R. Almeida, com a cumplicidade da titular do cartório de registro de imóveis de Altamira e a ajuda de advogados inescrupulosos. A ação foi recebida e todos advertidos de que aquelas terras não podiam ser comercializadas, por estarem sub-judice, passíveis de nulidade.
Os herdeiros do grileiro podem continuar na posse e no usufruto da pilhagem, apesar dessa decisão, porque a grilagem recebeu decisão favorável de dois desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado. Deve-se salientar que essas foram as únicas decisões favoráveis ao grileiro.
Com o acúmulo de informações sobre o estelionato fundiário, os órgãos públicos ligados à questão foram se manifestando e tomando iniciativas contra o golpe. O próprio poder judiciário estadual interveio no cartório de Altamira e demitiu todos os serventuários que ali trabalhavam, inclusive a escrivã titular, por justa causa.
Todos os que o empresário processou na comarca de São Paulo foram absolvidos. O juiz observou que essas pessoas, ao invés de serem punidas, mereciam era homenagens por estarem defendendo o patrimônio público.
A justiça de São Paulo foi muito mais atenta à defesa da verdade e da integridade de um bem público ameaçada por um autêntico "pirata fundiário", do que a justiça do Pará, com jurisdição sobre o território esbulhado. C. R. Almeida considerou ofensiva à sua dignidade moral a expressão "pirata fundiário", e as duas instâncias da justiça paraense sacramentaram a sua vontade.
Mesmo tendo provado tudo que afirmei fui condenado. A cabulosa sentença de 1º grau foi confirmada pelo tribunal, embora a ação tenha sido abandonada desde que Cecílio do Rego Almeida morreu, em 2008.
Depois de enfrentar todas as dificuldades possíveis, meus recursos finalmente subiram a Brasília em dezembro do ano passado. O recurso especial seguiu para o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, graças ao agravo de instrumento que impetrei (o Tribunal do Pará rejeitou o primeiro agravo; sobre o segundo já nada mais podia fazer).
Mas o presidente do STJ, em despacho do último dia 7, negou seguimento ao recurso especial. Alegou erros formais na formação do agravo: "Falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante do pagamento das custas do recurso especial e do porte de retorno e remessa dos autos".
A falta de todos os documentos apontada pelo presidente do STJ me causou enorme surpresa. Vou tentar esclarecer a situação, sabendo das minhas limitações. Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização.
Desde 1992 já fui processado 33 vezes. Nenhum dos autores exerceu o legítimo direito de defesa. O Jornal Pessoal reproduz todas as cartas que recebe, mesmo as ofensivas, na íntegra. Todos foram diretamente à justiça, certos de contarem com a cumplicidade daquele tipo de toga que a valente ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, disse esconder bandidos, para me atar a essa rocha de suplícios, que, às vezes, me faz sentir no papel de um Prometeu amazônico.
Apesar de todas essas ações e do martírio que elas criaram na minha vida nestes últimos 20 anos, mantenho meu compromisso com a verdade, com o interesse público e com uma melhor sorte para a Amazônia, onde nasci. Não gostaria que meus filhos e netos (e todos os filhos e netos do Brasil) se deparassem com espetáculos tão degradantes, como o que vi: milhares de toras de madeira de lei, incluindo o mogno, ameaçado de ser extinto nas florestas nativas amazônicas, nas quais era abundante, sendo arrastadas em jangadas pelos rios por piratas fundiários, como o extinto Cecílio do Rego Almeida.
Depois de ter sofrido todo tipo de violência, inclusive a agressão física, sei o que me espera. Mas não desistirei de fazer aquilo que me compete: jornalismo. Algo que os poderes, sobretudo o judiciário do Pará, querem ver extinto, se não puder ser domesticado conforme os interesses dos donos da voz pública.
Decidi escrever esta nota não para pressionar alguém. Não quero extrapolar dos meus direitos. Decisão judicial cumpre-se ou dela se recorre. Se tantos erros formais foram realmente cometidos no preparo do agravo, o que me surpreendeu e causou perplexidade, paciência: vou pagar por um erro que impedirá o julgador de apreciar todo meu extenso e profundo direito, demonstrado à exaustão nas centenas de páginas dos autos do processo.
Terei que ir atrás da solidariedade dos meus leitores e dos que me apoiam para enfrentar mais um momento difícil na minha carreira de jornalista, com quase meio século de duração. Espero contar com a atenção das pessoas que ainda não desistiram de se empenhar por um país decente.


Belém (PA), 11 de fevereiro de 2012


Morre de infarto o maior grileiro da Amazônia


BRASÍLIA, março de 2008 - O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida morreu de infarto aos 78 anos, dia 22 de março, em Curitiba (PR). Deixou viúva Ângela Almeida e seis filhos do primeiro casamento, entre eles o deputado federal Marcelo Almeida. Filho de pernambucano e natural de Óbidos (PA), Cecílio foi educado no Paraná, onde criou o grupo CR Almeida, hoje, com patrimônio líquido de R$ 9,4 bilhões. Em 1992, Dom Ciccillo, como era chamado pelos que o conheciam bem de perto, apareceu na revista Forbes com patrimônio de US$ 1,3 bilhão. Foi o maior grileiro do mundo.
Grilou cerca de 6 milhões de hectares num santuário no Pará, a Terra do Meio, no vale do rio Xingu, município de Altamira, com reserva de US$ 7 bilhões em mogno, além de jazidas de ouro; o Aguirre grilou terras dos povos Araueté, Paracnã, Xipaia, Curuá e Caiapó-Baú-Mecranoti; a Floresta Nacional do Xingu; a Floresta Nacional de Altamira; dois assentamentos do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária); e área onde vivem cerca de 200 famílias de ribeirinhos e extrativistas - analfabetos e sem certidão de nascimento. Se fosse permitido a Dom Ciccillo criar um estado particular, sua grilagem seria a décima-primeira maior unidade do país, área equivalente à Bélgica e Holanda juntas.
Em setembro de 2006, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal e colunista da Agência Amazônia, foi condenado pela Justiça paraense a pagar R$ 8 mil, mais acréscimos, a Dom Cecílio. O motivo: em 2000, Lúcio Flávio Pinto comentou reportagem de capa da revista Veja, que apontava Dom Cecílio como “o maior grileiro do mundo”. No Jornal Pessoal da segunda quinzena de setembro de 2006, Lúcio Flávio Pinto, na matéria intitulada “Chamar grileiro de pirata tornou-se crime no Pará”, relata que o julgamento do caso, pelo juiz Amílcar Guimarães, foi uma farsa.
Já em 1996, o jornalista paraense Oliveira Bastos, falecido, utilizou seu porrete, isto é, seu texto, para esmigalhar Lúcio. Ferino, brilhante e, às vezes, pena de aluguel, para utilizar adjetivos aplicados por Lúcio Flávio Pinto, Oliveira Bastos fora contratado por Dom Ciccillio para desqualificar Lúcio. Oliveira Bastos, um dos grandes jornalistas brasileiros, um dos que deram brilho ao Caderno B do Jornal do Brasil, subestimou Lúcio Flávio Pinto.
O jornalista que peitou Dom Ciccillio disse à revista Rolling Stone Brasil, de fevereiro de 2007: “Eu olhava para o Jornal Pessoal e pensava: sou maluco, estou me condenando à morte”. Contudo Lúcio, que continua vivo e cada vez mais lúcido, é duro de matar.
Ano passado, a Justiça, finalmente, tirou a venda e enxergou o óbvio ululante: Dom Ceccillio era mesmo o maior grileiro do mundo, e o obrigou a devolver o naco que usurpara da Terra do Meio.
O governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), disse, em 1998, quando era senador: “Os empreiteiros morrem de medo dele, porque ele fala o que pensa. No fundo, ele é um sujeito que se arrepende do que faz. Mas faz e sem escrúpulos”.
Corpulento, voz tonitruante, cabelos inteiramente brancos, o que mais impressionava em Dom Cecílio era o olhar, descrito pelo jornalista João de Barros, na revista Caros Amigos de setembro de 2005, como “dois canos de uma carabina dupla pronta para disparar sobre o interlocutor”. Temperamental, era comum tratar os outros como “filhos da puta” ou “débil mental”. À Caros Amigos, disse que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, “foi uma péssima escolha; é uma indiazinha totalmente analfabeta e doente”.
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