11/26/2013

RAY CUNHA


    Foto: Iasmim Cunha
   RAY CUNHA, em sessão de autógrafos de O Casulo Exposto e Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos, no Monardo Gastronomia e Cultura 


BRASÍLIA – A sede do Banco Central é o edifício mais alto de Brasília, um caixote negro de 101 metros de altura, com 26 pavimentos, sete abaixo do solo. Pode ser visto à distância, como uma referência ao coração da cidade, mais a noroeste, um bolsão abarcando a Rodoviária do Plano Piloto, o Conjunto Nacional e os setores Comercial e Hoteleiro Sul e Norte. O Monardo Gastronomia e Cultura é um restaurante e cafeteria que fica atrás do Banco Central, na Rua 201 Sul, Bloco B, Loja 9, quase defronte ao Piantella. Estive lá, quinta-feira 21, autografando O Casulo Exposto (LGE Editora/Ler Editora, Brasília, 153 páginas) e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas).
Nós, escritores, somos como os pugilistas: da feita que subimos ao ringue estamos absolutamente sozinhos. Nada pode vir em nosso auxílio. Nada. Temos apenas que nos concentrar no filão que se apresenta, de onde podemos retirar pedras preciosas ou apenas cascalho, dependendo da luz ou do nevoeiro onde caminha nossa alma. Os escritores pouco conhecidos sentem-se, nas sessões de autógrafos, ainda mais sós. Estamos ali, tentando vender universos dos quais ficamos grávidos durante, às vezes, quase toda a nossa vida, expostos como animais no zoológico.
Mas do meu posto, duas mesinhas nas quais meu caro amigo Antonello Monardo me instalou, pude acompanhar a agonia da tarde, aquele momento de transição imperceptível, quando flocos negros começam a cair e a se acamar, como neve, transparente e negra, flutuando como folhas mortas, anunciando o navio da noite.
Acompanhei também, do meu posto, o passa-passa das mulheres na calçada; algumas são tão lindas que causam sofrimento, porque são inacessíveis como as que só vemos nos grandes aeroportos, de madrugada, partindo para um país distante. Por isso, nunca estamos sós, pois há sempre rosas nuas nas esquinas do mundo. Temos apenas que desenvolver as antenas do éter para sentir a maresia, mesmo que o mar seja inacessível.
Simona Forcisi chegou de repente, iluminando tudo com seus olhos de esmeraldas, abraçou-me, redentora, e sentou-se à minha frente. Ela já conhece O Casulo Exposto e pediu-me para autografar Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Simona, italiana de Turim, trabalha na Embaixada da Itália, em Brasília, onde se graduou em Literatura Brasileira. Conhecedora atenta dos idiomas de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e Graciliano Ramos, pretende mergulhar na Amazônia do Trópico Úmido e traduzi-lo.
Em dezembro, a Ler Editora lançará novo livro meu, Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É. Provavelmente, além dos três contos doTrópico Úmido – Inferno VerdeLatitude Zero e A Grande Farra –, Na Boca do Jacaré-Açu entre também na edição italiana.
Quando Simona se foi, o ar ficou prenhe de clorofila. Minha filha, Iasmim Cunha, me deu todo o apoio, fotografou-me e bateu papo com seu velho pai. E fomos pegar minha gata, Josiane, no Hospital Sírio Libanês, onde ela, como psicóloga, esparge luz. Ainda era cedo e paramos para comer sushi. Depois, retornamos, nós três para casa.


    


  RAY CUNHA – Escritor e Jornalista amapaense - e paraense de coração -  baseado em Brasília-DF, Brasil

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