9/27/2006

Volta do Poetinha


Sofisticado, como sempre, o Ministério das Relações Exteriores inovou na prática, já tradicional entre nós, de mostrar serviço no momento adequado. No último dia 8, a menos de um mês das eleições presidenciais, tornaram-se a abrir as portas do Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, para a inauguração o espaço Vinícius de Moraes, dedicado à música brasileira. Em festa como há muito não se via, a Casa de Rio Branco celebrou, com o auxílio luxuoso da Mangueira e da Portela, a memória de nosso mais querido poeta e diplomata.
Ao erguer um brinde ao homenageado, o organizador da cerimônia, Jerônimo Moscardo, anunciou aos familiares do poeta, personalidades da política e artistas presentes que o ministro das Relações Exteriores estaria enviando à presidência da República minuta de decreto propondo a plena reintegração de Vinícius de Moraes ao serviço exterior brasileiro, com sua promoção ao nível mais alto da carreira. Tão logo seja aposta a assinatura de Lula, o imortal autor do “Samba da bênção” poderá enfim tornar-se embaixador, honraria que lhe foi negada em vida por um dos atos mais brutais da ditadura militar.
Em meados de 1968, durante a onda de protestos que sacudiu o regime, o marechal Costa e Silva teria redigido de próprio punho bilhete para o então Chanceler Magalhães Pinto ordenando: “Assunto: Vinícius de Moraes. Demita-se esse vagabundo”. Fato ou lenda, o incidente ilustra a irritação do regime com o poeta, causada não por sua escassa assiduidade ao trabalho, mas por notórias amizades à esquerda e uma discreta politização de suas letras. Tal irritação levou à abertura de processo administrativo contra Vinícius que acabou sendo exonerado, em meio às cassações que se seguiram ao Ato Institucional nº 5.
A caça às bruxas foi justificada pela ditadura como ato moralizador, objetivando purgar o serviço público de “corruptos, homossexuais e bêbados”. Amigos que foram receber Vinícius no Galeão, viram-no descer do avião abatido, amargurado, mas com uma garrafa de uísque em punho, para evitar qualquer mal-entendido:
- Eu sou bêbado!
Vinícius havia ingressado na carreira diplomática em 1943, aos 29 anos, já um respeitado poeta, jornalista e crítico de cinema. Nunca foi burocrata exemplar, mas por um bom tempo soube fazer da carreira o ganha-pão que lhe permitia alçar vôos mais altos. Serviu em Los Angeles, Paris e Montevidéu, sempre envolvido em projetos de apoio à cultura brasileira, atividade facilitada por sua rede de contatos e credenciais de intelectual. Em Los Angeles, foi amigo de Orson Welles, Disney, Marlene Dietrich, divulgando sempre um Brasil que, apesar de amar Carmem Miranda, era muito mais do que somente ela. Nas duas temporadas que esteve em Paris, encantou a intelectualidade francesa e tornou-se ponto de referência do crescente ir e vir de músicos, cineastas, jornalistas e literatos entre nosso país e a Cidade Luz. A todos ajudava e prestava apoio: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” chegou a Cannes com legendas em francês escritas por Vinícius - textos que, segundo Gláuber, eram ainda mais poéticos que o roteiro original. No período de Montevidéu, seu talento, acoplado a um charme irresistível, foi verdadeiro trator a alargar nosso diálogo com escritores e artistas de todo o Cone Sul.
Nas longas temporadas que passou no Rio de Janeiro, ajudou (e muito) a criar a mística do Itamaraty como celeiro de intelectuais e grande bastião da cultura. À época, o Palácio da Rua Larga operava como verdadeiro centro da vida social e política da Capital Federal – em seus gabinetes, arquitetava-se a projeção do Brasil no concerto das nações; em suas recepções, tramavam-se os destinos do país. Era um Itamaraty generoso, que sabia abrigar tanto homens de ação quanto homens de pensamento, pessoas das mais diferentes inclinações e interesses, em leque ecumênico que ia do jovem economista Roberto Campos ao promissor literato João Guimarães Rosa. Deles, exigia-se apenas que fossem geniais.
Ali, Vinícius estava em casa. O Itamaraty era seu porto e seu amparo, a instituição que lhe dava segurança e status para ir-se transformando em um dos mais ativos intelectuais da época. Em setembro de 1956, com o espetáculo “Orfeu da Conceição”, o poeta atingia seu auge, na síntese perfeita entre o erudito e o popular, a tradição clássica e alma brasileira, o drama e a música. Foi também o momento em que descobriu Tom Jobim e com ele iniciou a parceria que faria o mundo se ajoelhar diante do Brasil. Que mais poderia o Itamaraty exigir de seus funcionários? A arte de Vinícius era tão cativante que tinha o dom de se converter em política de Estado. Embaixador algum fez tanto pela pátria quanto ele.
Na virada dos anos 60, Vinícius começou a ficar grande demais para nossa Chancelaria. Sua celebridade atiçou a inveja dos medíocres e sua escassa fidelidade aos rigores do expediente cresceu a ponto de tornar-se lendária. Dizem que, certa feita, o poeta sumiu por quase três meses. Seus companheiros de trabalho chegaram a pensar no pior, mas afinal descobriram que ele se trancara em seu apartamento do Parque Guinle com o violonista Baden Powell, num mergulho criativo e existencial, do qual os dois somente emergiram após esgotarem duas caixas de uísque contrabandeadas pela mala diplomática. Ali nasceram os afro-sambas; canções quatro décadas à frente de seu tempo.
Enquanto foi apenas poeta, Vinícius teve vida amena no Itamaraty, como João Cabral de Melo Neto, outro grande poeta, que sequer fazia questão de ser conhecido como diplomata. Mas ao enveredar pela música popular, e emprestar seus versos a chorões e sambistas, Vinícius conquistou a inimizade de quem nisso via comportamento licencioso, prejudicial à instituição. Houve mesmo tentativa de impedi-lo de fazer sua primeira apresentação ao vivo, em show na boate “Au Bon Gourmet”, na companhia de Tom Jobim e João Gilberto. A crise foi contornada com a decisão salomônica da alta cúpula do Itamaraty de que Vinícius poderia cantar, mas teria que se apresentar de terno e gravata. E foi assim, a caráter, que o mundo soube pela primeira vez da “Garota de Ipanema”, símbolo máximo do encanto despojado de nossa beleza e segunda canção mais gravada de todos os tempos. Nosso verdadeiro hino nacional.
Vinícius dava muito ao Itamaraty e pedia pouco em troca. Jamais usou da fama para caronear colegas ou conseguir postos cobiçados. Com 25 anos de carreira era ainda primeiro-secretário, posto que equivaleria no Exército à patente de capitão. Nunca fez mal a alguém, mas foi pelo mal alheio atingido. De certo modo, a expulsão de Vinícius marcou o fim de um Brasil afável e sonhador, que acreditava poder tornar-se um dia um país melhor. Nas trevas da ditadura, perdemos a pureza de nossa alma e a gentileza em nosso modo de ser.
Quaisquer que sejam as motivações do atual governo em promover tão tardia redenção, o Brasil agradece. E espera que, sem gravata nem terno, o poeta, agora embaixador de pleno direito, continue.
Para sempre iluminando nossas vidas.
27.09.2006

Marcelo Dantas

* (Transcrito do site No Mínimo)

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