10/08/2006

“Vila Sorriso” é meu-=================================


A expressão “Vila Sorriso” surgiu no ano de 1969. Foi criada por mim no final de 1968. Vamos aos fatos.
O saudoso médico e ex-deputado federal Stélio de Mendonça Maroja foi indicado para a Prefeitura de Belém, em 1967. Tão logo tomou posse do cargo sua primeira atitude foi manter contato com as lideranças dos bairros e distritos para conhecer de perto os problemas dessas comunidades.
Stélio veio a Icoaraci para um encontro nos primeiros dias de novembro de 1967 “com as pessoas de prestígio” e representantes do comércio e indústria de Icoaraci. O encontro ocorreu numa noite de sexta-feira na residência oficial do agente distrital, na Rua Dr. Manoel Barata, onde hoje funciona uma unidade da Funpapa.
Foi um jantar co-patrocinado pela Agência Distrital e empresários. Stélio muito prático ouviu um por um dos convidados, dentre os quais, Evandro Cunha, Orlando Cunha, Alfredo Coimbra, Rodolfo Tourinho (falecido), Bento Castro, Ivo Araújo, falecido, que à época era gerente da Óleos do Pará S.A (Olpasa) que fabricava os óleos Dora (de leite de coco babaçu) e Doramim (à base de óleo de amendoim), Holderman Rodrigues, Salustiano Vilhena Filho, o “Chefe Salú” (falecido), eu, Aldemyr Feio, que assinava uma página dominical na Folha do Norte, - “O Liberal” da época, ou seja, o jornal de maior circulação em todo o Estado, norte/nordeste, com uma tiragem comprovada de 30 mil exemplares/dia e 60/80 aos domingos – e disse que a equipe presente apresentasse sugestões e um programa de trabalho para Icoaraci, cuja jurisdição, como disse linhas acima ia da corrente da Base Aérea - que não mais existe - até quase ao Tapanã e São Clemente, áreas conhecidas – elas atualmente integram o Distrito Administrativo do Benguí -, além de Cotijuba, ilhas próximas e Outeiro, onde havia um sub-administrador indicado pelo agente distrital e nomeado pelo prefeito.
Stélio disse que precisava do apoio de todos para que fizesse uma boa administração, e já estava pensando num nome para a administração icoaraciense.
Em dezembro de 1967, ou seja, duas semanas após o jantar, Stélio Maroja mandou um recado pelo advogado e jornalista Bernardino Santos que era “oficial de gabinete” propondo um novo encontro com todo mundo que compareceu ao jantar.
A reunião ocorreu na sede do Pinheirense Sport Clube.
Na ocasião Stélio anunciou o novo “subprefeito” de Icoaraci: o engenheiro rodoviário Evandro Simões Bonna, ex-diretor do Departamento Municipal de Estradas de Rodagens, que funcionava no prédio onde hoje se encontra a Sesan, que o substituiu.
Bonna fez o mesmo jogo do prefeito. Empossado em meio a uma grande festa reuniu com todas as lideranças para uma “conversa informal” e traçar um planejamento de trabalho, na residência oficial. Nessas alturas a Agência Distrital estava instalada em duas salas nos altos do mercado municipal.
Para encurtar a estória, desse planejamento surgiram vários frutos. Em abril foi inaugurado o serviço de travessia em balsas para o Outeiro (que antes era feito por barquinhos) com a construção de uma rampa na Rua 2 de dezembro; escola primária no bairro de Itaiteua/Outeiro (Monsenhor Azevedo), uma igrejinha bem em frente. Bonna também negociou com o Pinheirense a aquisição pela Municipalidade de uma área na Rua Manoel Barata e deu início à construção do prédio da Agência Distrital, que foi concluída na administração do major/aviador Rolando Chalu Pacheco, sendo prefeito Nélio Dacier Lobato.
Em maio surgiram rumores de que no ano seguinte – 1969 -, no dia 8 de outubro, Icoaraci completaria 100 anos de existência. Evandro Bonna mandou apurar direitinho a estória. Confirmada, instituiu a Comissão Coordenadora do Iº Centenário de Icoaraci, que foi tornada oficial por ato do prefeito Stélio Maroja. Os seus componentes eram as mesmas pessoas que acompanharam Stélio desde o início: Evandro Cunha, Orlando Cunha, Alfredo Coimbra, Rodolfo Tourinho, Bento Castro, Ivo Araújo, Holderman Rodrigues, Helio Amanajás, Salustiano Vilhena Filho, “Chefe Salú”, Aldemyr Feio, sob a presidência de Evandro Bonna.
A comissão começou a funcionar a partir de 17 de outubro de 1968 e se reunia todas as quartas-feiras, à noite, na residência oficial.
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Detalhe – A residência oficial do “subprefeito” de Icoaraci funcionava no prédio onde hoje a Funpapa mantém um abrigo para jovens delinqüentes, retirados das ruas, em vias de recuperação, na Rua Manoel Barata, em frente à Vara Distrital de Icoaraci. É o Abrigo Ronaldo Araújo.
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A partir daquele momento foi estabelecido um cronograma de eventos e inaugurações alusivos ao Iº Centenário, que deveriam acontecer em todo o decorrer de 1969, sob o comando de Evandro Bonna;
No início de dezembro, a comissão foi procurada pelo empresário – era proprietário da Empresa de Águas Nossa Senhora Nazaré, em Maracacuéra, atual Indaiá – e compositor Francisco Pires Cavalcante, oficial de marinha reformado, músico (tocava requinta, uma espécie de flauta, nas bandas de música das unidades onde serviu), natural de São José das Piranhas, sertão da Paraíba - mas apaixonado pela Cidade das Mangueiras havia muitos anos -, e que embora morasse em Belém, possuía uma bela residência na Travessa Souza Franco, próximo à Rua Siqueira Mendes, 1ª rua de Icoaraci.
Na época era famoso por ser o criador do Hino do Payssandu Sport Clube (Uma listra azul, outra listra azul...) que todos conhecem. Pires apresentou a todos uma partitura com a letra de um hino que havia criado para o Iº Centenário de Icoaraci. Ele cantou dedilhando um violão. Os membros da comissão acharam-na interessante e pediram que retornasse em janeiro com o hino gravado com letra e música, etc.
Ele assim o fez. Trouxe o hino gravado em cassete. Todos aprovaram. Pires Cavalcante disse que não queria nada em troca. Apenas que a sua criação se tornasse o Hino Oficial do Iº Centenário, além de uma ajuda da Prefeitura para a produção do disco. As demais despesas, editoria, intérprete, pagamentos de direitos de execução, conexão, etc, ficariam por sua conta. Era o seu presente para Icoaraci.
A Prefeitura de Belém bancou parte da produção. eu juntamente com Ivo Araújo fui designado para acompanhar as diversas fases de produção.
As gravadoras do Rio e São Paulo, além de botarem dificuldades na gravação e prensagem do compacto simples (era o chique da época) cobraram muito caro. Pires Cavalcante descobriu uma gravadora de jingles em Belo Horizonte (a Bemol) que, mesmo com o equipamento inferior ao das grandes gravadoras, se ofereceu para produzir o disco.
Todas as atenções se voltaram para Belo Horizonte e, em 40 dias, exatamente no dia 15 de marco, saiu o disquinho com duas musicas. De um lado, o Hino de Icoaraci; e do outro, Vila Modesta – um sambossa que enaltece Icoaraci - do próprio Pires Cavalcante e de Clodomir Colino, radialista famoso na época, professor e ex-vereador, já falecido. Foram prensadas 2000 copias. Mil por conta da Prefeitura. As outras mil por conta do Pires. O cantor Luiz Olavo (falecido há cinco anos) foi o intérprete do hino.
Pires Cavalcante, sempre modesto, não quis festa de lançamento; todavia o seu pedido não foi atendido. O lançamento oficial ocorreu em meio a um coquetel na sede do Pinheirense, com a presença do Conjunto de Guilherme Coutinho (falecido), e um dos mais importantes da época.
Pires Cavalcante ainda vive, graças a Deus. Aos 83 anos, lúcido, inteligente e bom papo, ainda compõe.
O disquinho foi distribuído imediatamente às emissoras de rádio; contudo, a primeira audição deu-se no Programa José Travassos na então Rádio Jornal Liberal que ia ao ar de nove ao meio dia, e era campeão do Ibope. Nas festas de junho e nas férias de julho de 1969 o disquinho fez o maior sucesso tocando em todas os ambientes, tanto em Icoaraci, como no Outeiro e em Cotijuba.
De tanto rodar nas rádios o hino de Icoaraci ficou famoso. Rodou até n’A Voz da América, graças ao empenho de Roberto Rodrigues – jornalista e radialista, já falecido, e correspondente daquela emissora americana, durante o programa Tributo a Icoaraci, produzido pelo próprio RR e apresentado pelo locutor Pedro Américo. O programa foi ao ar pelas ondas curtas d´A Voz da América, (25 metros) no dia 04 de julho de 1969, às 22 horas.
Na minha pagina – tanto na “Folha” como n´O Liberal para onde me transferi a convite de Rômulo Maiorana, e ao qual estive ligado quase 19 anos - deixei de usar o termo “Vila Famosa”, como Icoaraci era conhecida, e mudei para Vila Sorriso. A explicação é simples. Na segunda estrofe do Hino do Iº Centenário, Pires Cavalcante diz: “... a vida passa, passa e ninguém se embaraça, a gente é feliz todo dia sem olhar no calendário. A nossa vila sem feitiço, sem mandinga, tem uma rainha que ginga festejando o Centenário”. Ora, diante disso (fiz uma reportagem a respeito. Infelizmente não disponho mais, nem dos originais e nem do exemplar da Folha que a publicou) passei a usar o Vila Sorriso. No início houve muita reclamação, mas depois o povo aceitou.
Nos programas de rádio os animadores (àquela época não estava em moda, ainda, a expressão comunicador) se referiam a Icoaraci como Vila Sorriso, inclusive o José Travassos e o Kzan Lourenço, falecido no início de 2003, criador da primeira rede sonora de Icoaraci, a Top Som Propaganda, atual Tropical Propaganda – da Radio Marajoara – e um dos maiores divulgadores das coisas icoaracienses.
Num dia como hoje 8 de outubro -, há 37 anos atrás, a festa começou cedo. às 10 horas o prefeito Stélio Maroja, o agente Evandro Bonna e os componentes da Comissão Executiva inauguraram o monumento do Iº Centenário de Icoaraci no inicio da Praça Paes de Carvalho, ao lado da Igreja de São João Batista.
Concebido e desenvolvido pelo próprio Evandro Bonna – que também foi o autor do projeto do prédio da agencia distrital inaugurado dois anos depois - era um obelisco de 30 metros de altura em forma ogival recortado - como se fora duas mãos postas em direção ao céu, numa atitude de oração. No alto havia a marca do evento em concreto reforçado: duas rodas dentadas acopladas e cortadas por uma linha horizontal. No centro da primeira havia uma linha vertical simbolizando o numero 1 – do primeiro centenário – estilizado, e duas rodas perfazendo o número 100. O desenho – aprovado pela comissão, após concurso realizado nas escolas icoaracienses – foi de autoria de um estudante do 3º ano ginasial do Colégio Estadual Avertano Rocha.
No rodapé do monumento havia a seguinte inscrição em bronze: ”Aos que nos antecederam agrademos o trabalho; à posteridade, com orgulho entregamos os alicerces da grande Icoaraci do futuro”. Frase de autoria de Evandro Bonna – sem duvida, o maior ”subprefeito”, ou melhor, agente distrital que Icoaraci já teve nesses últimos 40 anos. O aludido monumento foi deslocado para a Praça Paes de Carvalho, diminuído de tamanho, e foi esquecido.
À noite, do dia 8 de outubro de 1969, ocorreu o grande Baile de Gala do I Centenário de Icoaraci, no Salão Paroquial Padre Theodoro Kokke, atrás da Matriz de São João Batista – gentilmente cedido pelo monsenhor José Maria Azevedo – com o Conjunto de Guilherme Coutinho, ao lado Sayonara – tendo como atração a cantora Joelma - sucesso da época - que arrasou; além da apresentação da Rainha do Iº Centenário, a senhorita Antinéia Kátia dos Reis Puga.
No encerramento dos festejos comemorativos do Iº Centenário de Icoaraci – no dia 28 de dezembro de 1969 -, todos os membros da Comissão Coordenadora foram condecorados pelo prefeito Stélio Maroja com a Medalha dos 350 anos de Belém.
Tem muita coisa para falar sobre as alegrias que me deu o Vila Sorriso.
A senhora Mízar Bonna – ex-Primeira Dama de Icoaraci -, num dos seus livros se reporta sobre o assunto atribuindo-me a criação do Vila Sorriso. Mais recentemente o jovem escritor José Raymundo de Oliveira Guimarães Junior (Junior Guimarães), morto tão precocemente há cinco anos, confirma o fato em seu livro Icoaraci – Monografia de um Mega Distrito, com detalhes; bem como o historiador Holderman Rodrigues. O site www.icoaraci.com.br, me honra com a citação.
Dois anos após as festas do Iº Centenário, por questões profissionais me mudei o Rio de Janeiro, onde passei 15 anos e concluí os meus estudos. No retorno observei que o Vila Sorriso já era expressão popular. Virou o símbolo de Icoaraci; nome de edifício, de conjunto habitacional, de bloco, de escola de samba, de escola primaria, de bar e até de motel!
Deveria tê-lo registrado. Como não o fiz, está difícil reivindicar os direitos autorais. O meu consolo é que Vila Sorriso é o codinome da terra onde a gente é feliz todo o dia sem olhar no calendário. A minha terra.
Em tempo: a última homenagem que recebi pela autoria do Vila Sorriso foi do médico Rodolfo Tourinho (falecido), a quando de sua passagem pela Agência Distrital, com o apoio do assessor José Croelhas. Um diploma e uma medalha foi reconhecimento dele e do povo de Icoaraci pela criação que tornou Icoaraci... mais alegre e feliz.
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Conheçam o Hino do Iº Centenário de Icoaraci:

Autor: Pires Cavalcante (Letra e música)

Icoaraci
tem um porte de nobreza;
nossa Vila tem beleza,
tem canto de bem-te-vi!
Icoaraci
um jardim cheio de flores
não existem dissabores
nesta vila onde eu nasci.

A criançada com sorriso de esperança,
não afastou da lembrança
o que fez pra ser feliz;
É escorrega, é carrinho e correria,
um domingo de alegria
lá na Praça da Matriz.

Icoaraci
tem um porte de nobreza;
nossa Vila tem beleza,
tem canto de bem-te-vi!
Icoaraci
um jardim cheio de flores
não existem dissabores
nesta vila onde eu nasci.

A vida passa,
passa e ninguém se embaraça;
A gente é fez todo o dia
sem olhar no calendário
;
A nossa vila sem feitiço
e sem mandinga,
tem uma rainha que ginga
festejando o centenário!

Icoaraci
tem um porte de nobreza;
nossa Vila tem beleza,
tem canto de bem-te-vi!
Icoaraci
um jardim cheio de flores
não existem dissabores
nesta vila onde eu nasci.

Um comentário:

Expedito Leal disse...

Caro amigo Feio,
Lendo seu comentário sobre a visita de Stélio Maroja à Icoaraci, vejo que vc comete um engano ao dizer que ele foi indicado á PMB.Não.Stélio apesar de ser considerado esquerdista, à época do golpe de 64, foi 'cooptado" por Jarbas Passarinho e passou para o outro lado.Circunstancias da vida.Ele sempre foi ferrenho antipessedista e pior ainda quando se tratava do Barata.Mas disputou a eleição metropolitana de 1966 indicado por JP só não lembro se foi através da Arena.Originariamente ele pertencia ao PSP(Partido Social Progressista).Na eleição anterior(1962) ele perdeu na última hora ao serem computadas as urnas justamente da sua "Vila Sorriso".E alegou fortes indícios e fraude .Moura Carvalho foi o eleito.Pela primeira vez o antigo PSD ganhava a PMB.Um abraço.Expedito Leal