3/11/2007




AMAPÁ É PARAENSE

Açaí nosso de cada dia

Brasília - Todos nós, que nascemos, fomos criados ou vivemos no Amapá, na Amazônia Caribenha, somos, também, paraenses, por diversas razões: até 1943, o Amapá integrava o Pará; temos o falar semelhante, entremeado de tupi, chiando os ss e utilizando o "tu" de Portugal; e a culinária amapaense é, claro, a mesmíssima dos paraenses – não pode faltar farinha d'água, nem peixe, nem açaí, nem um mundo de outras inumeráveis coisas das quais só mesmo sendo paraense-amapaense para entender.
Quanto ao que chamo de Amazônia Caribenha, trata-se do rio Amazonas – sementes do Trópico Úmido são encontradas na Flórida, sul dos Estados Unidos, carregadas pelo maior rio do mundo através do Mar dos Caraíbas e do Gulf Stream, no Golfo do México; trata-se do Atlântico Norte, do gosto por peixes, merengue, o trópico, o realismo fantástico, a mulher negra, a sensualidade da mulher equatorial, a poesia de Isnard Lima Filho.
Açaí - comido de forma tão estranha no resto do país - é um dos elementos integradores entre o Pará e o Amapá. Alimento sagrado. O antropólogo e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Romero Ximenes, pesquisou durante quatro anos a produção e o consumo de açaí no Pará, num estudo intitulado “O açaí como teoria geral da sociedade paraense”, apresentado no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA. “A partir do açaí, podem ser rastreadas as formas como a sociedade paraense se vê nas artes, na cultura, no padrão alimentar, enfim, em todas as suas dimensões, porque permite descobrir a sociedade paraense e entender como ela se explica, se justifica e encontra suas formas de legitimação” - ensina.
Por exemplo: no Pará e no Amapá é comum “jibuiar” - o hábito de tomarmos açaí no almoço e fazer a sesta em seguida. Já ouvi paulistanos achando que isso é preguiça. Não sabem nada do Trópico Úmido. “Jibuiar” é um neologismo advindo das jibóias, que ficam horas, paradas, digerindo o animal que engoliram. E da mornidão equatorial.
“Com o processo de globalização, é impossível proibir a produção externa do açaí, mas a solução para manter o seu valor identitário no Pará seria transformar o estado em um grande centro de excelência na fabricação do melhor açaí” - propõe Romero Ximenes. “O açaí é um dos elementos de construção da própria identidade regional paraense e da sua própria autodefinição. A expressão “Chegou no Pará, parou! Tomou açaí, ficou!” é a marca na qual a sociedade paraense se constitui historicamente” - observa o pesquisador, que fez a reflexão teórica do seu estudo baseada em autores consagrados, como Claude Lévi-Strauss e Johann Wolfgang von Goethe, além de autores regionais, como Dalcídio Jurandir, o genial marajoara autor de Chove nos campos da Cachoeira.
Para o caboclo, o ribeirinho, açaí é um depositório de ferro, deixando os curumins fortes e saudáveis. Mas o fato é que a quantidade de ferro no açaí é insignificante, segundo o doutor em Engenharia de Alimentos da UFPA, o belga Hervé Rogez, estudioso do precioso líquido há mais de uma década. Ele esclarece que, em 1963, um cientista fez pesquisa sobre a composição do açaí utilizando aparelhos de ferro; o mineral encontrado era dos aparelho e não da fruta.
Contudo, o açaí é rico em proteínas, potássio, cálcio, vitaminas E e B1, e lipídios. Importante: contém flovanóides, substância encontrada no vinho tinto, excelente lubrificante do coração; e fibras, que auxiliam na digestão, além de agentes antioxidantes e grande quantidade de óleo semelhante ao azeite de oliva. Importantíssimo: açaí não é energético e não engorda - diabéticos podem bebê-lo à vontade, desde que sem açúcar e farinha.
Nasci em Macapá, a capital do Amapá, no estuário do rio Amazonas, esquina com a Linha Imaginária do Equador. Sou, portanto, caboclo da Amazônia Caribenha. Belém é a mais cabocla e caribenha das cidades amazônicas. No início da tarde, no Ver-O-Peso, a mais fantástica feira do mundo, pedimos dourada frita e açaí. Despejamos farinha no açaí e o adoçamos. A dourada é fresca e derrete-se na nossa boca; o açaí é redentor. A sombra da barraca é refrescante e aonde nossa vista alcança há mulheres lindas para nos alegrar e a baía do Guajará navegando na tarde, a perder-se de vista.
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Cortesia do site ABC Político

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