1/15/2007

Enfoque Amazônico

SOS

Amazônia - De Galvez à Campanha da Fraternidade


Brasília A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não lançará a Campanha da Fraternidade 2007 em Brasília, mas, pela primeira vez, na Amazônia, no Pará. Com o lema “Vida e missão neste chão”, a campanha, este ano, tem como tema a Amazônia - a Amazônia estuprada. Será lançada, dia 21 de fevereiro, início da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Semana Santa, na ilha do Combu, no rio Guamá, defronte ao campus da Universidade Federal do Pará (UFPA). A TV Nazaré transmitirá a solenidade ao vivo, em rede com as emissoras católicas do país, além de disponibilizar seu sinal para canais abertos.
Dom Orani João Tempesta, arcebispo metropolitano de Belém, espera que a campanha ajude a criar uma consciência nacional sobre a vital importância da Amazônia para o Brasil, e para o planeta. “Durante todo este ano, vamos discutir o que a Amazônia pode ensinar aos brasileiros e de que maneira nosso país vê essa região tão rica e importante para o mundo” - disse o arcebispo ao jornal Diário do Pará, edição de hoje.
O site da CNBB alerta: “Acompanhamos com apreensão a ocupação, muitas vezes predatória, das terras amazônicas, sem que seu complexo e delicado ecossistema seja respeitado. O egoísmo e a ganância na exploração das riquezas, o descuido e a imprudência ameaçam seriamente esse patrimônio natural, que não é somente dos brasileiros; a devastação da Amazônia configura-se como uma perda e uma ameaça para toda a humanidade”.
Com efeito, a floresta amazônica vem sendo torada a razão do 100 mil quilômetros quadrados a cada governo; a poluição por mercúrio é crítica em algumas áreas; cartórios atuam a serviço de grileiros; guseiras estimulam a derrubada da floresta para a produção de carvão; meninas se prostituem para sustentar suas famílias; a escravidão é comum na região; no mato, vige a lei da bala; crianças morrem comidas por vermes, giárdia, protozoários e malária; estrangeiros entram e saem da região como nem no tempo dos portugueses, que expulsavam franceses, ingleses e holandeses debaixo de aço e fogo; trafica-se animais, essências e diamantes como quem trafica cocaína no Rio de Janeiro – uma bacanal.
No dia em que os gringos do Tio Sam começarem a morrer assados a 40 graus centígrados à sombra, em Washington, não duvido que marines invadam a Amazônia e refundem o Bolivian Sindicate. Em 17 de novembro de 1902, o Brasil derrotou os Estados Unidos e a Inglaterra, mas na esfera diplomática. O Barão de Rio Branco assinou, naquela data, o Tratado de Petrópolis, garantindo para o Brasil a soberania do Acre, que era da Bolívia.
Aliás, a Revolução Acreana, como a história da Amazônia, não é ensinada nas escolas públicas brasileiras. A Amazônia é uma ilustre desconhecida dos brasileiros. Por isso, a série exibida pela TV Globo, Amazônia - De Galvez a Chico Mendes, da acreana Glória Perez, está fazendo mais pelo Trópico Úmido do que todas as empresas estatais de turismo da região, juntas. Falar em TV Globo, quando a mais influente emissora de televisão do país produz um Globo Repórter sobre a Amazônia, como o exibido ontem, sexta-feira 12, manda um repórter carioca, pautado por um paulistano, ou vice-versa, e a tal reportagem fica só na superfície do exotismo.
Voltando ao Acre, Plácido de Castro, que tinha 29 anos, organizou os seringueiros e, sem a mais remota ajuda do governo brasileiro, venceu o exército boliviano, expulsando suas tropas de Puerto Soares, hoje Porto Acre. Foi aí que o Bolivian Sindicate se esfarelou. O Bolivian Sindicate foi uma invenção anglo-americana. Inglaterra e Estados Unidos arrendaram o hoje Acre da Bolívia, pois era somente lá que havia seringueiras. Durante a vigência do Bolivian Sidicate, os Estados Unidos eram quem ditavam as regras no local. Um enclave americano na Amazônia.
“Se o Bolivian Sindicate tivesse prosperado, com toda certeza a Amazônia hoje não seria brasileira” – observa o historiador e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Aloízio Moel.
Outra Amazônia, a Azul - as 200 milhas do mar territorial brasileiro -, vem sendo, também, saqueada. Nas costas do Amapá, por exemplo, há décadas que embarcações de todas as partes do mundo, principalmente da Ásia, pescam em águas brasileiras profundas, ignorando solenemente a minguada Marinha do Brasil. Diga-se, de passagem: as costas do Amapá são o ponto mais piscoso do globo, pois recebem nutrientes do maior rioa do mundo, o Amazonas, que despeja 200 mil metros cúbicos de água por segundo no oceano Atlântico, fora o que eu chamaria de húmus.
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Burrice: a Universidade Federal do Amapá (Ufap) não oferece curso de Oceanografia.

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Ray Cunha

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