7/30/2012



PAULO FERRER vai informar, em primeira mão, direto da Eternidade




O Jornalista e Radialista PAULO FERRER  morre após sofrer um AVC, Conhecido por seu bom humor, Ferrer estava aposentado há seis anos

 

Um dos maiores nomes da história do rádio paraense, o radialista Valter José da Conceição, mas conhecido por 'PAULO FERRER', morreu nessa segunda-feira/30, aos 71 anos.
Ferrer foi internado na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) de um hospital particular no bairro do Marco, em Belém, ainda na noite do domingo. De acordo sua esposa, Ruth da Conceição, ele sofria com complicações da diabetes, doença que o afligia há12 anos. 'Ele teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e não resistiu após uma parada cardíaca na tarde de hoje', afirmou aos jornalistas.
O corpo do radialista de Paulo Ferrer está sendo velado na Igreja dos Capuchinhos. O enterro acontece, nessa terça-feira/31, às 10h, no Cemitério Santa Izabel.

Esse era o PAULO FERRER, repórter amarelinho

Valter José da Conceição, ou PAULO FERRER começou no rádio em 1964, na Rádio Imprensa em Anápolis, Goiás, seu estado natal. Sua função era plantonista do setor esportivo. Mudando para Belém, o radialista iniciou sua trajetória em 1969, na então Rádio Difusora do Pará (ZYE-25), em uma época em que o forte da Rádio era a programação musical, com Jovem Guarda, Bossa Nova, e predominância de músicas românticas.

Na Rádio Liberal AM, que a substituiu com nova denominação, trabalhou durante os anos de 1990 até 2002 no esporte, onde era setorista da Tuna Luso Brasileira, seu time do coração que adotou desde o início da sua transferência para Belém;
Ferrer ficou conhecido também como o repórter 'Amarelinho', quando apresentava um programa ondee noticiava ao vivo os fatos de qualquer ponto da capital paraense. E foi muito conhecido por ter uma vasta lista de 'fontes'.
Nas redes sociais, várias pessoas fazem menções sobre o radialista, um exemplo é um twitter da Tuna. 
Na Rádio Marajoara Paulo Ferrer se notabilizou como o Repórter Amarelinho que falava “ao vivo” de todos os lugares utilizando uma engenhoca eletrônica – parecida com os primeiros celulares – importado pela emissora. A novidade deixava os ouvintes na rua impressionados, não apenas pelo alcance da transmissão, como também pela qualidade e a nitidez.
O equipamento “Motorola” foi adaptado também ao veículo de transporte da emissora. Era um carro amarelo com as cores e o nome da Marajoara. Primeiramente um fusca e logo depois um kombi . Como o Paulo Ferrer era o único que andava no carro, além do motorista ficou conhecido como “repórter amarelinho”.
O “repórter amarelinho” descreve um episódio curioso do qual participou com a ajuda do Motorola. Houve uma fuga de presos para a cidade de Barcarena, no interior do Estado.
No município havia apenas um telefone, que funcionava das 15 às 18 horas somente. Naquela época, quando os 16 bandidos fugiram para o município, todas as emissoras seguiram para o local, munidas apenas de gravador. Os repórteres gravavam sonoras com os moradores e a polícia e tinham que mandar o material por telefone.
O problema é que a Telepará tinha horário e tempo estabelecido, quem os ultrapassasse, corria o risco de perder a notícia para as outras emissoras. Por causa desses problemas, muitos repórteres tiveram que voltar para Belém. Foi quando o repórter Paulo Ronaldo teve a ideia de bloquear o único telefone da cidade para a empresa dele, deixando as outras emissoras para trás.
A Rádio Marajoara, onde Paulo Ferrer,trabalhava decidiu mandar o “amarelinho” para Barcarena e lá perceberam que, com o Motorola, era possível manter contato direto do município com a rádio em Belém.
A concorrente, que havia se apropriado do único telefone da cidade, foi deixada para trás. Com o Motorola era possível ir atrás da notícia onde quer que ela estivesse, enquanto isso a emissora concorrente gravava e passava o material por telefone. A Marajoara entrevistou bandidos e polícia ao vivo durante a programação.
Nos 15 dias que passou em Barcarena, até ser preso o último bandido, o “repórter amarelinho” deu um “show de notícia”, e de Ibope, segundo Paulo Ferrer.
Ferrer trabalhou mais de 20 anos como “Amarelinho”, um quadro da Rádio Marajoara em que eram noticiados fatos ao vivo, de qualquer lugar de Belém. O “Amarelinho” tinha uma fonte de informações muito grande: motoristas, policiais, membros da justiça estadual e federal. As reivindicações junto ao Governo eram permanentes, e os problemas eram sempre solucionados.
O nosso grande morto viveu num período do rádio que a Marajoara passou 15 anos seguidos como líder do IBOPE. Entre os programas de sucesso dessa época, estiveram o “Show da Cidade” e o “Antena Policial”. Entre os fatos marcantes na carreira de Ferrer estão as entrevistas com Pelé e com o ex-presidente da República João Batista Figueiredo.

Valeu até sapo no gramado

Num texto retirado da internet e publicado no dia 17 de janeiro último,  Harold Lisboa lê-se que Paulo Ferrer, um dos maiores adeptos da Tuna Luso e a entradas de sapo no gramado para ajudar o time...
E mais:
Faça chuva, faça sol, se a Tuna Luso está em campo, pode ter certeza, o radialista aposentado Paulo Ferrer, 70 anos, está nas arquibancadas ou melhor, com a cara colada no alambrado empurrando o time do coração e, em alguns momentos, "elogiando" árbitro e assistentes. O ritual acontece desde que esse goiano desembarcou em Belém vindo de sua cidade de Anápolis/GO.  Wálter José da Conceição, este é seu nome verdadeiro, é, talvez, o mais folclórico dos torcedores tunantes.
Só para se ter uma ideia, ele já chegou a levar um saco cheio de sapo para assustar o goleiro do time adversário, que ele soube ter pavor ao anfíbio.

Amor à primeira vista

O amor à Lusa nasceu em 1969, quando ele desembarcou em Belém. "Foi a amor a segunda vista. Antes de me decidir pela Tuna, assisti a um Re x Pa, mas os times não mexeram com o meu coração. Só na segunda vez que foi ao estádio para ver Tuna e Sport tomou a decisão de ser tunante. "Para o resto da vida", como diz. "A Tuna venceu o jogo por 5 a 0. Sai do estádio entusiasmado com a equipe da Tuna. Era um timaço", recorda.
A história dos sapos é contada por Ferrer em detalhes. "A Tuna precisava vencer o Fortaleza/CE para ir para o triangular final da Taça de Prata", lembra. "Soube dias antes que o goleiro deles, o Salvino, que era um grande arqueiro, tinha repulsa a sapo. Contratei um garoto para me arrumar um sapo, que eu pretendia soltar atrás do gol do time deles. O moleque apareceu com um saco cheio e jogou por cima do alambrado. O gramado estava molhado e quando o Salvino viu aquilo ficou apavorado. Ganhamos o jogo por 5 a 1 e fomos à fase seguinte", recorda.
Sofrendo de diabetes, Ferrer quase não tem ido aos estádios. Mas com a Lusa classificada para a fase principal, ele promete voltar a incentivar seu time e, de quebra, perturbar árbitros e bandeirinhas. "Agora volto a ter mais motivação", revela. Em tantos anos de arquibancada, ou melhor, de alambrado, Ferrer diz ter visto uma série de grandes jogadores com a camisa lusa. "Mas os melhores mesmos foram o Omar (goleiro) e o Mesquita (meia)", aponta.

Nildo Lima do Amazonia Jornal




PAULO FERRER – Repórter das Rádios Cultura e Liberal”



Para concluir que essa pequena homenagem ao amigo e colega PAULO FERRER,  o JORNAL DO FEIO republica um trabalho de Mônica Maia, aluna do curso de Comunicação Social da UFPA, habilitação jornalismo, em 1999 , pinçado do blog O pará nas ondas do Rádio.
O texto é parte integrante da pesquisa “Os Setenta Anos de Rádio Em Belém”, coordenada pela Professora Drª Luciana Miranda Costa, do Departamento de Comunicação Social da UFPA, e também fez parte do TCC  de Mônica,“O Rádio na década de 70 – Relatório Conclusivo”, cuja Orientadora foi a Professora Drª Luciana M.Costa.


Resumo

Paulo Ferrer começou a trabalhar em rádio em 1964, no ano em que o Brasil passava pela Revolução. Iniciou sua carreira como repórter na Rádio Imprensa (Anápolis-Goiás). Depois disso passou por outras rádios até chegar em Belém em 1969, onde trabalhou na Rádio Difusora, que anos depois se tornaria Rádio Liberal.
Em Belém, Paulo começou cobrindo o setor de esporte, mas o forte da Rádio Difusora na época era a programação musical, com Jovem Guarda, Bossa Nova, e predominância de músicas românticas.
Entre os programas de sucesso da década de 70, Paulo cita o “Show da Cidade” , o “Antena Policial” , o “Dona da Noite” e o Programa Eloy Santos . O radialista afirma que naquela época as emissoras de rádio tinham mais facilidade para conseguir anunciantes, até porque ainda não existiam as rádios FM.
Sobre os fatos marcantes de sua carreira, Paulo Ferrer destaca os personagens ilustres que já entrevistou, como o Pelé e o ex-presidente da República João Batista Figueiredo. Ele fala ainda sobre o mercado de trabalho do rádio-jornalismo e da permanência da mídia como quarto poder em nossa sociedade.

Mônica Maia - Como tu começaste a trabalhar em rádio? Quando tu começaste a trabalhar em rádio, em que ano e qual a situação?

Paulo Ferrer - Foi no ano de 64, 31 de março de 1964. Foi quando estourou a Revolução, eu estava em Brasília e alguém se comunicou comigo e pediu para que eu fizesse para a rádio a notícia, porque até então, em Goiás, ninguém sabia o que estava acontecendo. Eu mesmo pouco acesso tive porque eu estava muito preocupado, eram muitos tanques nas ruas. Na capital Federal, tropas da polícia mineira, tropas do exército, das três forças armadas, então eu pouco sabia. Mas com o auxílio de alguns jornalistas eles me passaram que aquele era um novo poder que estava assumindo o país a partir daquele momento. Então, aí eu passei o boletim para minha cidade (Goiânia), e fiquei três dias ainda em Brasília detido porque na fronteira não entrava, não saía ninguém, a não ser as forças armadas. Aí então quando retornei eu tive sérios problemas com a reportagem que eu fiz, pois nem eu mesmo tinha consciência do que estava acontecendo. Eu falava só aquilo que eu via, que eram as prisões, as agressões, aquelas coisas que aconteceram no dia da Revolução.

Tu tinhas quantos anos nessa época?

PF - Eu estava com 24 anos, e eu tinha sido contratado para o departamento de notícia a partir daquele momento, mas seria o plantonista esportivo. Depois eu passei por várias emissoras do Estado, como Rádio Santana, Rádio São Francisco e com algumas participações na Rádio Brasil Central, de Goiânia, que é uma das maiores rádios do Planalto Central.

Essa primeira rádio que tu trabalhaste ficava lá em Goiânia?

PF - Não, em Anápolis, que é uma cidade que fica a 50 km , como fosse Belém - Castanhal. Anápolis é o maior pólo industrial do Estado, é a chamada capital econômica do Estado, Goiânia era a capital administrativa, até porque Goiânia é muito jovem, ela foi fundada em 1945, tendo, portanto 54 anos, não é mesmo? E Anápolis já tem quase 75 anos, 80 anos, por aí. De modos que até clima, os climas são muito diferentes: Goiânia é um clima forte, torrencial como o de Belém, e Anápolis é um clima frio, como Brasília faz lembrar muito, São Paulo, essas cidades de clima muito frio. E na época existiam quatro emissoras de rádio, sendo a Rádio Carajás a sexta emissora mais antiga do país, ela que foi fundada em 1940, estando, portanto, com 59 anos atualmente.

Qual era o nome da primeira rádio que tu trabalhaste?

PF - Trabalhei na Rádio Imprensa, mas já existia na minha cidade a Rádio Carajás que existe até hoje. Agora o rádio sempre foi o meio mais rápido de comunicação, pessoas que não se conhecem, mas sabem tudo da outra pessoa porque o rádio é muito dinâmico, ele entra na porta da frente, na porta dos fundos, pelo telhado, ele entra na casa, ele dá o recado, as pessoas ficam sabendo dos costumes, dos hábitos, das virtudes, dos defeitos das pessoas que é como se as conhecessem pessoalmente. Haja vista que, por exemplo, aqui no Pará, o rádio exerce uma função muito grande. Eu inclusive, fazendo uma vez uma reportagem com um índio, no Dia do Índio, dia 19 de abril, ele me dizia que a tribo dele não ouvia a minha rádio que achava graça porque aqui me chamavam de “o amarelinho”, achavam que eu era bem magrinho, bem franzino, quando eu era forte, gordão.

Quando foi que tu vieste trabalhar em rádio aqui em Belém? Em que ano foi e qual foi a rádio?

PF - Foi em março de 1969, na Rádio Difusora, depois passou a ser Liberal. Portanto, vou fazer, só no Pará, trinta anos de moradia, trinta anos de rádio.

Lá na Rádio Liberal qual era a tua função?

PF - Era no esporte, como setorista da Tuna Luso Brasileira. Quando aqui cheguei, a Tuna tinha 17 anos que não ganhava um campeonato. Eu cheguei e não sei, trouxe sorte e naquele ano ela foi campeã. A Rádio Liberal era considerada a força jovem. Havia a Rádio Clube, a pioneira, a quarta emissora do país. Depois havia a Rádio Marajoara, a Rádio Guajará e a quarta a Rádio Liberal que já estava na administração da família Maiorana.

Nessa época, como é que era a programação da Rádio Liberal? O que era mais forte, era esporte, era jornalismo mesmo, era informação, era música?

PF - A rádio era musical, musical muito forte. O esporte comandava com quatro programas: um pela manhã, um no almoço, um à tarde e outro à meia noite. As notícias eram intercaladas, de hora em hora. Isso na década de 70. Agora, as músicas eram da Jovem Guarda, da Bossa Nova, músicas românticas da época, estava chegando o rock na época.

Nessa época, já não tinham mais as rádio-novelas, que já eram até...Eu acho que em 60, eram forte ainda nas rádios. Não tinha mais na década de 70 isso?

PF - Não porque não havia mais os elencos, você sabe que uma rádio-novela tem que ter bastante gente, uma equipe muito forte para fazer, a não ser um ou outro que fazia duas vozes, mas sempre é um elenco de mais de dez pessoas fazendo. Novela a Marajoara fez, a Rádio clube fez durante muito tempo e a Rádio liberal não chegou a fazer.

Tu te lembras de alguns programas que existiam nessa época na década de 70? Programas famosos que tiveram muita audiência?

PF -“Show da Cidade” , das nove ao meio dia, era José Travassos que apresentava. Era um programa em que a dona de casa, dizia o que ela pensava, o que ela precisava. Ele era direcionado à dona de casa. Havia um programa policial muito forte, o “Antena Policial” ; e havia programas à noite de músicas como “Falem-me” ., “Dona da Noite” , muito romântico, muito ouvido.

♦ Tem algum outro que tu lembras?

PF - Ah, sim. Tinha o Programa Eloy Santos , de muita audiência e o programa das nove às onze horas, Programa Almir Silva , era mais música de forró e músicas de quadrilha, porque a época junina era muito comentada aqui, então tinha esse programa.

Agora, tinha um público certo pra esses programas? O público de vocês era mais jovem, era mais idoso ou era assim...Geral mesmo?

PF - O público era de 25 anos pra cima. O público jovem tinha também, mas eles pouco participavam dos programas. A não ser as mulheres telefonavam, pediam as músicas da época; agora uma coisa impressionante era que as festas juninas eram feitas no meio das ruas, cercavam as ruas e as emissoras transmitiam às vezes essa festa, entende? E era uma coisa muito boa realmente; e tinha também um carnaval que era um carnaval que explodiu depois da década de 40, de 50, de 60 ele deu uma paradinha e explodiu em 74 com uma série de blocos, como: “Chavante” , “Os Bandalheiras ”, “Filhos da Fruta” e outros blocos que realmente foram sensacionais. Trouxe um carnaval muito forte, movimentando as escolas que estavam paradas, como é o caso do “Rancho” (“Rancho não posso me amofiná”), da “Embaixada Pedreirense ”, do “Quem são eles” . As escolas passaram a ficar dinâmicas até que surgiu também uma escola mais na onda do rádio que foi a “Arco Iris” .

Nessa época, tu lembras como é que acontecia a publicidade em rádio? Quem anunciava mais, era comércio, lojas, empresas grandes?

PF - Todo mundo anunciava. As emissoras de rádio, porque não tinha ainda FM, as emissoras de rádio estavam assim...Colocando na fila de espera firmas que queriam anunciar, mas já tinha firmas. Por exemplo, naquela época apareceu o grupo Xerfan, e muitas lojas, a Tecidos Povo e outras, aquelas lojas tradicionais: Lojas Brasileiras, Lojas Americanas, então havia muitas lojas que faziam seus anúncios; e as rádios tinham uma receita em cruzeiro que era uma beleza, faturavam mesmo. Além desse faturamento, as rádios tinham uma programação endereçada ao interior, é o caso da Marajoara: “Alô, alô interior”, mensagens que, naquela época, ela cobrava cinco cruzeiros e era meia hora. Houve a necessidade de aumentar mais meia hora, uma hora para que, na época de dia dos pais, dia das mães, Círio, as pessoas pudessem mandar mensagens para o interior. Também eram muito procuradas mensagens desse tipo no rádio. 

Na década de 70, existiam políticos que eram radialistas ou radialistas que se tornavam políticos?

PF - Radialistas que se tornavam políticos. Na época, pelo menos, as pessoas ficavam famosas, como Paulo Ronaldo, uma votação de Deputado Federal estrondosa, José Guilherme. O Thompson Mota se elegeu em dois dias de rádio. Dois dias ele ficou no rádio fazendo um programa, conscientizando a juventude que eles tinham direito do voto e acabou se elegendo vereador. E outros, como o mais recente caso do Edson Matoso; Adamor Filho eleito vereador; Oséas Silva, eleito deputado por três vezes; Costa Filho eleito deputado estadual; e tinha Joaquim Antunes, cuja irmã foi eleita por ele praticamente, que comandava um programa muito interessante...
O Joaquim Antunes tinha um programa “Bolso do repórter” . Ele levava uns 20 bilhetes dentro do bolso, aí tirava: “A dona Maria tá reclamando que a rua dela não tem água”; rasgava o bilhete e tirava outro. Então dava 20 recados tirando bilhetes do bolso. Aonde ele passava na rua o pessoal dava bilhete e ele botava no bolso. Um dia aconteceu uma coisa gozada, uma pessoa estava reclamando do clube que ele gosta, que é o clube o Remo, e ele chegou na hora pra reclamar e começou a falar, quando ele viu que era do Remo ele falou: “Não, não, não foi algum engano”, que ele não queria falar mal do clube dele. Na década de 70, dos anos 73 pra frente, surgiu uma nova comunicação aqui no rádio. Era a “Motorola”, considerada a FM. A Marajoara foi a pioneira, foi a primeira emissora a lançar a “Motorola”. Ela era diferente porque, até então, só se fazia reportagem por telefone, adaptando microfone nas tomadas telefônicas, aí veio a Marajoara com a Motorola. Era um carro amarelo com as cores da rádio, escrito o nome da rádio e eu então era o repórter “Amarelinho”. Falava de bairros, falava de qualquer lugar, isso então tornou-se uma coisa impressionante. “Como que esse rapaz está em Icoaraci, no meio da rua, falando com os ouvintes, sem fio, sem nada?”. Através da Motorola. E quando houve uma fuga de presos para Barcarena. Havia um telefone só em Barcarena, esse telefone funcionava das 15 horas às 18 horas, quem falava nesse horário falava, quem não falava ficava sem falar. Naquela época, quando esses 16 bandidos fugiram para Barcarena, todas as emissoras foram levando gravador. Gravava com os moradores, chegava num horário na Telepará e passava. Foi quando um repórter muito sabido, um dos maiores repórteres, o Paulo Ronaldo, bloqueou o telefone só para a empresa dele, então comprou o horário todo e as outras ficaram sem funcionar. Muitos voltaram, porque não adiantava você gravar pra com dois dias, você vinha a Belém e passar a reportagem, e ele passava todo dia à tarde com a defasagem de oito, nove horas, mas ele passava. Foi quando nós tivemos a idéia de levar o “Amarelinho” para Barcarena. E qual a surpresa nossa? Chegando lá dentro de Barcarena eu chamei a torre e a torre falou: “De onde está falando, é aqui de Belém?” E eu: Não é de Barcarena. “Ó, mas tá local”. Aí acabou, destruímos a outra rádio. Aonde nós íamos entrávamos na mata. A polícia prendia um bandido, agente entrevistava a polícia, o bandido, ouvia os moradores. Então o “Amarelinho”, naqueles 15 dias que ficou na mata até ser preso o último bandido, então todo mundo ficou admirado, e todo mundo, quando chegava via o “Amarelinho” na rua, olhava pra ver o que tinha no “Amarelinho”. Era um aparelho de um palmo de comprimento por meio de largura e atrás um aparelho grande que é onde saía o som para a antena que era jogado (o som era jogado) para a outra antena que estava no Manoel Pinto da Silva, então esse era o segredo. E até hoje as emissoras usam o Motorola, como por exemplo, na Liberal usam, aqui na Cultura usam, mas hoje tem o celular que veio melhorar muito a nossa vida, é mais caro, mas é mais prático.

Naquela época, o Motorola era o que tinha de mais moderno?

PF - Inclusive nas jornadas de futebol de campo havia aqueles Motorolas grandes, pesados, que a gente tinha que pegar com duas mãos pra entrevistar. Colocava na cara do jogador, o jornal batia a foto e só aparecia o aparelho. Depois foi ficando mais sofisticado, aparelhos menores Motorola. Esses aparelhos vinham dos Estados Unidos, custava em dólar, então ficava difícil para as emissoras. Daqui só quem tinha era a Marajoara, depois a Liberal, posteriormente o Rádio Clube, aí foi, todo mundo passou a ter esse aparelho.
Até mesmo o gravador só veio surgir do meio pro final, porque no início da década de 70 ainda não tinha o gravador.
Havia gravadores, mas gravadores grandes, muito antigos, mais usados nas redações. O gravador pequeno, o gravador de bolso, começou a surgir nos anos 75, daí pra frente. Abriu-se a Zona Franca de Manaus e começou a aparecer esse tipo de equipamento.

Tu lembras de um acontecimento marcante durante a década de 70?

PF - Eu tenho na minha vida alguns acontecimentos. Primeiro foi entrevistar o Pelé, em 66: ele vinha da Europa, o Brasil tinha perdido a Copa do mundo, mas ele engajou-se ao clube dele, o Santos, e foi campeão do mundo de clubes. Mas ao invés dele voltar para a casa dele, que era Santos, com o título de campeão mundial, ele tinha um compromisso em Goiânia, um jogo, e nesse meio tempo que ele saiu da Europa que chegou em Goiânia, nasceu a filha dele. E nós fomos fazer a entrevista do jogo lá, e nos deu a idéia de fazer uma homenagem pra filha dele comprando brincos de ouro e uma esmeralda bem pequenina. E chamamos ele para a entrevista. Naquela época, aonde o Santos ia milhares de microfones, fios, não tinha outro tipo de aparelho, fios embaraçando um no outro. Foi quando o Pepe, que jogava com ele disse: “Olha, tem um repórter que quer prestar uma homenagem a sua filha que nasceu”. Ele veio correndo alegre, então eu dei aquele brinquinho, foi quando lágrimas brotaram dos olhos dele, quer dizer, ele não conhecia a filha dele, ele já ia levando, e a filha dele já era querida, era a Kelly Cristina, que é a filha mais velha dele, tem 33 anos, depois veio Edinho, depois vieram outros casamentos. Para surpresa minha, um dia um diretor da nossa emissora de Goiás foi à casa dele tomar chá, e ele contou que um repórter em Goiás homenageou e ele não tinha esquecido, foi quando mostrou um cartão que todos nós havíamos escrito lá, que estava o nosso nome. Então foi uma surpresa muito grande.
Depois a foi com o João Batista Figueiredo, que era presidente da República. Foi no fim da década de 80, foi quando ele já estava popularizando o Governo, democratizando. Ele veio ao Círio aqui, e o Alexandre Garcia, que foi jornalista da Globo nós pedimos pra ele pra entrevistar. Ele falou: “Não, não tem condições, o homem não dá entrevista pra ninguém”. No decorrer do Círio, da procissão, daquele sacrifício todo, ele vendo todo mundo e tal. Ai o Alexandre falou: “Olha, ao chegar em Nazaré ele vai carregar o andor da virgem, ele vai carregar a berlinda, e ele disse que nessa hora, durante um minuto, vocês podem entrevistá-lo”, quer dizer, nem todos ficaram sabendo disso porque uns ficam no fim do Círio, outros ficam...Como eu tinha um aparelho, que era o Motorola que ele falava numa distância de mil metros, ali estava a 200 metros da minha rádio. Eu fiquei toda hora: Alô, alô, alô, o presidente vai falar, a qualquer momento ele vai falar. Quando o presidente passou o lenço, quando ele pára no sinal que ele passou o lenço pra limpar o calor, nós encostamos. Eu me lembro um fotógrafo, um cinegrafista e eu. Aí eu fiz a seguinte pergunta para ele: Presidente, o senhor está gostando do Círio? Ele falou: “Nunca vi coisa igual”. O senhor fez alguma promessa? “Fiz, mas isso vai ficar só comigo mesmo”. Ai prosseguiu. Foi o que ele disse, quer dizer, foi uma entrevista rápida, mas que ele deu a mim naquele momento. Depois eu entrevistei num dia só, em 15 minutos, dentro de um programa de rádio, oito ministros de Estado. Eles iam para Altamira, estavam no Hotel Grão Pará - que já fechou - sentados. Aí eu chamei a minha rádio, cujo diretor era o Ronald Pastor, que estava no ar: “Ronald, situação essa: tem oito ministros na linha, já conversei com eles. Um sai, o outro entra, um sai, o outro entra. “A pergunta é curtinha, vai dar 30 segundos pra cada um”. Falei: Não, pode ser até mais. Aí comecei pelo Mário Andreasa, Delfin Neto - que era da fazenda - , César Caos - que era ministro das comunicações - e outros mais famosos, até chegar o último. Enquanto eu estava entrevistando o último, o presidente da República passou feito um foguete, e ele teve que interromper, que assim que o presidente passa, eles deixam tudo que tem que fazer e (vão) seguir o seu mestre.
E me aconteceu também uma “parada” que eu até achei interessante. Veio aqui o ministro das minas e energia Cigeak Weck e dando entrevista para os jornalistas e a mim também, eu estava fazendo ao vivo com ele lá do aeroporto. E depois que ele falou cinco a dez minutos sobre o petróleo na Amazônia, o gás do Urucu, o que o Brasil pretendia, eu acabei dizendo: “Acabou de falar, o amarelinho”. Quando eu acabei de falar ele pegou no meu braço e perguntou se eu estava brincando com ele. Aí que eu compreendi que o homem era japonês e era amarelo e ele achou que eu tava brincando com ele. Foi quando o governador Aloísio Chaves falou: “Não excelência, ele é o repórter ‘Amarelinho', o senhor não leve a mal”. Aí ele me abraçou e tal e foi embora. Mas esse foi um dos sustos que eu passei porque era época da Revolução, e eu poderia até ser enquadrado por desrespeito ao chefe do Governo.

Isso foi em que ano?

PF - Ah, já foi no Governo Aloísio Chaves. Já foi ali nos anos 76/82 mais ou menos.

Há muita diferença do jornalismo da tua época de trabalho, na década de 70, pra o que tu estás vivendo hoje?

PF - Naquela época era mais difícil, ninguém aceitava a imprensa falar nada que a pessoa era jurada de morte. As pessoas iam ao seu trabalho, te denunciavam pro seu patrão, você era suspenso. Hoje, através do sindicato dos jornalistas, hoje através da mídia mais moderna, hoje através dos meios de comunicação mais sofisticados é um direito assegurado...Depois que foi criada a faculdade de comunicação que tem feito grandes jornalistas, muitos têm se formado e criado seu próprio campo, seu próprio espaço. Então nós ficamos mais respeitados. Hoje, até pelos aparelhos que nós usamos, as facilidades que temos, eu acredito que está muito mais fácil. Mas, porém, as pessoas hoje também não estão muito seguras. Hoje porque o campo está muito minado de jornalistas eu quero acreditar que há uma disputa. Se sabem que você é uma boa repórter e pode fazer um trabalho diferente na televisão, no rádio, você será contratada e aquele que estava no seu lugar terá que procurar outra emissora, outro espaço, outro emprego, mas podemos dizer uma coisa com toda certeza: no mundo atual que estamos vivendo, na virada do século, o quarto poder continua e sempre será a comunicação, a imprensa.

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Descanse em Paz
Amigo PAULO FERRER


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