8/08/2012




Fernando, amor da minha vida





Meu paizinho

passei um ano dia após dia, fazendo um retrospecto dos 32 anos que passamos juntos. As agressões que sofríamos, as dificuldades para encontrar a paz e foi quando passamos a morar juntos na Antônio Barreto que a tranqüilidade reinou. Lembro do primeiro dia juntos que eu acordei e gritei: “Sou feliz o apezinho é meu!”. Foram momentos infinitamente belos, programávamos viagens e tinham que ser sempre de quinta a segunda, a hora do almoço por força do trabalho que nos esperava.
Sempre vivemos do nosso trabalho, não tínhamos e nunca tivemos bonança, mas nesses 32 anos houve a compensação dos prazeres, das alegrias e tudo foi inesquecível. Adorava quando chegavam os dias comerciais com as nossas trocas de cartões carregados de muito amor. Não fizemos uma colméia de 
amigos, mas o que escolhemos foi do coração.
Sempre tive a preocupação de ficar só, e implorava a Deus que não me desse tamanha dor tão cedo, pedia por favor que ficássemos velhinhos, e lembro do nosso ultimo dia 31 de dezembro, no terraço do nosso apê, eu e tu, o que mais pediste em voz alta e eu pensando a mesma coisa. Jamais pensei em te perder tão cedo. Aos 64 anos muitos começam a viver a alegria de anos de trabalho para curtir a vida. Conosco foi diferente. Nunca tivemos muito dinheiro, mas sabíamos como usá-lo no momento certo.
Em Buenos Aires, onde devo ter tido contigo umas 18 entradas curtíamos o que era bom dos restaurantes. O Café Tortoni, as boates, os cabarés, tudo era motivo de festa. E São Paulo que fizemos lindos amigos e para nós a noite paulista foi um acontecimento que poucos vivem. Não posso esquecer os lindos dias em Paris e na Inglaterra, o que foi aquela viagem daria um minilivro e o lindo Uruguai que já foi a Suiça brasileira e a fantástica Punta Del Este tudo é uma recordação maravilhosa. Deixar o apezinho da Antônio Barreto foi uma dor muito grande, mas nada eu fazia que pudesse te trazer malefícios, e do teu jeito, e com os meus toques voltamos ao ninho antigo na Tamoios. Eras encantado com tudo o que eu apresentava diferente, e achavas de muito bom gosto o que foi projetado para o apartamento.
Os meus, os teus, os nossos filhos, cada um com sua vida familiar traçada recebiam de nos o melhor bem do mundo, o amor. Telefonemas, visitas, almoços sempre com eles presentes dentro dos nossos limites. Amar não é por em jogo dois pesos e duas medidas, amar é sentir na pele o carinho a dedicação e aceitar cada um da sua maneira respeitando e admirando.
Cada dia tem sido muito difícil, todas as noites converso contigo ávida em te ouvir e ainda suponho que vás me telefonar ou mexer na porta com as chaves que carregavas. Não tem um único dia que eu sento à mesa e não lembro da tua presença, é muita dor. Fico perguntando o que vem ser a realidade aos olhos de uma mulher apaixonada. Uma pergunta sem resposta principalmente quando chega as 2 horas que sentávamos para almoçar e que tu abrias a porta do quarto e dizias: “Oi mãe!” E eu quase desmaiando de fome, esperava todo o teu ritual para almoçarmos.
Acho que a nossa história de amor é e foi para poucos. Uma conjunção carnal, tipo almas gêmeas. Havia uma ordem em casa quando o meu rei chegava, nada de conversas altas ou mexidas de louças. Tinha que ser uma calmaria e tu sentindo o prazer em voltar para casa.
Neste ano da tua ausência poucos foram os momentos que eu compareci a um evento. Minha mãe dizia que o luto é a força de um sentimento, é só podemos vive-lo se tiver amor, e assim foi este ano. Um sábado sim e outro não, estou te visitando orando por ti no teu túmulo, pedindo a carona de Lygia, do Mário, da Rosana, do Leo e da amiga Samya. Não sei movimentar a minha vida sem antes te ver entre as flores. São vinte minutos de visita que acalentam minha alma.
Fernando meu paizinho, tive que procurar nossa querida Emília Amaral para dar força e mais recentemente por intermédio da amiga Betânia Souza pude conversar com o espírita Alberto Almeida que me ouviu por mais de uma hora, mandou eu tomar um remédio homeopático, ler um livro e ver um filme. Te confesso que ele é genial, me deixou um pouco alentada “ o amor não tem adeus, tem até breve”, disse ele. E assim eu continuo esperando.
Meu paizinho o mais difícil para quem não sabia nem entrar em um banco, porque fazias tudo, e o Anderson que também partiu para ficar ao te lado, me dizia que nada podia me atormentar, que qualquer problema teria que ser resolvido até as ultimas conseqüências para eu não me abater. Meu Fernando, nossas Rosa, Dilcinha e Tereza como te lembram, principalmente a Rosa que sempre cuidou das tuas roupas e era o teu xodó. Elas sentem muito a tua falta na hora dos questionamentos, do serviço de cada uma.
Te amo cada vez mais a cada dia da vida e peço força para não me destruir com tanta dor. O último sonho que Rosana teve, ela me contou que estavas bem, e por que eu sofro tanto? Me ajuda paizinho a superar esta dor, eu juro que vou honrar e me colocar entre os felizes que fizeram o bom uso do tempo que lhes foi dado. Tem gente dizendo que me deixaste financeiramente rica. Desde quando professor 20h da UFPA tem salário digno, funcionário estatal e tu fazendo uma advocacia em torno de projetos com uma Sudam que não tem mais nenhuma serventia? Fiquei rica sim, de te-lo ao meu lado, de viver uma cumplicidade memorável, me enriquecendo com teu amor e cuidado que me cercavam, de usar o cérebro, como aconselhava minha saudosa amiga Maria José Mutran: “compre um adorno, quando os olhos cansarem, vende e troca por outro mais bonito”. E assim tem sido o prazer de renovar o meu espaço. Enquanto vida eu tiver jamais esquecerei de ti, e não sei quando voltarei a ser um ser humano normal, com coração acalmado e sem dor. Até quinta-feira às 19:30 horas quando na Basílica Santuário de Nazaré será celebrada a missa de um ano de tua passagem. O Padre será Cláudio Pighin com a música da orquestra Corum, regida pelo maestro Sergio Lobato que também será o cantor.

Te amo eternamente.



Vera Cardoso Castro
N. da R - O advogado e jornalista FERNANDO MOREIRA DE CASTRO JR. faleceu no dia 09 de agosto de 2010.
♥ Transcrito da coluna Vera Cardoso Castro Diário do Pará 05.08.2012

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