8/29/2012

RAY CUNHA


A vida é sempre um recomeçar





BRASÍLIA, 26 de agosto de 2012 – Xarda Misturada, livro de poemas de Joy Edson (José Edson dos Santos), José Montoril e meus, foi publicado em dezembro de 1971, em Macapá. Em 1982, lancei Sob o Céu nas Nuvens, também de poemas, em Belém. Dez anos depois, estreei como contista, com A Grande Farra, em Brasília. Meu primeiro livro publicado por uma editora, Cejup, de Belém, saiu em 1996, o conto A Caça. Em 2000, lancei Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos e em 2005 a Editora Cejup publicou o romance A Casa Amarela. Em 2008, a LGE Editora, de Brasília, lançou O Casulo Exposto, de contos. Todos esses livros venderam, alguns vendem ainda, a conta-gotas.
Em 22 de outubro de 2010, o artista plástico André Cerino, meu amigo desde quando cheguei em Brasília, em 1987, criou o blog raycunha.blogspot.com. Um ano e 10 meses depois, o blog já foi visitado 17.389 vezes. Nunca fui tão lido, e por tantos leitores importantes. Dia 20 passado, comecei MBA em Marketing pela Escola de Administração e Negócios (Esad). A primeira aula dos cursos da Esad são sempre ministradas pelo seu principal executivo, Marcelo Saraceni. Pois bem, na hora das apresentações ele disse para a turma que é leitor do meu blog e me pediu para escrever o endereço eletrônico no quadro.
Depois desse episódio, ocorreu-me que muita gente importante lê meu blog, e até se corresponde comigo, como o poeta Jorge Tufic, do Clube da Madrugada, autor da letra do Hino do Amazonas. Convivi com Tufic entre 1975 e 1977. Bebíamos Antarcticas enevoadas no Bar Nathalia, em Manaus. Hoje, o poeta vive em Fortaleza.
Desconfio que sou lido também, embora esporadicamente, como acusa correspondência fragmentada, por um dos maiores repórteres do mundo, o premiado jornalista e ensaísta Lúcio Flávio Pinto, que vive em Belém do Pará. Outro escritor amazônida que me lê é o compositor popular, contista, ensaísta e professor universitário, o sociólogo Fernando Canto, de Macapá. Correspondência atesta que meu blog é lido ainda por um dos jornalistas políticos mais lúcidos do país, o romancista Ruy Fabiano, e também pelo ensaísta Jorge da Silva Bessa. Desconfio que o embaixador de Portugal em Paris, Francisco Seixas da Costa, seja meu leitor, e tenho certeza de que o embaixador de Cabo Verde em Brasília, Daniel Pereira, lê meu blog. Esclareço que todos os meus leitores são importantes para mim, especialmente minha gata, Josiane, e minha princesa, Iasmim.
Há os leitores que se ofendem com o que eu escrevo e exigem a retirada de seus endereços eletrônicos da mala direta do blog, principalmente simpatizantes do Lulapetismo.
Este mês, passei a publicar apenas um trabalho por semana. É que dia 9 comecei em um novo emprego: assumi a coordenadoria executiva da Proativa Comunicação, agência brasiliense de porte médio, com clientes do nível da inglesa PricewaterhouseCoopers (PwC), uma das maiores firmas de consultoria e auditoria do mundo, presente em mais de 150 países. As atividades lá tomam toda a semana, de modo que passei a me levantar às 4 horas para trabalhar no meu novo romance. Antes, levantava-me às 5. Então, aos sábados de manhã tenho aula de inglês instrumental e à tarde, quando não me sinto muito cansado, escrevo algo para o blog. Como ontem eu me sentia cansado, escrevo esta crônica neste belíssimo domingo, 26.
Mudamo-nos – Josiane, Iasmim, dona Joana (minha sogra) e eu – no dia 27 de maio da 711 Sul, onde moramos durante 4 anos e 4 meses, para o Cruzeiro Novo. O jardim que cultivávamos na 711 lembrava uma mina de pedras preciosas. Rosas amarelas rebentavam em cachos, fazendo-me lembrar Gabriel García Márquez como a um velho amigo, com quem eu me encontrasse quase todas as noites num bar bem iluminado e me contasse histórias caribenhas. Nas noites muito quentes o jasmineiro chorava Chanel número 5. Plantamos também um pau-rosa e a Josiane cultivava orquídeas. Em novembro, a mangueira defronte de casa ficava prenhe de mangas, doces como seios, e o sabiá cantava desde o fim de agosto até fevereiro.
No Cruzeiro Novo o sabiá também canta na mesma época; começa, a cada dia, sempre em torno das 5 horas e entra pela noite. Na 711 Sul, caminhávamos, Josiane e eu, no Parque da Cidade. Às vezes, eu ia até a Rodoviária do Plano Piloto e retornava caminhando, porque gosto de observar o movimento das ruas. Agora só caminho aos sábados e domingos, explorando o entorno da nova moradia. Vivi no Cruzeiro Velho, o bairro dos cariocas, entre 1987 e 1989, e agora percorro, nas minhas caminhadas, velhos roteiros, e vou lembrando das coisas, como marujo perdido dentro de um nevoeiro.
É que naquela época eu era alcoólatra. Comecei a beber em 1968, com 14 anos de idade, e só parei no réveillon de 2011, quando recusei o tradicional champagne. Então, parte do meu passado jaz sob vapor etílico. Mas a vida é um recomeçar, a cada segundo, e há sempre sol vazando nos jardins de Deus.

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RAY CUNHA – Escritor e Jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil

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