1/26/2013






CLÁUDIO BARRADAS. O



filósofo, O ator. O  diretor



O padre. Um grande homem








O meu querido amigo e irmão Cláudio de Souza Barradas completou no dia 25 de janeiro 11 anos de vida sacerdotal e 84 anos de idade. Acho que vale a pena falar um pouco desse padre.
Desde muito jovem acompanho os passos de Cláudio Barradas. Esse ator consagrado – com prêmios nacionais e internacionais e um dos principais elementos representativos da arte cênica do Pará – eu o vi pela primeira vez no palco do Teatro da Paz, interpretando o príncipe Omar, da peça Branca de Neves e os Sete Anões, adaptada por Maria Clara Machado, com música e arranjos da professora Maria Luísa Vella Alves, há mais de 60 anos.
Quando estava na Folha do Norte, estive várias vezes na casa de Barradas – ele morava na Rua Tiradentes, próximo à travessa Piedade – em companhia do poeta e ficcionista Eliston Altmann, que dirigia a página literária da Folha, publicada aos domingos na capa do 2º caderno.
Anos mais tarde, dirigindo a ATESC – Associação Teatro-Escola Santa Cruz, entidade ligada à Paróquia de Santa Cruz (Marco), que funcionava ao lado do prédio do antigo Hospital Juliano Moreira – onde hoje funciona a Faculdade de Medicina da UEPa -, eis que me vejo diante do diretor Cláudio Barradas.
Minha entidade – ATESC - estava participando do planejamento, ensaios, montagem e realização da peça Cristo Total, da irmã Benedita Idefelt (OSC), encenada em pleno regime de exceção, por duas vezes, no Estádio Francisco Vasques, da Tuna Luso Brasileira, e que reuniu mais de cem mil pessoas – um sucesso total – sob os auspícios do Círculo Operário Belenense, e do inesquecível padre Thiago Way.
Cláudio, àquela época no SESI, era o responsável pela direção geral.
Ele esqueceu de citar esse fato nas reportagens publicadas recentemente no Diário do Pará, assinadas por Oswaldo Coimbra.
Daí que a amizade com esse moço admirável frutificou. Tornei-me guru do ator e diretor Cláudio de Souza Barradas.
Muito antes disso, Cláudio Barradas já havia frequentado o seminário. Ele tinha 13 anos (atualmente tem 84, completados no dia 5 de janeiro passado) quando ingressou na antiga casa de formação da Arquidiocese de Belém – o Seminário Nossa Senhora da Conceição – levado por D. Alberto Ramos, que à época era apenas um padre diocesano.
Após oito anos, no finalzinho do curso de filosofia, Cláudio Barradas deixou o seminário para o desagrado, não apenas de D. Alberto Ramos, do padre Nelson Soares – que se tornou seu amigo e confessor – como de D. Mário de Miranda Villas Boas, que o tinha escolhido para os estudos complementares de Filosofia e Teologia em Roma, na Universidade Gregoriana.
Cláudio Barradas pintou, bordou, virou, mexeu; fez Letras Clássicas, inaugurando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Pará - sonho do professor Antônio Gomes Moreira Jr – o nosso Moreirinha - falecido há quase 20 anos. Foi o primeiro lugar da turma... também... pudera... sabia Latim de trás pra frente e de frente pra trás! Em seguida abraçou de corpo e alma o teatro, sendo um dos primeiros alunos da Escola de Teatro da UFPa.
Mas nem Deus e nem D. Alberto se esqueceram do brilhante, irrequieto e desbocado e imprevisível seminarista.
Nas horas vagas, Cláudio ajudava nas paróquias. Colaborou em São José de Queluz, quando por lá passou o padre David Sá, atualmente afastado do ministério; São Francisco de Assis (Capuchinhos), participando do antigo Grêmio Bento XV – que revelou, entre outros, Assis Filho, advogado, jornalista, poeta, autor de teatro, escritor e ensaísta, falecido há três anos; e Sant’ana, do monsenhor Nelson Brandão Soares (aposentado), onde aprendeu tudo sobre música, regência etc, além de integrar a Schola Cantorum e, de quebra, fazia teatro na Igreja duas vezes por ano, na Semana Santa e no Natal.
Quando Nelson foi para a catedral, Cláudio Barradas o acompanhou. Tinha tudo a ver.
Naquela Igreja ele foi batizado; aprendeu o catecismo; recebeu a primeira eucaristia (ou primeira comunhão, como se dizia até há algum certo tempo); foi cruzado e recebeu o sacramento da Crisma, das mãos de D. Mário.
Já aposentado da UFPa. e com o tempo livre, passou a exercer um monte de atividades no Curato da Sé.
Um belo domingo de Páscoa, D. Alberto logo após a celebração do Pontifical, ao desfazer-se dos paramentos sacros, com a ajuda do Cláudio, dirigiu um olhar firme e ao mesmo tempo sereno e paternal ao acólito, e perguntou: “Cláudio, você aceita ser ordenado”? Já é tempo, não acha?... Você começaria de baixo, leitor, diácono e depois viriam as demais funções do presbitério até à Ordem, propriamente dita. Não sou eu quero, é Deus que O chama".
A pergunta soou para Cláudio Barradas, segundo as suas próprias palavras, como um “chute no saco”. Ele não titubeou, em lágrimas disse SIM.
A partir daquele momento tudo mudou na vida desse homem. Deixou de lado a vaidade e os seus muitos títulos mundanos e foi para o Seminário São Pio X, como qualquer um outro postulante ao sacerdócio.
Como já tinha praticamente todos os créditos necessários, concluiu a parte que faltava de Filosofia e estudou Teologia. Fez o tirocínio na Catedral auxiliando (ainda mais) monsenhor Nelson Soares nas atividades paroquiais.
No dia 25 de janeiro de 1992 – Dia da Conversão de São Paulo - foi ordenado lá mesmo na Catedral, sendo nomeado vigário auxiliar. No dia 02 de fevereiro de 1993, D. Zico o designou para a Paróquia de Santa Isabel de Portugal, no município de Santa Isabel, - que à época ainda pertencia à Arquidiocese de Belém -, onde realizou um trabalho pastoral, dos mais edificantes e maravilhosos.
Cláudio Barradas não perdeu tempo e logo no início montou uma equipe de teatro e de música. Tão contagiante foi o seu trabalho que muitos crentes se converteram à fé católica. Ele foi um dos precursores da Renovação Carismática.
Eu estive lá. Passei uma quarta-feira inteira fazendo uma reportagem para o Nosso Jornal, - um semanário editado por Salomão Laredo, já extinto -; e posso dar o meu testemunho.
Cláudio confessou que prefere estar junto ao povo humilde do interior, sentindo o cheiro de mato. “Essa gente é mais autêntica. Todos me querem bem"!.. não obstante o seu gênio explosivo... uma das suas características. É verdadeiro, positivo, autêntico: não leva desaforo para casa.
Mas ao mesmo tempo é inofensivo. É doce.
João Carlos Pereira, acadêmico, jornalista, professor é quem diz:
Gostaria, um dia, de ter a coragem de Claudio Barradas e chegar ao sacerdócio. Sei que meu caso é mais complicado, porque sou casado e tenho um compromisso com a família, o que vem a ser uma maneira de louvar a missão que Deus me confiou. Mas pulsa, em meu coração, um desmensurado amor pela Igreja à qual me converti e um desejo imenso de servi-la, no altar. Essa decisão, antes que possa tomá-la, repousa nas mãos do Santo Padre. Sacerdotes casados, no rito romano da Santa Igreja Católica Apostólica, ainda é uma figura inexistente. Mesmo assim, não é impossível pensar que, em algum momento, o Papa poderá permitir que casados recebam as sagradas ordens e possam confessar e consagrar.
Vejo na doce figura de padre Claudio, um exemplo edificante. Hoje, conhecendo-o melhor, admiro-o ainda mais. O homem que caminhava para as delícias da aposentadoria, redirecionou seus passos no sentido do trabalho. Numa idade em que muitos querem parar, ele pediu serviço e o Senhor o atendeu. O serviço pela vida, pela Igreja, pela vida, enfim, fez de um homem bom, um ser humano raro”.
Após algum tempo o nosso sacerdote foi transferido da Paróquia de Jesus Ressuscitado - Conjunto Médice I/Marambaia, onde atualmente se encontra.
E nessa terça-feira, 25 de janeiro, dia da conversão de Paulo de Tarso no caminho de Damasco, dia escolhido por Cláudio Barradas, para a sua ordenação, o meu irmão e amigo completou 13 anos de padre. Oxalá que as palavras de Melchisedeque o acompanhem para todo o sempre, e que ele possa, através das suas virtudes, com o seu valor com a sua inteligência, com o seu teatro e a humildade, trazer muitos servos para a Messe que tanto necessita.
Tem mais - Em 2010 o tradicional Sermão das Três Horas da Agonia foi pregado pelo padre, filósofo e ator Cláudio de Souza Barradas. Durante 190 minutos o nosso jovem-idoso-sacerdote nos presenteou com uma lição de vida, filosofia, da Igreja Católica, de Cristo, O Filho de Deus.
Na explicação das três últimas palavras, das sete que Cristo disse na Cruz, Cláudio, visivelmente emocionado, quase que se deixa vencer pela comoção!
Foram justos os aplausos de pé provindos da seleta plateia presente na Capela de Santo Antônio, no centro de Belém. Creio que esses aplausos vieram de todo o mundo já que a prédica foi transmitida por satélite pela TV Nazaré - Canal 30.
O sermão virou livro. Rapidamente esgotado.
Cláudio Barradas já teve a sua consagração em vida. Um teatro na Travessa Jerônimo Pimentel, inaugurado em 19 de junho de 2009 tem o seu nome.
Situado num bairro central de Belém, o conjunto formado pelo Teatro Universitário e a Escola de Teatro e Dança, tem como função contribuir para o desenvolvimento das Artes Cênicas no Pará.
Assim sendo, o Teatro Universitário Cláudio Barradas - no mesmo local onde funciona a Escola de Teatro e Dança - se constitui em um espaço aberto aos inúmeros grupos artísticos da cidade e da região com os quais poderá estabelecer uma prática enriquecedora, com capacidade para 260 espectadores sentados.
Há 19 anos resolveu retornar ao teatro; e nesses quase quatro lustros atuou e dirigiu várias peças.
Em dezembro passado com atores da comunidade da Paróquia Jesus Ressuscitado, no Conjunto Médici 1, no bairro da Marambaia, encenou "Morte e Vida Severina", a famosa obra de João Cabral de Melo Neto - escrita entre os anos de 1953 e 1954 - que ficou em cartaz sob a forma de Auto de Natal até 6 de janeiro último.
A montagem toda composta em poesia contou com mais de vinte atores, cantores e músicos que representaram o drama da seca nordestina sob trilha composta por Chico Buarque de Hollanda. As apresentações aconteceram diariamente na Igreja de Jesus Ressuscitado, sempre após a missa das 19 horas.
Finalmente Cláudio Barradas deu um depoimento para a posteridade sobre a memória viva do teatro paraense no programa “Ribalta” da TV Cultura – Canal 2, em gravação feita no Teatro Claudio Barradas da Escola de Teatro e Dança da UFPA.
O registro foi gravado em DVD e encaminhado à TV Brasil onde foi mostrado em todo o Brasil. Além da entrevista, o DVD mostrou 'extras' com fotografias de espetáculos do ator e o making off da gravação. 'Ribalta' é um projeto da Universidade Federal do Pará, sob a iniciativa do Teatro Claudio Barradas, com apoio da Pró-reitoria de extensão da UFPA, Fundação de Amparo à Pesquisa (Fadesp) e coprodução da Academia Amazônia.

Deu certo.

Mais uma consagração para o padre Dr. Cláudio de Souza Barradas


Como disse linhas acima, Deus e D. Alberto não perderam o Cláudio Barradas de vista.

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