5/05/2007

Mais um conto de Luiz Lima Barreiros (5)


ESBOÇO PARA “IMAGENS DE UMA TARDE DE VERÃO”

(Uma ligeira reflexão sobre a criação artística, através de um neoconto, e pelo método descritivo)

1- Tarde de verão! A claridade é imensa: a luz transborda por todas as partes. Vou descrevê-la, sem procurar armar frases, com certo rigor estilístico, mas sim, do jeito mais livre possível.
Afinal, o que nós poderíamos dizer sobre uma tarde de verão. Que estou escrevendo sobre ela, talvez sem muita vontade, ou melhor, a fim de que me torne mais claro, devido à obrigação que tenho para com o possível leitor, que estou com uma vontade maior de vivê-la, do que de contá-la? (E, de início, realmente, é isso o que faço: afirmo que estou escrevendo sobre uma tarde de verão). Mas, como vivê-la ? Saindo, e dando uma volta? Indo até ao canto? Pegando um ônibus, já que não possuo carro, e circulando pela cidade? Isto, em outras vezes, eu já fiz. Adiantaria fazer de novo? O quê? Ir até o canto? Mas, para quê? Daqui, da janela de cima, tem-se uma visão mais ampla. Talvez se eu fosse até ao telhado... E não seria a primeira vez! Aqui, nesta gaveta, tenho umas fotografias que tirei lá de cima: estão boas; foram batidas numa tarde ensolarada...
Há o que se viver numa tarde de verão? O que é uma tarde de verão? É somente um estado de espírito? Recordações de outras tardes, de outros verões, mescladas com alegria, ou o que é mais provável, com a nauséa existencial, que o aumento da temperatura provoca? Existe uma tarde de verão? Ou, apenas o planeta, cujos seres pensantes que nele vivem denominaram Terra, locomove-se mais inclinado, com seu eixo imaginário, fruto de racionalizações, em relação ao plano de sua órbita, ou, em outros termos, no Brasil , por exemplo, é verão porque com a inclinação do eixo hipotético do nosso planeta, o Pólo Sul está mais voltado para o Sol do que o Pólo Norte? (O que vem a dar na mesma, mas, passei a falar em pólos, na segunda construção, e surgiu , inesperadamente , em meu cérebro , uma pergunta , quase incessante , que passou a dominar-me , por alguns momentos : - Irei até ao Pólo Sul ? Chegarei a ver pingüins em seu habitat? – Irei ao Pólo Sul ? Verei pingüins?...) Paro um instante de bater à máquina , a fim de dissipar esta pergunta intrusa e inoportuna , que friamente veio empatar a minha descrição de uma tarde calorenta . Bem , continuemos . Logo , o hemisfério sul , onde fica situado o país em que nascemos , recebe , portanto , nesta época do ano , mais sol do que o hemisfério norte . Agora , passei a lembrar-me de laranjas e de velas , (e de velhas ) , que entram nos exemplos das professoras primárias , sobre a translação da Terra ao redor do Sol . Mas , chega ! Quem quiser conhecer melhor o novo assunto surgido , embora relacionado , que consulte os livros de Geografia , ou de Astronomia , que se confundem nos de Geografia Astronômica , ou seja , nos livros cosmográficos ... Lá estou eu caindo em outro desvio : pastores ; agricultores ; caldeus e egípcios ; chineses e hindus ; astrologia ; Babilônia ; Tales de Mileto ; Hiparco ; Ptolomeu ; Nicolau Cópernico ; Brahe ; Bruno ; Kepler ; Galileu Galilei ; Isaac Newton ; Halley ; Herschel , etc , etc.
Deixei-me cair num espelho , no labirinto das associações , mentais , tal como Alice de Lewis Carrol,quando entra no país das maravilhas . (“- Meu deus , meu Deus ,como é tarde !” , disse um coelho a si próprio) . Ou o poço era muito fundo, ou Alice caiu muito lentamente , porque na sua descida ela teve tempo de olhar em redor e ver olhar em redor e ver o que ia se passando . A princípio, eu também olhava para baixo, e distinguia pouca coisa. Depois, olhei em torno de mim e vi que, de ambos os lados , havia muitos armários e estantes de livros, que tinham de ser conquistados. Mas não devo fugir do assunto a que livremente me propus: tenho que falar de uma tarde em que o sol domina o céu e seus raios, gerados pela luta dialética de seus átomos, rompendo as nuvens, iluminam a erótica cidade.
O que escrever ? Bem, vou falar do que vejo. Mas posso falar do que vejo, logo mais, à noitinha, ou amanhã, com chuvisco, se continuar sentado aqui. Porém, sentirei, hoje, e retransmitirei o que vejo ao redor da estante, ou o que aprecio quando vou até à janela da frente, da mesma forma que amanhã? (Sou um mediador não mecanicista). Paro um pouco para refletir.
Retiro os óculos de aros finos dourados e lentes verdes-claras, de cima do termômetro, onde ele fica situado, em frente a um lote de nove livros que versam sobre psicanálise, sociologia e relatividade, e consulto a temperatura. Trinta e um graus centígrados, ou seja, aproximadamente 88º Fahrenheit. Fahrenheit preocupou-se, em 1714, em construir um termômetro de mercúrio, com uma nova tabela de medição do calor. ‘‘ Fahrenheit 451 ’’ é um bom filme de François Truffaut que assisti ano passado. Truffaut, através de ficção cientifica, satiriza o terror cultural existente em muitos países. Expiro forte: a fumaça que sai de meus pulmões, rápida se dispersa no espaço. Levemente um braço corta o ar, em seu avanço: bato cinzas para uma nova tragada. Estou em meu quarto. O relógio marca dezessete horas e cinco minutos. Em cima de minha cama, forrada com uma colcha rósea, estão dois livros. Um de Garaudy, sobre a China, e outro de A. Sánchez Vasquez, a respeito da estética marxista. Ao meu lado, uma caneta Parker – 51, que comprei há pouco tempo. Agora, coço a beirada de um olho, e chego a arrancar uma pestana. Estou um pouco suado. A camisa quadriculada, amarela e preta, em estilo escocês, está úmida. A bermuda que visto é azul e rota, tendo na bainha direita, sua costura despregando-se. As unhas dos pés estão ficando grandes. Não; não! É preciso descrever melhor esta tarde.
2- Dos meus poros, em leves golfadas, escorre o suor, que desliza pelo corpo. Da janela, o espetáculo que a tarde ensolarada nos apresenta, não pode ser qualificado num simples termo. Desejaria estar numa praia; correndo sobre a areia, com os cabelos esvoaçados pela brisa; vendo distante a cidadezinha de Salinas, á beira-mar ; e ouvindo os ruídos angustiantes do mar , este rebelde Prometeu aquoso , sem destino e louco , que há séculos contorce-se , vomitando vida , e partindo-se em espumas, contra as rochas e o infinito.
Abro a porta do quarto que dá para o pátio .Vou até à sacada . O brilho intenso dos últimos raios de sol ferem meus olhos , gerando manchas multicolores , como conseqüência desta inter-relação, e que saem não sei de que regiões niilizantes , difusas e vagas , mas que ficam bruxuleando no ar, estéreis e sem nexo, obscurecendo a visão do novo edifício, quase pronto, que foi erguido na zona comercial, pelo trabalho e suor de alguns homens, em outras tardes de sol. Ele surge na minha mente, depois de formado, ponto por ponto, pelos meus órgãos especializados, aproximadamente no mesmo ângulo das velhas telhas da sinagoga do bairro da Campina. Mais abaixo, numa combinação de vidraças brancas e azuis, o símbolo de Israel destaca-se do cimento alvo, onde situa-se, isto é, da parede dos fundos. É por esta redonda brecha vítrea que a luz jorra no templo... Cinqüenta séculos de civilização. Povos do Oriente; gregos, troianos e romanos; bárbaros, bizantinos e árabes; povos da América pré-colombiana... Isto sem falar que, há muito mais tempo, já pintávamos nas grutas pré-históricas: em Lascaux , em Altamira e em outras regiões.
O mamoeiro no quintal do vizinho, as palmeiras, que aparecem pelo esforço de minha imaginação, que quer destacá-las dos outros objetos, juntamente com as ervas daninhas que florescem nas beiradas de todos os telhados, num flagrante desprezo às construções dos homens, estão aparentemente estáticas, devido à calma repentina do vento, e também pela falha da distância que os contempla. Paredes carcomidas pela indiferença do tempo, de antigos casarões com suas estórias já esquecidas. Muros toldados de lodo, feito pelas chuvas de inverno: transformações químicas, onde vidas primitivas, sem justificação, começam a vicejar. Nas árvores, aranhas tecem teias, ou procuram eliminar os machos que as fecundaram. Abelhas recolhem-se às colmeias, e os morcegos já se assanham nos forros abafados.
O sol, descendo mais um pouco, foi parcialmente obscurecido por uma grande nuvem cinza. Dos vasos de plantas, que agem contra o ladrilho vermelho, as folhas das samambaias e dos tajás lançam em correntes no ar, os seus perfumes característicos. Minhas narinas os aspiram e meu cérebro os distinguem. O céu é cortado por um bando de andorinhas, que ora bamboleiam, ora agem como autênticos planadores, emitindo os seus gorjeios, que me perturbam os tímpanos, e extasiam-me. Os sinos da igreja próxima salpicam acordes. Na praça, moças desfilam para os rapazes que fazem ponto nas esquinas. Elas mostram sua juventude. Crianças brincam, correndo e rolando na grama, ou passeiam em seus carrinhos. Elas estão aprendendo a serem adultas, a dirigirem . Num poste, um cachorro urina . Os carros deslizam , rápidos , no asfalto . Os ônibus deslocam alguns operários para os subúrbios . Aí vão os construtores dos edifícios . Eles retornam aos seus casebres , após um dia de luta ... Pretendem vencer na vida ?!
Da janela da frente , diviso os arcabouços dos novos prédios que estão sendo construídos , nas avenidas centrais , por ordem dos homens que têm dinheiro , emparelhando-se com os já prontos . Eles podem ser arrasados pelas bombas . Que interesse tem de se dizer que este, mais largo , é recoberto de pastilhas verdes ? Duas vizinhas conversam . Uma rajada de vento bate-me no rosto e levanta meus cabelos , entre os quais é feito um pequeno caminho , como acontece nos arrozais ... Rajadas de vento ! Ah ! , os outros povos ... Aquele edifício é o mais alto da cidade . Uma poderosa antena de televisão foi erguida em cima dele . Ela traz-me notícias de terras e de fatos distantes , como o Vietnã.
A cidade , tal como uma concha , está sendo fecundada pelo sol . São quase seis horas . Ela treme : o momento do gozo se aproxima . Logo mais virá a brandura do crepúsculo . E , depois , a noite vai descer com prenúncios de sono . Mas, agora , seus edifícios , encharcados pela luz , apontam para o alto , em vergastadas no tempo cósmico . E eu percebo os gemidos efêmeros da dilatação de suas estruturas: é a contradição no âmago da natureza, numa harmonia em que se confundem os seus sons com os da civilização.

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