5/26/2007

Mais um conto de Luiz Lima Barreiros (8)



AFOGADO EM TERRA, NA BEIRA DO CAIS


Ruas estreitas. Casarões sombrios. Chuva fria. Lampiões acesos; luzes sem viço. Passos rápidos, nervosos, com paradas esquivas. Gestos apreensivos. Vez por outra, o cigarro mata-rato vai à boca, seu único amigo. A fumaça cancerígena e aconchegante é devolvida, e se espraia na atmosfera lúgubre. Três horas de caminhadas esmas; e quase duas carteiras tragadas. Persiste. Sujeito à toa, andando ao léu: gente à toa; cidade à toa; clima à toa. A mão no bolso aperta, com mais enfâse, um canivete afiado. Consciência de ser escória.
Ligeira hesitação, ao aproximar-se da esquina. Alerta, ao dobrá-la, bravo escoteiro! Acha que nada de importância poderá acontecer em sua vida mesquinha. Ânsia. Até desejaria que aparecesse um louco das trevas. Um monstro. Desses que se pode ver nas estórias, cujo ambiente é o nevoeiro londrino. Nestas brumas e nestas névoas. Frankenstein. Jack, o Estripador. Ou um mapinguari amazônico. Polvos, com enormes tentáculos, povoam a sua mente.
Transtorno. O poste mais perto distancia-se. A solidão aumenta. A luz diáfana diminui. Retorna ao que foi. Na língua, um sabor ácido de rum barato, depois de talagadas de tiquira. Idéias negras. Viscosidade. As pedras da rua vão sendo calçadas pelos seus pés, que querem grudar. Ser pedra. Uma parada para dar uma mijada. Blusa listrada, puída e molhada; calça úmida e suja, com cheiro de urina. Para onde ir? Onde veio parar? Em tempos que já vão longe, sua situação era melhor. Sua. Arapurus e tamuatás de Santarém. Não pensar. Impossível. Arapucas. Retornos à infância. Depois, Ana, a puta. Passarinhos chilreiam: tem-se que pegá-los, de mansinho. Pipilar. Assobia. Ser estátua. Passa da meia-noite. Tafofobia.
Teias de aranhas peludas gotejam do teto. Antenas trêmulas de baratas fedorentas captando restos de comida. Urubus ciscando nos monturos de lixo. Cães copulando na rua, em plena praça, ao lado da igreja. Um velho careca narigudo rindo, pondo à mostra cacos de dentes podres. As garras vêm do além! Harém. Amém! A bunda da velha matusalém gingava também. Tão bem! Só o suspiro do porco no charco se mantém. Pegar o trem, e vir à Belém!
Distúrbios afásicos. Já não mais falacioso, e com o falo impotente. Afemia. Monólogos desconexos. Inesperado desequilíbrio: o chão está liso. Lodo. Dinheiro. Bactérias vicejam. Mofo. Céu fechado. Vácuo. Ausência de perspectivas. Retrospectivas. Fuzuês de futurições. Olhar vago do pobre diabo, buscando o fim do infinito. Vagueia para o alto e para baixo, e para o lado, mais compassado. Corrosão. O estômago ronca de leve. Os ácidos gástricos corroem o parco alimento para a produção de dejetos. A fonte de vida dos saprófagos. Bosta fétida. Surreais vermes alados vampirizam as feridas de seu corpo.
Na orla marítima da vida, vai-se o sabor das ondas que refluem, Galpões (Mosqueiro e Soure) com as carcaças enferrujadas. Área interditada. Sempre, sempre isto. Alcança-a, para tirar um cochilo. A garrafa espatifada na sarjeta. Último gesto de revolta. Coaxar dos sapos. Aplausos. Os ferros é que iriam tragá-lo. Aviso não lido: “Atenção! Perigo!”. De madrugada, com o temporal, o desabamento. De manhã, uma lança na garganta. Tétano? Fraturas. Sangue coagulado. Em outras partes do corpo, equimoses. Almas piedosas acendem velas. Fim de uma existência, sempre em um caixão formal. Um dia de desventuras do tunante esquizóide urbano. No bolso, um bilhete, num saco plástico: “Depois de muitas aventuras, me joguei no mar. Assinado: D.H.”

(Este conto obteve o 1º. Lugar, no Concurso Nacional de Contos, da Revista “Literatura”, Revista do Escritor Brasileiro, de Brasília – DF, em junho de 1995)

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