9/05/2007


Para vice, divisão do Pará é inevitável

O vice-governador do Pará, Odair Corrêa, é um homem disposto a comprar briga quando se trata de defender suas idéias políticas e a população do oeste do Estado. Exposto à metralhadora verbal de adversários, ele tem protagonizado nos últimos dias alguns episódios que fariam qualquer político imaturo tremer nas bases diante da pressão feroz dos críticos. Primeiro, viajou para Manaus (AM), onde debateu com políticos e empresários locais a divisão do Pará. Foi defender a criação do Estado do Tapajós, idéia que alimenta há 23 anos.
O mundo caiu na cabeça dele. 'Por que ele não foi lá defender a divisão do Amazonas, que é muito maior do que o Pará?', bradaram vozes iradas de seus novos desafetos políticos. Na Câmara Municipal de Belém, vereadores desceram das tamancas para costurar um título de persona non grata para Corrêa e querem ainda, por tabela, cassar uma comenda que lhe foi concedida, o Brazão D’Armas. Não faltou, por fim, quem o chamasse de traidor, sugerindo a perda do cargo de vice.
Calmo, medindo as palavras, mas sem medo de expor seu pensamento, o vice encara as críticas com naturalidade. Diz falar com conhecimento de causa. Acredita que seus adversários são movidos pelo desconhecimento dos fatos e pelo sentimentalismo ao atacá-lo. E avisa: não teme cara feia nem arreganho de ninguém. Aprendeu com outros nove irmãos a superar as adversidades da vida. O menino pobre, nascido e criado em Santarém, se diz pronto para enfrentar incompreensões e desafios.
Nesta entrevista ao repórter Carlos Mendes, de O Liberal, o vice explica que está 'acompanhando o bonde da história' ao defender a emancipação política do oeste paraense. Não pretende se expor ou correr o risco de alguém querer tirá-lo do cargo. 'Defendo a realização do plebiscito sobre o criação do Estado do Tapajós. Depois, é outra história', limita-se a dizer.
'O que eu não posso, como vice, depois de ter jurado manter a integridade do território paraense, é convocar as pessoas e tomar procedimentos para a divisão do Pará. Jamais farei isso', sustenta Corrêa. Na entrevista, não foge das perguntas sobre a divisão do Estado. Aponta motivos, destila argumentos favoráveis e vislumbra benefícios sociais.
O senhor tem se posicionado claramente a favor da criação do Estado do Tapajós. Mas seus adversários políticos afirmam que isso contraria o juramento feito ao assumir o cargo, juntamente com a governadora Ana Júlia, de defender a integridade do território paraense. Como o senhor reage diante dos críticos, que chegam a chamá-lo de traidor?
A questão que está sendo tratada é a da emancipação regional. Não estamos em estado beligerante, pegando no fuzil e na metralhadora para dizer que é separatismo. Os que usam a expressão separatismo se apóiam num termo forte para contradizer o procedimento da emancipação. Outra coisa: a emancipação regional do Tapajós é apenas uma das outras 15 em todo o País cujos projetos tramitam no Congresso Nacional. Ela trata de uma ação de plebiscito, que é democrático, baseada no artigo 18, parágrafo 3º da Constituição Federal, combinado com o artigo 12 e também com o artigo 49, da competência do Congresso. Estivemos por lá, trabalhando nos últimos 23 anos, defendendo a emancipação mista do Tapajós. Então, nós estamos há 23 anos fazendo a história, e não começando isso agora, como querem dar a entender.
Tem gente imaginando que o senhor pegou essa bandeira agora, de uns tempos para cá...
Nada disso, são 23 anos. Estamos apenas acompanhando o bonde da história. Na época do Império, o Tapajós era uma província, isso há mais de 150 anos. Por ser um democrata e ter sido eleito pelo voto, assumindo o governo do Estado na condição de vice, tenho uma posição tranqüila de defender a realização do plebiscito. E mais: não vejo razão para tanta tempestade em copo d’água. A Constituição Federal, que é legítima, estabelece o plebiscito para resolver ou não a criação de novos estados. Toda a população do Pará vai opinar a esse respeito.
Realizado o plebiscito e se ele for favorável à divisão do Pará, qual será a sua posição, mesmo ocupando o cargo de vice?
Eu não posso, com base na Constituição do meu Estado e na promessa que fiz no juramento de posse de manter a integridade territorial do Pará, chegar aqui e dizer: 'Olha, vamos tomar os procedimentos para a divisão do Pará'. Eu não farei isso. Não é por aí. Mas, com relação ao plebiscito, sim, defendo que deva ser realizado. Depois disso é uma outra história. Não se sabe quanto tempo isso (plebiscito) vai levar. Mesmo que o plebiscito fosse hoje eu não poderia me manifestar pela divisão do Estado. Sou o vice-governador e tenho respeito pelo meu Estado.
Outra questão levantada pelos opositores da divisão é a de que a idéia é defendida por parlamentares que nasceram em outros estados, mas que vivem no Pará e aqui se elegeram com os votos dos paraenses.
É bom que se diga: sou paraense nato. Meu pai nasceu em Breves, eu nasci em Santarém. Então, sou santareno, portanto, paraense. O que não posso fazer é desconhecer a minha história. Acredito muito nessa possibilidade, de estarmos juntos, mesmo que a separação ocorra mais tarde. Aposto numa reciprocidade entre irmãos fraternos, enquanto paraenses que somos.
O que seus conterrâneos da região oeste pensam disso? Não seriam criados antagonismos por conta da divisão?
Os que movimentam o projeto de criação do Tapajós em Brasília e o pessoal lá de Santarém entendem que não surgirá um fosso entre Pará e Tapajós, caso o novo Estado seja criado. Pelo contrário: à medida que se instalar um Estado com essa envergadura na região, que se criar 90 mil empregos diretos, com certeza a região precisará de muito técnico que hoje anda chutando lata em Belém. Essa mão-de-obra vai trabalhar conosco lá na região.
A tese contrária à divisão alega que a União teria grandes despesas para implantar o novo Estado, montando órgãos públicos. Qual a sua opinião a esse respeito?
Os que falam isso deveriam sair da retórica e mostrar o lado prático dessa idéia. Eles deveriam focar as coisas, por exemplo, na presença do Estado na região. Se fizessem isso seria uma beleza. O problema é que hoje temos uma região como a do oeste do Pará, de onde foram acossados para fora do Estado 480 mil habitantes em busca de melhores meios de vida no Amazonas, em Manaus. E nem todos tiveram a mesma chance. Há muitos paraenses em Manaus e isso traz um peso significativo no orçamento do Amazonas.
Se o Estado do Tapajós for criado, esses paraenses que foram para Manaus retornariam aos municípios de origem?
Queremos trazer essa população de volta. Há muitas pessoas que hoje estão inchando a periferia de Manaus e os presídios. Por que há discriminação do Amazonas com o Pará? Porque há paraenses que, segundo eles, estão tirando os empregos dos amazonenses e praticando crimes. Por outro lado, há muita gente competente que saiu do Pará e foi para Manaus tentar melhor sorte. Há pessoas daqui em boas posições lá no Amazonas. Respondendo à pergunta sobre gastos excessivos da União com a criação de um novo Estado, digo que isso não passa de ledo engano. É um desconhecimento total da realidade. Na época em que estive lá no comitê da Frente Popular pelo Estado do Tapajós fizemos vários levantamentos técnicos e científicos a respeito. Depois de fazer esses levantamentos estivemos em Belém, na Assembléia Legislativa, que também fez um levantamento técnico sobre o assunto. Esse levantamento era favorável à criação do Tapajós, embora os deputados tenham votado contra. Também mandamos buscar técnicos no Rio de Janeiro, treinados na Fundação Getúlio Vargas, para que não dissessem depois que estávamos querendo puxar a brasa para a nossa sardinha.
Que argumentos consistentes pesariam favoravelmente, na sua opinião, ao Estado do Tapajós?
No oeste do Pará, somos um PIB (Produto Interno Bruto) de R$ 6,5 bilhões. Isto aí é muito pano para manga. Com a emancipação territorial do Tapajós, ao invés de o remanescente Pará, que é nosso irmão, sair perdendo, irá sair ganhando. Vou dar um exemplo: se há uma transferência federal, hoje, da ordem de R$ 1,8 bilhão para o Estado do Pará e ele repassa R$ 300 milhões ao ano para a região, quando da criação de um novo Estado e com a reformulação das estruturas orçamentárias do País, o Tapajós receberá R$ 1,1 bilhão. Isto somado a R$ 1,5 bilhão do Pará, a região sairá ganhando como um todo.
Se é tão simples assim, por que há tantas vozes contrárias à divisão? Seria por desinformação ou ignorância?
No oeste, o projeto não é tratado com sentimentalismo. Esse mesmo sentimentalismo também foi demonstrado quando houve a divisão territorial da província do Amazonas, que era a do Rio Negro. Foram as mesmas reclamações que se ouvem hoje. A história de 150 anos atrás se repete. Naquela época se diziam as mesmas coisas, que estavam querendo dividir a pobreza, criar mais despesas. As experiências emancipacionistas do Brasil inteiro não podem ser ignoradas. Veja o bom exemplo da criação do Estado do Tocantins. A população melhorou de vida. O PIB é de mais de R$ 2 bilhões. A experiência do Mato Grosso do Sul, que inspira o Tapajós, é outra história de sucesso. No começo, eram apenas R$ 4,5 bilhões de dólares. Hoje, a somatória dos dois estados, do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso, dá mais de R$ 50 bilhões. Isto significa dizer que há ganhos no desenvolvimento regional com novos estados no País.
Na Câmara Municipal de Belém, alguns vereadores o consideram persona non grata e querem cassar a comenda do Brazão D’Armas, que já lhe foi entregue. Eles fazem isso sem conhecer o assunto que debatem, a divisão do Pará, ou porque estariam movidos pelo sentimentalismo?
Não sei definir exatamente o que está movendo essas pessoas. Sou novato em Belém. Estou aqui há apenas sete ou oito meses, efetivamente. Tive uma campanha eleitoral muito forte e em função dessa campanha chegamos ao poder. Na campanha passada, um vereador propôs campanha de repúdio aos maus paraenses que queriam criar o Tapajós. Aí, alguns maus paraenses vieram de lá para explicar na Câmara Municipal de Belém. No final, esses maus paraenses conseguiram uma votação favorável de 19 a 2, a favor não da moção de repúdio, mas a uma moção de apoio ao plebiscito, que seria enviada à Câmara Federal. A questão é o conhecimento de causa e porque se pleiteia isto. Como a história nos diz que mais cedo ou mais tarde isto (a divisão do Estado) vai acontecer, eu não tenho muita preocupação.
O senhor defende a emancipação do oeste, mas a governadora Ana Júlia é contra. Isto não cria um conflito de idéias entre o senhor e ela capaz de criar problemas no futuro?
A governadora tem uma posição democrática e também respeita a questão plebiscitária. Ela só gostaria que o plebiscito não ocorresse agora. Não há nenhum conflito ou contradição entre eu e a governadora. Há, sim, um respeito mútuo. Se o plebiscito vier agora, nós sabemos que teremos de nos manter como juizes e não como pessoas interessadas em defender esta ou aquela posição. O Pará todo terá de ser ouvido e eu não tenho nenhum problema com relação a isso.
Há espíritos armados de paixão na discussão pró e contra a divisão do território paraense...
Nenhuma pessoa sensata deseja um estado de beligerância nessa discussão. Nós não estamos mais na Cabanagem. Vivemos uma época de debate de idéias e de fazer fluir procedimentos de políticas públicas que possam atingir as demandas sociais deste povo, principalmente da Amazônia. E, com muita ênfase, a soberania nacional em relação à Amazônia.



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■ Entrevista concedida ao jornalista Carlos Mendes, publicada no jornal O Liberal, edição do último domingo (02.09.2007) .

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