1/17/2009

"Belém das Mangueiras” de Pires Cavalcante



No dia 12 de janeiro, a nossa linda cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará completou 393 anos de fundação. Ah, tinha tanta coisa para falar desta bela morena que me viu nascer a 60 anos. Fui planejado, concebido e “fabricado” na Vila do Pinheiro, contudo, nasci no Hospital da Ordem Terceira, no centro da cidade.

Mas esse texto não é para me promover. E sim para promover um camarada muito bacana que conheço há mais de quarenta anos.

Chama-se Francisco Pires Cavalcante.

Cabra da Peste - Pires Cavalcante nasceu em São José das Piranhas, sertão da Paraíba. Desde cedo “teve queda” para música tocando requinta – uma espécie de clarinete pequeno - e sempre gostou da Marinha de Guerra do Brasil. Tanto gostou que os seus pais o enviaram para o Rio de Janeiro para casa de parentes, com um só objetivo: entrar para a Banda de Música da Armada.
Um belo dia um parente o levou ao Ministério da Marinha. Apresentado ao chefe da Banda, ele colocou um monte de dificuldades; mas... para que o Pires e o seu acompanhante não perdessem a viagem, solicitou que comparecessem num determinado dia quando haveria teste para jovens músicos que gostariam de ingressar na Marinha, como militar-músico.
Pires Cavalcante compareceu levando a sua requinta. O teste foi feito pelo regente da Banda de Música dos Fuzileiros Navais e professores da Escola Nacional de Música. Como era 18 de novembro e no outro dia comemorava-se o Dia da Bandeira, o garoto tocou o Hino a Bandeira sem errar uma só nota e um só compasso. Foi aprovado em 1º lugar e indicado para o engajamento.
Pires Cavalcante estudou música um ano. Nos exames finais conseguiu o 2º lugar com a nota 9,1 A partir daí fez exames para o Corpo de Fuzileiros Navais (Ilha das Cobras, perto do Ministério da Marinha, na zona portuária do Rio) sendo guindado para o posto de cabo-músico.
Fuzileiro - Pires esteve por 12 anos na Marinha. Participou da 2ª Guerra Mundial, servindo no Cruzador Barroso, guarnecendo as áreas próximas do litoral do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Ele ajudou a abater vários submarinos alemães “que volta a meia apareciam afundando os nossos navios”.
Além disso, rodou o mundo. Visitou 29 paises a bordo do navio-escola Almirante Saldanha, um dos mais belos veleiros que o Brasil possuíu e que, posteriormente, foi vendido para Portugal. Ele passou um ano e 23 dias embarcado.
Já em terra sofreu um acidente. Com isso foi reformado ainda jovem, com 22 anos, pelo ex-presidente Café Filho no posto de 1º Tenente.
Amor e vida - Belém do Pará se constituiu num porto seguro para Pires Cavalcante.
Embarcado esteve por mais uma vez em nossa cidade. Reformado, aos 25 anos, resolveu mudar de mala e cuia para Belém.
Numa tarde "dando umas voltas" pelo bairro do Telegrafo sem Fio – na condição de músico e compositor – e passeando na Travessa Djalma Dutra, entre as avenidas Senador Lemos e Rua Curuçá encontrou-se com uma bela paraense - Maria de Nazaré Rodrigues - que morava no perímetro.
Foi amor à primeira vista.
A moça estava compromissada; todavia, de tanto Pires Cavalcante insistir e cortejá-la, ela acabou deixando o namorado e aceitando o nosso herói.
Foram dois anos e meio de namoro. Concluído esse período veio o casamento (civil e religioso).
A união já dura quase 48 anos, e teve como fruto cinco filhos: Sinézio, o primogênito que faleceu ainda menino; Antônio (Toni), que é Capitão da Polícia Militar do Estado; Francisco Jr (Frank), que trabalha em computação e é químico – concluindo mestrado em São Paulo; Crácio, representante comercial no setor de medicamentos; Alan, médico, especializado em Radiologia, além de Bruna Cristina, filha adotiva, futura advogada,- seu orgulho-maior.
Conterrâneo - Por que resolvi homenagear neste espaço virtual, Francisco Pires Cavalcante? Porque este cidadão, com 85 anos, há 60 vive em Belém. Ele é mais viva personificação do adágio popular que diz: "quem vai ao Pará, parou. Bebeu açaí ficou, namorou, casou".
Pires Cavalcante como um excelente compositor e “naval”, poderia ter escolhido qualquer outra cidade para viver, Rio São Paulo, Salvador - na época, 1948, grandes centros da música popular – mas preferiu vir, ficar, viver em nossa cidade, com a nossa gente.
Desde que chegou resolveu adotar um clube: o nosso glorioso Paysandu Sport Clube. Tanto que anos mais tarde criou um hino.
Sim. O hino oficial do “Campeão dos Campeões” (Uma listra branca, outra listra azul....) é de autoria do Pires.
Pires Cavalcante ama tanto a sua Nazaré que tão logo a conheceu dedicou-lhe um samba, que não apenas a homenageia, como também exalta a cidade da amada.
Dêem uma olhada:

Túneis de Mangueiras

Não posso mais guardar
Dentro do peito
Eu creio que me assiste
Esse direito.
Eu quero exaltar a minha cidade
Não é vaidade
Quem fala é o meu coração.
Beleza encontrou o sue lugar
Tristeza não achou onde morar:
Eu canto esses versos que eu fiz
Dizendo que em Belém
Eu sou feliz;
Seus túneis de mangueiras
Amenizam o calor
São sombras tão amigas
Nas horas felizes do amor
Morenas bronzeadas
Passando nas calçadas
É só na minha Belém que tem!

Não precisar dizer que Nazaré gamou, se emociona até hoje e sabe de cor; tanto que ajudou o repórter a lembrar-se da letra.
Essa música foi gravada na RCA Victor pelo cantor Alcides Gerardes e lançada em maio de 1958 no Teatro Variedades - que funcionava no antigo Largo de Nazaré, atual Praça Justo Chermont, onde hoje se ergue o imponente Edifício Rainha Esther.
Além dessa música, Pires escreveu Deusa do Violino, um samba-canção, também dedicado â sua mulher, - a sua Deusa -, e inúmeras outras promovendo o amor e a sua Belém.
Homenagem - Em 1965, por ocasião dos festejos dos 350 anos de Belém, Pires Cavalcante homenageou a nossa cidade com a marcha-rancho, que fez o maior sucesso na época:

Parabéns Belém

Minha cidade está em festas.
Meus parabéns Belém.
Felicidades mil
Sou seresteiro e vou fazer seresta
Pra reviver os tempos idos deste meu Brasil
Minha canção é portadora
Desta mensagem.
A singela homenagem que escrevi.
Minha cidade hoje é detentora
De beleza sedutora
Como igual eu nunca vi.
Quem vem aqui a Belém
Vê a beleza que tem,
Quando vai leva saudade
Desta cidade fagueira
350 anos não existem desenganos
Nesta gente altaneira,
Quem quiser saber se é verdade
Tudo que a minha canção diz
Veja em cada praça,
No dia a dia que passa,
A criançada feliz.

Essa música foi gravada por Dalva de Oliveira (Discos Odeon) que naqueles tempos era uma das maiores cantoras brasileiras. Inclusive ela veio aqui em Belém lançar o disco, - um compacto simples.
Icoaraci - Em 1969 Pires Cavalcante escreveu o Hino do Iº Centenário de Icoaraci, que foi elogiadíssimo pelo médico e ex-deputado federal Stélio de Mendonça Maroja, Prefeito de Belém e pelo engenheiro rodoviário Evandro Simões Bonna, agente distrital de Icoaraci.
Francisco Pires Cavalcante, juntamente com Afonso Monteiro, Antonino Rocha, Clodomir Colino e Ossian Brito, criou em Maracacuéra, nos anos 60, a Empresa de Águas Nossa Senhora de Nazaré, posteriormente vendida ao empresário Nelson Souza e, logo em seguida para o Grupo J. Pessoa de Queiroz (Indaiá), de Fortaleza.
Pires Cavalcante teve outros negócios.
O último foi a Agência 13 de Automóveis (Travessa Benjamin Constant, 1069, entre Travessa Boaventura da Silva e a Avenida Governador José Malcher).
Francisco Pires Cavalcante morou por muitos anos em Icoaraci, numa bela casa na Travessa Souza Franco, 50. Depois se transferiu para Belém onde reside com a sua Nazaré, numa bela casa na Avenida Gentil Bittencourt, entre a travessa 14 de Março e a Avenida Alcindo Cacela, vendendo saúde.
Avesso à fotografia, não se deixou fotografar. Pediu apenas que para ilustrar a matéria eu providenciasse mangueiras, túnel de mangueiras.
Seu pedido não pôde ser atendido.
Com a cumplicidade da Bruna, consegui uma foto do Pires – essa aí que os senhores estão vendo.
Essa é a forma que encontrei de homenagear a minha cidade; a cidade que Pires Cavalcante adotou definitivamente – a nossa Belém, pelo transcurso do seu aniversário.
Obrigado Pires Cavalcante.
Parabéns, Belém!

Um comentário:

Ronaldo Moreira Melo disse...

Poxa, essa música lembra a minha já distante infância. Gostaria de saber se existe por aí alguma gravação dela.
Ficaria muito feliz em poder escutá-la novamente.