8/21/2009


Fim de reportagem

O rio rugia e arremetia contra o muro de arrimo, salpicando água longe. O trapiche lembrava o dorso negro de uma sucuri imensa. Podíamos ver o rio se contorcendo como o mar em fúria nas manhãs de ressaca em Copacabana.
- Não parece um rio – disse-me Mara. Nas manhãs quentes, seus olhos eram azuis. À medida que a tarde navegava, iam-se tornando verdes e quando os flocos da noite se acamavam nas nossas almas, eram duas esmeraldas. Ela tinha sabor de Mateus Rosé e qualquer coisa espanhola. Estava nua. Sua nudez flutuava, desfocada, naquele momento entre a tarde e a noite com sabor de tacacá na banca do Colégio Nazaré, em Belém do Pará. Estávamos em um quarto do Hotel Macapá vendo o rio Amazonas. – O que vamos jantar? – Mara me perguntou. Almoçáramos no Café Aymoré. Pirarucu ao molho de castanha-do-pará.
- Cerpinha – respondi-lhe, absorto no abstracionismo das nuvens, o fogo a extinguir-se, mas ainda lembrando uma tela de Olivar Cunha. – Vamos jantar no quarto? Podemos pedir cogumelos e ostras e comê-los com vinho. – E antes que ela replicasse que talvez não houvesse ostra, disse-lhe que poderíamos pedir filhote ao tucupi.
- Tu achas que o bigode vai se safar dessa? – ela perguntou, com aquele seu sotaque belenense delicioso.
- O bigode ainda continuará dando as cartas, mas agora todo mundo já sabe que ele é o maior mafioso do país, e que seu lugar verdadeiro é o esgoto – eu disse. – Quanto ao nove dedos e o cangaceiro furibundo, e seu conterrâneo, continuarão enganando a massa ignara. Ocorre que o Estado não é apenas a massa e o governo, é muito mais complexo. Não vês o caso do ladrão bolivariano? Logo, logo até os cachorros venezuelanos vão perceber que o patife está apenas assaltando o país.
- Puxa, se eu soubesse que tu ficas tão indignado com o que está acontecendo eu nem teria falado no bigode – ela disse.
Concluíramos uma senhora investigação sobre as atividades do bigode que integraria uma extensa reportagem com a folha corrida do chefão da máfia, e Mara era minha fotógrafa predileta. Aquela seria a última noite que passaríamos na cidade. No dia seguinte, voltaríamos a Belém. A noite de Macapá é sempre inesquecível, como os gemidos de Mara, notas de um concerto de Debussy que voam alguns segundos e se desfazem no ar. Pensei: se eu fosse poeta, como Isnard Lima Filho, eu daria rosas para a madrugada. Mara já dormia. Sua nudez maravilhosa flutuava na penumbra. Levantei-me, fui ao banheiro e me vesti. Desci e procurei o quiosque onde estivéramos mais cedo, pedi uma Cerpinha e comecei a compor, mentalmente, a abertura do meu texto.

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