12/30/2011

RA\Y CINHA






A Carta




Não me lembrava mais do conto A carta, que devo ter escrito nos anos 1970, em Belém do Pará, e nem tinha cópia dele. Lendo-o, agora, no blog do Fernando Canto, recordo-o inteiramente. Fiquei feliz com a garimpagem e lembrança do caro querido Fernando Canto. Assim, publico A carta com alguns arremates, que qualquer autor faria num original que passou décadas esquecido, como uma pedra preciosa à espera de ser engastada em um anel, ou num colar. Trata-se de uma história ambientada em Manaus, e talvez a personagem feminina central tenha sido criada a partir de uma das mulheres esplêndidas com quem tive a oportunidade de conviver naquela cidade maravilhosa. Acho que quando escrevi esta pequena história, pensei na ambientação psicológica típica de Katherine Mansfield, que dá a seus contos tanta intensidade e, ao mesmo tempo, leveza, só comparável ao anoitecer em Macapá, em agosto, um azul prenhe do que sentimos quando estamos amando uma mulher fugaz como as rosas.




Chegara sua vez. O absurdo estalava-lhe nas têmporas. Estava cabisbaixo. O outro permaneceu calado, até que Alexandre o olhou.
- Tu deverias primeiramente conversar com ela. O que não deves é tomar uma atitude precipitada.
Alexandre estava preso ao torpor da frustração. Sobre a mesa, a carta. Dizia num trecho: "Tu és sobretudo másculo. Tens os músculos nos lugares certos, para me mobilizar com força. Adoro aconchegar-me no teu regaço viril e uterino; sinto-me mais mulher no teu regaço voluptuoso. Quando o vi pela primeira vez meu coração pulsou descontroladamente. Isto é amor. Amor à primeira vista. Mais do que amor: é paixão".
Era a letra miúda e minuciosa de Carla. Sua letra, num crescendo, desnudava-a, entregava-a a seu amante, àquele homem ali descrito, detalhadamente, até os nervos. Era um homem invejável. Um cavalheiro; um homem de ação; jovem e velho ao mesmo tempo.
A princípio, Alexandre supôs tratar-se de um original de Carla. Mas, não. Sua mulher criava sempre em papel-xerox. Saíra, naquela manhã, às pressas. "Um encontro com o amante."
- Alexandre Acapu, trinta anos, nadador profissional e depois oceanógrafo, muito tempo passado no mar e pouco em casa, marido da escritora Carla Menescal de Adrianópolis, grande sucesso de vendas com o romance As Amarras, agora desatadas, é... – interrompeu-se ao ler a recriminação nos olhos do seu amigo, a quem chamava de Velho. - É passado para trás - disse, num desabafo.
- Não será um conto, uma crônica, um capítulo de romance? - Velho perguntou.
- Ou memórias?
- Perguntas-lhe o que é. Não ficas te lastimando e nem te deixas enganar pela paranoia. Vais para tua casa e falas com ela sem fazer escândalo. Se for mesmo um amante, urge saber se ela gosta do outro. Então só restará a separação. Este manuscrito sem destinatário não quer dizer nada. Por que ela o deixaria tão visível?
- Nunca entro na biblioteca, que é onde Carla escreve. Tenho meus livros e apetrechos num quarto no quintal.
- Uma mulher, quando trai um homem, age com muita cautela – disse Velho, triste com a desolação do amigo. - Já passei por isso. Sou marinheiro e também casado com uma escritora... - disse, confuso com a prostração de Alexandre.
- É, meu velho. Só que no teu caso ela te procurou e disse tudo. Tu aceitaste o jogo.
- Aceitei. A vida é um jogo, meu caro. A derrota é sabida, mas a vitória acontece durante o jogo...
O Sapo continuava bom como sempre. Louis Armstrong inundava o quarto, por onde flutuavam também cheiros de Carla. Carla, 1,67 metro, 48 quilos, um milhão de livro vendidos em três idiomas, 36 anos. Terás encontrado um homem de 21 anos de idade, que é quando eu tinha quando te conheci? Eu conquistara então o primeiro lugar na travessia do rio Negro, e tu, minha pequena Carla, publicaras teu primeiro livro de contos, É Meia-Noite e Eu em Torno de Ti na Cama. Causou sensação no Rio e em São Paulo. Agora, estou chamuscado pelas águas dos mares. Sim, água do mar pode chamuscar nossa alma. Acho que já não te levo como antigamente à loucura. Será por isso, minha Carla, que terás encontrado outro homem? Voltarei ao mar e lá ficarei.
Ouviu Carla chegando, e depois a viu entrando no quarto. Era linda. Tinha boca de cupido, carnuda, e olhos grandes e verdes, e cabelos negros e esvoaçantes, e sorria facilmente. Sorria com os lábios e com os olhos.
Fazia calor. Carla chegou ao meio do quarto e se desnudou de um só golpe. O vestido de seda branca, que tombou a seus pés, contrastava com a cor de canela da sua pele. Riu. Seu riso era mais um trinado. Avançou para ele, que estava sobre a cama empunhando o manuscrito.
-Ah! - exclamou, afastando a mão que empunhava o manuscrito. - É um conto que estou escrevendo. – E o beijou. - Está faltando papel-xerox. Vim da gravação da entrevista para a televisão. Estava atrasada. - Ia dizendo as coisas de uma vez e o beijava, imergindo naquele delírio de tarde calorenta.
O ar que o comprimia por dentro saiu de um jato, como o demônio que deixa a pessoa possuída, produzindo o alívio que advém ao perigo finalmente esmagado.

___________________♦♦♦ Ray Cunha, escritor e jornalista baseado em Brasília-DF,Brasil.

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