12/04/2011

RAY CUNHA



No mundo pós-moderno não há mais condições para estados como o Pará






Brasília, 3 de dezembro de 2011 – Todo o poder político emana do povo. Assim, serão os paraenses que determinarão, dia 11, se o Pará será ou não dividido em três. Mas eu, que sou paraense de Macapá, tenho minha opinião sobre isso. Os colonos portugueses dividiram o Brasil em dois: o Brasil, abarcando as regiões Sudeste, Nordeste menos o Maranhão, Sul e Centro-Oeste; e Grão Pará, abrangendo a Amazônia Clássica e o Maranhão. O Grão Pará foi dividido em Pará, Amazonas e Maranhão e, posteriormente, em Pará e Território Federal do Amapá (hoje, estado). É sua vocação.
Na Terra pós-moderna (a era da tecnologia de ponta) não há mais condições para impérios, territórios continentais. Os estados são cada vez mais enxutos. Os governadores do Pará não dão conta nem do quintal deles, quanto mais de uma área de 1.247.689,515 quilômetros quadrados, maior do que Angola, dividido em 144 municípios, entre os quais Altamira, com 159.695,938 quilômetros quadrados, o maior município do Brasil e o segundo do mundo, menor apenas do que Qaasuitsup, município gronelandês (da ilha dinamarquesa da Groelândia, na América do Norte, criado em 1 de janeiro de 2009). Se Altamira fosse um país, seria o nonagésimo primeiro mais extenso do mundo, maior que a Grécia ou o Nepal. Se fosse um estado brasileiro, seria o décimo sexto, maior que o Acre ou o Ceará. Em Altamira, vive-se na Idade Média.
Os moradores do estado do Amapá, desmembrado em 1943 do Pará, seriam hoje tribos meio brasileiras, meio francesas, pois procurariam trabalho na colônia francesa da Guiana, e Macapá, a capital, seria provavelmente uma cidade ribeirinha como as do vizinho arquipélago do Marajó, uma das regiões mais atrasadas (e belas) do Pará, no quintal de Belém.
Talvez os paraenses do que sobrará do Pará, em caso de aprovação da divisão, manifestem apenas o apego à ideia de ter nascido num verdadeiro país em área territorial, e os governadores estejam de olho, desde sempre, nas matérias-primas e nos impostos, e não pensem na situação dos caboclos, dos ribeirinhos e dos índios. Creio que os governadores do Pará deveriam ser obrigados por lei a viver pelo menos um mês na região mais inóspita do estado, antes de tomar posse, assim como o governador do Distrito Federal deveria andar de ônibus em toda a cidade-estado durante o mesmo tempo, e o presidente da República a passar uma semana em cada uma das quatro regiões mais miseráveis (porque atrasadas) do país, entre as quais o interior do Pará, campeão em escravidão.
Argumenta-se, em contrário à divisão do Pará, que os dois novos estados consumiriam, na sua criação, dezenas de bilhões de reais. Sobre esse quesito, analiso a questão com o mesmo ponto de vista que tenho sobre a Copa do Mundo de 2014. Diz-se que o dinheiro a ser investido no Mundial poderia, por exemplo, pôr a saúde pública nos trilhos. Dinheiro não é problema, na verdade. O Brasil tem condições de fazer uma Copa do Mundo por ano. Quanto à saúde, posta nos trilhos, voltaria a descarrilar. Sem a criação de novos estados e sem Copa do Mundo o governo federal de plantão jamais investiria em infraestrutura e urbanização nesse nível, pois, normalmente, esse dinheiro vai para o bolso de figurões carimbados, gordos como porcos, e tão criminosos como estupradores de crianças.
E esse negócio de dizer que vai aumentar a quantidade de bandidos de colarinho branco é um argumento também suíno, com meu pedido de desculpa aos porcos mesmo.
Se a questão é consertar o Brasil, basta que se faça uma revolução branca: a reforma política. Não aquela comandada pelo notório maranhense Zé Sarney (PTMDB), o que afogou o Senado da República na lama, o maior patrimonialista brasileiro desde Dom João VI (este, legítimo). A propósito, a culpa por Zé Sarney continuar agindo não é dos maranhenses, mas dos tucujus, os índios de Macapá, de quem o autor de Marimbondos de Fogo recebeu o cargo vitalício de senador. Na época, os cupinchas de Zé Sarney colocaram na cabeça dos tucujus que ter um ex-presidente da República como senador seria o mesmo que Dom João VI fugir de Napoleão diretamente para Macapá e dirigir pessoalmente a construção da Fortaleza de São José. A indiarada ficou babando. Agora, os que não levam nada babam, mas de raiva.
Voltando ao Pará, se o plebiscito definir o não à divisão, de qualquer modo as coisas não ficarão por isso mesmo. O governador de plantão terá que prestar mais atenção. Incompetências inacreditáveis como Ana Júlia Carepa, se conseguirem se eleger, não conseguirão aguentar quatro anos, e “quadros magníficos do PSDB”, como o pescador Simão Jatene, terão que enxugar sua adiposa corte.
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Escritor e jornalista baseado em Brasília-DF, Brasil

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