4/28/2007


PELO NEPOTISMO

Políticos de todos os matizes, no Pará, se unem em torno de Ana Júlia Carepa

Brasília – Nepotismo é uma forma sutil de desvio de dinheiro público, defendido com os mais surpreendentes argumentos por príncipes tupiniquins os mais diversos. Funciona da seguinte maneira: presidente da República, ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados, toda a cambada que pode arranjar emprego pago pelo povo para os seus só faltam empregar o cachorro da família. Os outros que se danem. Há casos de prefeitos que empenharam boa parte do orçamento do município para sua família. O que não quer dizer que os apaninguados tenham que trabalhar. Assim, há famílias que ficam ricas só com nepotismo. Esclareça-se: não é todo mundo que é nepotista.
Parlamentares estaduais do Pará estão em pé de guerra contra a revista Veja, porque, em edição desta semana, Veja afirma que Ana Júlia Carepa, governadora parauara, é arrematada nepotista. Segundo o jornal O Liberal, “os deputados criticaram a revista pelo tom pejorativo com que tratou a governadora, acusada de ter dado emprego a sete parentes”.
A petista Bernadete Ten Caten, aborrecidíssima com Veja, propôs nota de repúdio à revista; entende que Veja ofendeu “não só a governadora, mas as mulheres e a imagem do povo paraense”. Alessandro Novelino (PMDB) comentou que “a revista usou termos que não se usam com nenhuma mulher, ainda mais com uma governadora”. Arnaldo Jordy (PPS), Regina Barata (PT) e Joaquim Passarinho (PTB) se solidarizaram com Ana Júlia Carepa. Luiz Sefer (DEM) opinou que nenhum governante deveria ser alvo de críticas nos primeiros seis meses de governo, principalmente no que diz respeito a questões éticas.
O líder da oposição, José Megale (PSDB), acha que ex-marido e ex-cunhado não devem ser considerados parentes. Megale pensou mais um pouco e se lembrou do seguinte: “Nas gestões anteriores, o PT chegou até a entrar com uma ação contra o nepotismo, classificando o emprego de parentes como algo imoral e ilegal, mas parece que agora a coisa mudou. Na verdade, quem mudou foi o PT”.

Segue-se a matéria de Veja:

Governadora muito família

Contrastando com uma safra de bons governadores, Ana Júlia Carepa só quer saber de dar felicidade a seus parentes e amigos

Victor De Martino


"A política brasileira é tão machista que, quando uma mulher chega ao poder, se espalha que é seu marido quem manda no governo. Dizia-se, por exemplo, que Jorge Murad administrava o Maranhão para Roseana Sarney e que Anthony Garotinho geria o Rio de Janeiro para Rosinha Matheus. Quando a ministra do Turismo, Marta Suplicy, era prefeita de São Paulo, insinuava-se que o comando estava com seu marido, Luis Favre. A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, 49 anos bem vividos, é a nova vítima desse tipo de comentário. A oposição diz que a eminência parda de seu governo é um de seus ex-maridos, Marcílio Monteiro, atual secretário de Projetos Estratégicos do Pará. Foi pelas mãos de Monteiro que Ana Júlia ingressou na política sindical e no PT. Nem mesmo a separação, ocorrida há mais de dez anos, impediu que ele continuasse a dedicar sua vida à carreira da ex-mulher. Mas os adversários, desalmados, não entendem que as relações afetivas possam sobreviver às intempéries. Não compreendem, enfim, que a governadora é muito família, só isso. Ela não tem medo de ser feliz, gente.
Eleita senadora em 2002, Ana Júlia retribuiu o empenho de Monteiro. Emplacou-o na chefia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) no Pará. No cargo, ele articulou a candidatura da ex-mulher à prefeitura de Belém. Ana Júlia acabou derrotada e Monteiro, suspeito de improbidade administrativa. Na CPI da Biopirataria, ele chegou a ser acusado de autorizar a exploração ilegal de madeira em troca de dinheiro para as campanhas do PT. Um empresário declarou que a propina ia para a conta de Joana Pessôa, caixa de campanha de Ana Júlia. Por causa dessas denúncias, o PT a preteriu no momento de escolher seu candidato a governador. Ana Júlia só participou da disputa porque o deputado Jader Barbalho, do PMDB, convenceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que era possível elegê-la. Uma vez instalada no palácio, Ana Júlia recompensou a todos. Empregou sete parentes, Joana Pessôa – e deu a Jader onze cargos, que, juntos, controlam 33% do orçamento estadual. Jader, puxa, é como se fosse da sua família, né?
Nos anos 80, o incorrigível Jader empregou o pai de Ana Júlia, Arthur Carepa, na Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia. Carepa estava afastado dos postos oficiais desde 1964. Naquele ano, o regime militar o demitiu da Secretaria de Obras de Belém depois que uma comissão de investigação concluiu que ele "exerceu o poder corruptor e cometeu desonestidade: sonegou; enriqueceu ilicitamente". As acusações não redundaram em processo criminal, mas Carepa teve seus direitos políticos cassados até 1979, quando foi anistiado. Longe da vida pública, sobreviveu com a receita de sua academia de natação, que, naquele tempo, era a preferida dos ricos de Belém. Por causa da escola, seus sete filhos conviveram com a juventude dourada local. Ana Júlia só teve de enfrentar a reputação do pai quando passou a fazer política, na faculdade de arquitetura. Nesse tempo, apaixonou-se por Rômulo Paes de Sousa, um líder estudantil que se tornou seu primeiro marido e pai de seu filho, Júlio. Influenciada por ele, militou no PCdoB. Ao passar num concurso do Banco do Brasil, em 1983, ela mudou de partido e de companheiro, mas, como é muito família, não se esqueceu de Sousa, indicando-o para a Secretaria de Avaliação do Ministério do Desenvolvimento Social do governo Lula. Seu novo marido, Marcílio Monteiro, levou-a para o PT. Ao fim dessa relação, Ana Júlia tinha uma filha, Juliana, e o grupo político que hoje a acompanha.
A governadora costuma relacionar o fim do segundo casamento com sua emancipação pessoal. Uma vez separada, ela caiu na night. Ao som de forró e brega (no Pará, isso não é adjetivo, mas gênero musical), Ana Júlia passou a exibir em bares e boates seu talento de dançarina. Muitos caíram apaixonados. Um deles fisgou o coração da então senadora, deixando de ser "ficante" para tornar-se namorado oficial – o piloto de avião Mário Fernando Costa. E bota oficial nisso: a governadora muito família empregou-o como administrador do hangar do estado. A desenvoltura de Ana Júlia na noite de Belém acabou sendo alvo de ataques durante a campanha para governador. Até hoje, Ana Júlia se ressente de adesivos com a frase "Xô, galinha", distribuídos na capital paraense. Depois de vencer nas urnas, para evitar a condenável associação com a ave, ela trocou a residência oficial, a Granja do Icuí, por uma casa alugada pelo governo paraense. Dos imóveis disponíveis para o governador, ela só usa a casa de praia de Salinas. Na Semana Santa, levou para lá seu namorado e 22 assessores – pagando a todos diárias de "trabalho". No início do governo, o séquito oficial incluía até uma dermatologista e uma cabeleireira, que zelavam pelos atrativos que se vêem na foto acima. Ambas foram demitidas por pressão da opinião pública. Mas a governadora ainda se dá ao direito de um luxinho ou outro. Em fevereiro, usou o jato fretado pelo governo para ir a Belo Horizonte assistir à formatura de seu filho. Ana Júlia é mesmo muito, muito família.

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