4/10/2007

Um conto de Luiz Lima Barreiros


Um dia na vida cabreira de João Carioca Macaxeira

(Dedicado a Aleksandr Soljenítsin e a Jonh Lennon)

Era nos idos de 1971. E o ônibus se dirigia célere para o balneário da ilha de Outeiro. Contava-me ele, que teve um caso com uma mulher casada, e nem pediu endereço e nada... O aperta-cunha do lotação de Icoaraci, bairro de Belém, um aperreio, tu te moras?, fez com que uma senhora de branco e vermelho, coroa nova ainda, acompanhada de dois filhos pequenos, ao lado da babá deles, se encostasse em nosso herói João, que, com os braços levantados, se apegava no corrimão do teto. E, é claro, ele nem se mexeu. E ela, que não tinha um rosto muito bonito, mas era boa, se encostava mais ainda. E , então, ele baixou um dos braços, e não me disse qual, pois pouco importava, é verdade, já com tantos detalhes! Pondo a mão do braço abaixado, próxima dos seios dela, de leve os pressionava, aproveitando os solavancos do carro que não tinha. E o outro braço continuava elevado; e algo mais se elevou, e ele então o ajeitou. Ele já sentia que ela queria. E ela arriou a cabecinha no seu ombro e quase chora. E eles continuavam silenciosos. E, na certa, consigo mesmo, ele cantarolou: “Carolina, hum hum hum, Carolina, hum hum hum, gente que nunca dançou, Carolina”...e pensou nos paus-de-arara nordestinos. E, ainda frisou que roçando as coxas, se instalou aconchegante na brecha entre as bundas. E acabou atracando-a com jeito, porque ele era maneiroso. E o ônibus se dirigia célere para o balneário de Outeiro.
Ele, meio irado, macucou a jogada, pegou todos os macetes, cara esperto era aquele, e achou tudo natural, porque afinal ele era um herói amazônida incompreendido, e era muito justo que isso acontecesse com ele. O ônibus, na margem da travessia chegando, depois de muito trepidar pelas ruas e estradas mal pavimentadas, por causa deles que nada fazem, nisto ele também pensou, porque cada ser humano tem um tipo diferente de pensamento... Mas, ele deixou isso para lá, porque agora ele estava na dele! Ia aproveitar o doce e cheiroso domingo de sol. E segunda-feira, iria chegar bronzeado no escritório, com o status aumentado, e ai do chefe se viesse com onda com ele! Ele diria: “Doutor, cada qual tem seu modo de pensar...assim como eu o compreendo, o senhor tem que me compreender...o ser humano tem que agir”... Blá-blá-blá pra cá e blá-blá-blá pra lá... E ele iria ficando com mais raiva, não aguentaria... Explodiria: “e fique sabendo de uma coisa: eu tenho um negócio aí, estou vendo se abro uma agência de loteria esportiva, estou com uma ligação lá com o sul, conheço um piloto que vai levar e trazer os talões, e eu mesmo vou fazer umas viagens até Manaus!” E, deslanchou: “porque o negócio é ser vivo, o cara tem que ser vivaldo, eu não sou otário, tô com o olho aberto pra todos esses caras! Eu não me meto na vida de ninguém, como é que vêm se meter na minha vida? Não! Eu sei me defender! Eu ainda apago um! Tu me entendes? Olha, caboclo, eu estou vivo... fico só urubusservando! Sou malandro, não nego, mas trabalho... cada qual tem de ter seu ofício; eu não podia ficar numa escola daquela... eu tenho olhos é pra ver, ninguém mete aqui na bundinha, não!” E pensou em apagar aquele seu amigo-da-onça que sempre tirava um barato com ele, dizendo que o caso dele, Carioca Macaxeira, era de manicômio judiciário...
E tinham que pegar o barco, para atravessar para o outro lado, onde havia praias, e aproveitar o sonoro e luminoso domingo de sol... E ela disse, quando o barco deslizava pelas ondas: “Esqueci meu maiô, Maria! Chegando lá na beira, eu te dou dinheiro e tu voltas para apanhá-lo; ele está na porta esquerda do guarda-roupa, perto duns vestidos... ainda está cedo, dá pra tu voltares com as crianças, e ainda tomar um banho”. Carioca entendeu o lance da patroa se desvencilhar da empregada. Maré cheia, só mais logo. E ele então se mancou, abriu mais os olhos, e foi aí que falou, em tom filosoficamente compassado, porque notou que ela, no íntimo, se dirigia era para ele (e para quem mais poderia ser?): “É, madame... ainda está cedo...” E havia outras pessoas no barco que pensaram que eles fossem bem conhecidos. E uma brisa ligeira soprou as velas ufanantes.
Entre grandes nuvens brancas, o sol acelerava seu vôo alvissareiro. Mas Maria nem voltou, e eles cinco já se dirigiam para a praia. E ele, na maior intimidade, já falava com ela, mas não me disse o que falou. Só depois, quando quis distanciar-se dos outros banhistas, pois conhecia tudo quanto era buraco, nos subúrbios e nos balneários, ele, galã atrevido, que não dá bobeira, a ela observou: “Eu sei dum lugar onde a senhora pode tomar banho, sem maiô” E notou pela expressão dela, que ela não gostou. Mas logo após, para surpresa dele, e minha, ela surgiu de biquíni vermelho, muito curto , daqueles de Ipanema. E ele , de novo falou :_“Se a madame permite , acho que esse biquíni está muito indecente!” Indecente! Palavra forte ... porque ele era durão (e talvez estivesse, ou com a conta certa, e a cuca não). Com ele não tinha essa de moleza não, aqui ó ! , e fazia toc-toc com o jogo das mãos. Cara esperto , vivo e malandro estava aí, em pessoa , personificando todas as proezas. E ele continuou: “Manda os garotos darem uma voltinha, e vamos mais pra lá !” Se ele tivesse um iate e fosse navegador, seu lema seria, é óbvio, plus ultra . Gostava de astronautas. Lia Erich von Däniken. Ulisses vagueador, de praia em praia durante dez anos; fingiu-se até de louco, para não ir à guerra de Tróia. Ó bela Araguaia! Ele admirava os hippies que falavam em paz , mas lhes era superior, pois não usava fitinha de índio na testa, essas frescuras, e nem mochila nas costas, por aí afora, porque cada ser humano tem um pensamento bem diferente ...
E ela, já completamente fascinada , obedeceu-lhe , e mandou que Maria se afastasse com os dois garotinhos , por causa do calor . E Maria ,também paquerada , se afastou . E eles se afastaram , e foram indo para locais ermos . Locais estes onde nem sequer um viajor haja pisado . Esta terra lhe era bem conhecida . Tristes trópicos ! E ele , então , largou-lhe um beijo na boca , de improviso , e ela se assustou levemente , porque ele era muito impulsivo . E continuaram se afastando , e ele viu que aqui esta bom . E mal deu tempo deles se acomodarem , e já investia sobre ela . E ela se abandonava . E se agarravam , e se beijavam . Beijavam-se e se agarravam . E ele queria que ela conhecesse a sua força , e ela queria ser moldada , e chupou-lhe todo , disse-me . Ó! E fez uma pausa , porque era mau . Puxou do bolso um estranho cigarro , vindo de Bragança ou do Maranhão, ela estranhou, e ele disse : “ Isso é cigarro americano minha filha veio lá da Zona Franca” . E começou a tragar e lhe ofereceu , e ela acabou aceitando , pois quem podia resisti-lo ? E recomendou para que ela não soltasse logo a fumaça . Se precisasse mais papel para fazer outro ela arrancaria uma folha da revista “Ele e Ela”, que trouxera, e ele outro faria. Mesmo assim , havia “ O Pasquim ”. E como ela , ainda desconfiada , não acatasse sua recomendação , quando puxou outra vez , ele , para impedir que a fumaça saísse , e deu ênfase para este detalhe , abocanhou sua boca . E disse : “ não solta! ”... “Aahhn?... ” E a fumaça saiu . E se agarravam , e se beijavam numa desagregação psíquica... o pescoço , os ombros , os seios ... E ela , de repente , despida já estava , talvez até tarde , num resquício de filme censurado . E dizia : “ ai , meu filho , você é louco ! ” E o vento assanhava os cabelos deles . E João Macaxeira se libertava de suas frustrações , nem que fosse pela imaginação . E eles rolavam pela areia quente . Era uma brasa , mora! Laço firme , braço forte. E nenhum tira apareceria naquela fantástica toca . Da areia quente, eles escorregavam para a areia molhada . Ninguém os presenciava . E , de repente , acenderam-se os holofotes ! E o diretor pedia mais luz , e eles se aproximavam da água resplandecente . Um bando de gaivotas cortou o azul celestial . E houve um close-up das bocas sugadoras . E uma gaivota mergulhou , e pegou um peixe , e outra imitou-a , e depois outra , mais devagar . E o povo bradava : viva Mao , viva Mao ! E outros : eu quero mocotó , mocotó é um barato ! E o troço já estava maçante . E as ondas se quebravam nos rochedos imersos parcialmente na água . Os sinos badalavam . E já era quase meio-dia . E a terra girava célere no espaço !
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Este conto obteve o troféu de 4° lugar, no XV Concurso Nacional de Contos de Paranavaí (PR) , em novembro /1983.

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