2/07/2009

Antônio Cavalcante



MASCARADO BOFÓ

Estamos nos aproximando da quadra momesca, aí me lembrei dos tempos de criança! no bairro de São Brás.

Domingo de carnaval, ou melhor, “domingo gordo”, década de 50 do século XX em Belém do Pará. No bairro de São Brás onde morávamos ali na Avenida José Bonifácio, bem em frente ao Berço de Belém, próximo ao mercado municipal e a antiga Praça Floriano Peixoto hoje Lauro Sodré, palco de uma gostosa recordação da infância. Logo de manhã após a missa na capela do Berço de Belém, a garotada da vizinhança se assanhava para imitar gente grande e cair na gandaia para brincar o carnaval. Nos pintávamos de carvão ou urucum, batendo em latas, panelas velhas, ou tamborins de madeiras elaborados com pele de cobra, que sobre o calor do fogo feito com jornal, fazíamos esticar o couro para dar a afinação necessária e ainda o cheque-cheque feitos em madeira e fichas de refrigerantes ou cervejas, sem esquecer dos apitos, confetes e serpentinas compradas na “4 e 4” mais tarde Lobrás, instalada na rua: Conselheiro João Alfredo, no centro comercial de Belém e de saudosa memória em nossa vida. Ensaiávamos uma batucada que para nos, aquela altura, era a mais afinada do mundo, tal qual as executadas pelas baterias das escolas de samba daquela Belém pai d'égua e saiamos brincando e cantando as marchinhas e sambas de carnaval até a esquina da antiga Avenida Independência atual Magalhães Barata onde ficava o bar e sorveteria “Passa O Pau” ponto de atração do bairro.
Em nossa imaginação infantil, era como se estivéssemos no desfile das batalhas de confetes promovido pelas emissoras de rádio existentes naquela época: a rádio Clube do Pará que comandava o carnaval jurunense, a rádio Marajoara que promovia o carnaval em Nazaré, já na Avenida Presidente Vargas a prefeitura de Belém através do seu Departamento Municipal de Certames e Turismo promovia o desfile oficial da Cidade. Além da grande batalha de confete, promovida pelo jornal - A Folha do Norte no Boulevard Castilhos França. Nas semanas que antecediam o período momesco, a Prefeitura de Belém com o apoio desses órgãos de imprensa, patrocinavam aos fins de semanas nos bairros da Cidade, poderosas batalhas de confetes, contribuindo dessa forma para que o carnaval de Belém fosse um dos mais animados do País.
Mas voltando a nossa fanfarra momesca, nosso bloco de sujo infantil ia e voltava várias vezes por um mesmo trajeto, não nos afastávamos muito de nossas casas, sempre sob o olhar atento dos vizinhos que com seus aplausos incentivavam aquele grupo de foliões mirins a cada vez que passava por sua porta, ou por um de nossos responsáveis que acompanhava os pequenos mascarados. Algumas vezes o bloco se desfazia quando víamos algum mascarado maior que nos e saíamos em desabalada carreira para nossas casas ou entrávamos chorando na primeira porta de vizinho que encontrávamos aberta, com medo daqueles foliões que se apresentavam com as máscaras horrorosas de capeta, morte, gorila, amigo da onça e outras menos famosas.
Mais ou menos entre as 11:00 horas e meio dia entravamos para tomar banho e almoçar para alegria de nossos pais que ficavam comentando e davam boas gargalhadas das nossas aventuras ou desventuras carnavalescas. Após o almoço íamos para a tradicional sesta paraense e lá pelas 16:00 horas a família se reunia novamente para uma volta de zepelim pela cidade. Onde apreciávamos o movimento daquele carnaval sadio de nossa Belém de outrora, com seus blocos de sujos perambulando pelas ruas da cidade em direção as concentrações carnavalescas acima citadas. E aí com muita coragem de dentro do ônibus, gritávamos em coro: EI MASCARADO BOFÓ! CADÊ TUA VÓ? Aquilo era uma espécie de vingança, por terem desmanchado nossa brincadeira de carnaval pela manhã. Já à noitinha saltávamos em frente o Passa o Pau para saborearmos aquele sorvete, e assim completar de forma magnífica a nossa participação naquele dia de folia do Rei Momo. Por fim chegávamos em casa onde um saboroso jantar nos aguardava. Na segunda e terça feira de carnaval geralmente a gente participava de bailes infantis nos clubes sociais da cidade.
Encerrado o carnaval, entrávamos no período da quaresma, que coincidia também com o término das férias escolares e o início do período letivo, daí então ficávamos aguardando a Semana Santa, o Período Junino e as tão esperadas férias de julho, quando geralmente nossa família ia para alguma cidade do interior onde gozávamos o merecido descanso das aulas.

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Tatá Cavalcante
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