3/14/2009

Antônio Cavalcante



TRÊS PANELAS VAZIAS
Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. Pois é! O povo do Pará recebeu no início do século XX, fase áurea da borracha um presente muito bonito, uma verdadeira obra de arte, tão belo e imponente que por mais de 50 anos foi um dos símbolos desta cidade, dividindo esse status com o Ver-o-Peso, Teatro da Paz, e Basílica de Nazaré.
Essa obra magnífica era vista por quase toda Belém e era o primeiro sinal que se avistava quando aqui chegavam por água e por ar os nossos visitantes e conterrâneos viajantes. Estou falando do Reservatório Paes de Carvalho um dos monumentos da Belém Lemista.
O reservatório foi construído durante a gestão de Augusto Montenegro a frente do governo do Estado do Pará, sob a orientação do engenheiro Francisco Bolonha, era todo em ferro, composto por três cilindros sustentados por uma artística estrutura adquirida pelo Estado do Pará através das usinas Metalúrgicas Boudet, Donon & Cie de Paris. Era cercado por um gradil e portões de ferro não menos belos fabricados por Walter Mac Farlane & Co.
A velha caixa d’água de Belém situada na confluência da Travessa 1º de Março com a Rua Ò de Almeida avizinhava-se com outro exemplar da Belle époque: a fábrica Palmeira, e foi inspiração de poetas, menestréis, escritores e representantes de outras manifestações artísticas. Tal fato levou o escritor Leandro Tocantins a escrever em sua obra Santa Maria de Belém do Grão Pará o seguinte: “quem chegava a Belém de Vapor uma das primeiras coisas que distinguia era a caixa D Água, que chegou a personalizar a cidade, assim como o Pão de Açúcar, a Torre Eiffel, a Estatua da Liberdade, marcam o Rio, Paris e Nova York.(...). E nada havia mais alto do que a caixa d`Água” (Tocantins, 1987 pág. 347). Outra citação na mesma obra do referido escritor è que: “os Atos Oficiais chamavam- na: RESERVATÓRIO PAES DE CARVALHO mas o povo apelidou-a de TRES PANELAS VAZIAS” e continua “quando soava as sirenes dos carros de bombeiro, os Belemenses diziam ironicamente: Incêndio na caixa d´Água!”. (Tocantins , 1987 pág. 347).
Na verdade o Reservatório Paes de Carvalho teve pouca duração quanto a sua funcionalidade, sendo desativado por motivos técnicos e estruturais, apesar de toda sua aparência artística de rara beleza e elegância da época em que a cidade queria se transformar na Paris dos Trópicos sob o patrocínio do dinheiro da borracha que corria a solta, o depósito aqüífero da Campina não cumpria a sua finalidade.
No final da década de 1960 some definitivamente do mapa da cidade “AS TRES PANELAS VAZIAS” quando a antiga caixa d’água foi demolida e substituída por outra de concreto sem a mesma beleza artística de outrora, porém adaptadas as novas tecnologias que esse equipamento urbano requer além de duplicar a sua capacidade para atender o fornecimento de água do bairro da campina e adjacências. Os gradis que ornavam o velho reservatório hoje embelezam e guarnecem os jardins do atual parque da residência (antiga residência dos governadores do Pará) desde a época do governo Alacid Nunes. Porém a sua estrutura sabe Deus por onde anda, como dizia a minha avó.

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Tatá Cavalcante
Rua Boaventura da Silva ● nº 361 ● Apto. 803 ● CEP: 66.053-050

3 comentários:

acardoso disse...

Insfelismente destruiram uma belíssima obra prima, tenho certeza que nossa cidade atual ficaria muito orgulosa de ter esse mumento. Será que terai como recontruir esse obra?? Acho que o povo ficaria feliz. Quando a vir pela primeira vez fiquei encantado, assim como o grande hotel e a estação ferroviário

Anônimo disse...

Meu caro
Antônio:

Muito lúcido este seu comentário; Como bem disse alguém num passaado não muito remoto, Belém é a terra do já teve.
Valeu.

clicluizlima disse...

Pois é, o governo Alacid Nunes caracterizou-se como a época em que se desrespeitou muito o patrimônio histórico da cidade. Além da bela Caixa D'Água, demoliu-se o Grand Hotel, com a cidade cheia de terrenos para se construir este Hilton, que não é 5 estrelas em lugar nenhum do mundo civilizado.
Lamentável, este descaso pela nossa arquitetura. Após o golpe, não havia sociedade civil organizada...
Luiz Lima Barreiros
BELÉM - 17.03.2009