3/10/2009

José Wilson Malheiros


O DIREITO À VIDA E O LEITO DE PROCUSTO

Segundo uma lenda da antiga Grécia, existiu um bandido, chamado Procusto, que, após haver assaltado uma pessoa, colocava-o sobre um leito de ferro e, se a sua vítima fosse maior do que o leito, cortava o que sobrava, caso fosse menor do que ele, "esticava-o". Então passaram, no início do século XX, a usar a expressão "leito de Procusto" para caracterizar aquele tipo de pensador que, embora se pretendesse cientista, não suportava dados que não se adequassem a suas teorias, "cortando" os que "sobravam" e "esticando" os que "precisavam de uma ajuda".
Assim está acontecendo, no Brasil inteiro, com o caso da menina de nove anos que foi submetida a um aborto. Cada um pretende meter seu bedelho e suas verdades, enquanto a pobrezinha recolhida à sua insignificância, à sua indigência e ninguém mais se lembrará dela dentro de alguns meses.
A igreja católica, por exemplo, já até mesmo excomungou a torto e a direito aqueles que, no seu entender, são os “culpados” pelo crime hediondo.
Mas os dignatários da Santa Sé, por ser mais conveniente neste momento, esquecem a história sem fim das violências, estupros e abortos praticados no transcorrer da história em seus conventos e não se sabe, ao certo (pelo menos não é divulgado convenientemente) se os protagonistas foram ou não excomungados.
Em 2001 (e portanto já um tanto esquecido pelo povo) o jornal Estado de São Paulo mostrou o escândado de padres que teriam estuprado 29 (!!!) freiras.
Uma delas faleceu em virtude do aborto recomendado pelo “amante”, que foi o celebrante da sua missa de sétimo dia.
Estariam ditos religiosos agora excomungados, também?
A excomunhão hoje não incomoda mais ninguém. Principalmente num país sincrético como o Brasil. Expulsam da igreja católica e o povo vai ao centro espírita, à igreja protestante, ao candomblé etc.
Aliás, como fica a situação dos praticantes do candomblé da Bahia (por quem temos grande respeito) que sacrificam animais e vão à igreja em busca de bênçãos. Estão excomungados ou a boa política indica que não se faça isso?
Como se denota o Leito de Procusto ainda está aí até hoje à disposição das interpretações escorregadias e oportunistas.
Sou totalmente a favor da vida, pois sou cristão.
Mas não me cabe fazer patrulhamento nas consciências dos respeitáveis cidadãos que decidiram em prol do aborto da menina.
Em pleno século vinte e um, época de fé raciocinada e lógica, não cabem mais tutelas e cajados que nos tratam como se fôssemos simples ovelhinhas, incapazes de decidir nossos destinos.


jwmalheiros@hotmail.com

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