8/18/2007


HISTÓRIA


Pará seria independente do Brasil


Brasília – Os paraenses gozam feriado em 15 de agosto. Nessa data, em 1823, a Província do Grão-Pará aderiu à independência do Brasil da coroa portuguesa. Mas se trata de um desses registros históricos ambíguos. A propósito, lembro que minha formação escolar e acadêmica se passou praticamente toda durante a Ditadura dos Generais, longos 21 anos, de 1964 a 1985. Essas duas décadas e um ano foram tenebrosas para a Educação e atrofiadoras da liberdade de pensamento dos estudantes da época. Contudo, a historiografia brasileira ainda navega entre brumas; ensina-se, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, em 1500, quando, o que houve, foi um marco para o início da colonização, ou exploração do novo continente, de parte do império português, que vivia sua glória.Voltemos à adesão do Grão Pará à Independência. Em 1823, Dom Pedro I, imperador do Brasil, ordenou ao almirante John Grenfell que obrigasse as províncias que não aderiram à independência do Brasil a reconhecê-la. Em Belém, Grenfell armou um ardil para convencer os governantes a aceitar a adesão ao Brasil, convencendo-os de que havia uma esquadra ancorada em Salinas pronta para bloquear o acesso ao porto de Belém, isolando o Grão-Pará de Portugal.
Contudo, segundo a historiadora Magda Ricci, o Pará continuou sob a tutela dos portugueses: “Pouca coisa mudou no Pará após a adesão. Os portugueses continuaram no poder e os paraenses sem espaço nenhum no novo governo. Daí surge a revolta do Brigue Palhaço, na qual os revoltosos com a situação do estado são confinados no porão de um navio e morrem de asfixia. E foi através de episódios como esse que se deu a adesão do Pará”.
João Lúcio Mazzini, historiador: “Essa independência foi negociada sem nenhum benefício para nós. No século XIX, o Grão-Pará era um país à parte dentro do Brasil, pois operava com uma taxação alfandegária diferente e se reportava diretamente a Portugal e não ao Rio de Janeiro, que era a sede do império em nosso país. Essa foi uma forma de se preservar o estado da cobiça dos franceses e holandeses, já que era mais fácil tomar decisões se comunicando direto com Portugal sem passar pelo Rio. Então, com a adesão, passamos apenas de colônia européia para colônia brasileira, controlados por um governo que sequer tinha estrutura para cuidar de um país tão grande como o nosso”.
Para João Lúcio Mazzini, caso a adesão do Pará não tivesse acontecido, provavelmente teria se transformado em um país independente: “Já existiam muitos movimentos aqui pedindo a independência do estado. E se a gente não tivesse aderido e continuasse ligado a Portugal provavelmente haveria um processo de independência que levaria o Pará a se tornar um país. Então, é possível que hoje ele fizesse parte de uma espécie de reino unido brasileiro”.
Com efeito, entre 1835 e 1840, a Província do Grão-Pará explodiu em sangrento movimento independentista, a Cabanagem. Desde a emancipação política do Brasil, em 1822, que o Grão-Pará vivia um clima agitado. Isolado do império brasileiro, era mais ligado a Portugal. Declarada a Independência, a província só foi reconhecê-la em agosto de 1823. A Independência não provocara mudanças na estrutura econômica nem modificara as condições em que vivia a maior parte da população da região - índios, negros forros e escravos, e mestiços. Viviam miseravelmente.
Em janeiro de 1835, os cabanos dominaram Belém e executaram o governador, Lobo de Sousa, e outras autoridades. O primeiro governo cabano foi entregue ao fazendeiro Félix Antonio Malcher, que jurou fidelidade ao Imperador. Foi também executado e substituído por Francisco Vinagre. O Governo Regencial retomou Belém. Eduardo Angelim assumiu a liderança dos cabanos, mas a guerra já estava perdida para eles.
Os portugueses continuaram mandando no Estado do Pará, até a década de 1970. Navios, um atrás do outro, ainda saíam carregados de madeira de lei e essências pelo rio Amazonas rumo a Portugal, à luz do sol da Linha Imaginária do Equador, e a colônia portuguesa era dona dos armazéns do porto de Belém, única porta de entrada de cargas na capital, e ditava os preços das mercadoras. Com a abertura da Belém-Brasília, isso acabou.
Hoje, resta-nos, na mais interessante cidade do mundo, Belém, o tu português, os saborosos pães fabricados pela colônia portuguesa e as portuguesinhas – lindas descendentes dos lusitanos, falando com o belo sotaque belenense e senhoras da sensualidade que só o clima equatorial é capaz de produzir.

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Cortesia do site ABC Politiko

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