8/28/2007

Presença de Luiz Lima Barreiros


Cabanagem : uma luta perdida

Enfim, o que foi a Cabanagem ?

Diversas respostas podem ser dadas a esta indagação. E, vamos passar a palavra, à partir de agora, à historiadora paraense, já falecida, Ítala Bezerra da Silveira.
“ Para a Regência do Império Brasileiro: uma luta separatista,que era mister debelar a qualquer preço; mesmo que este fosse o sacrifício de milhares de vidas humanas (um terço da população amazônida da época).
Para o historiador paraense Domingos Antonio Raiol (filho de português e nascido na cidade da Vigia): o fruto do desrespeito “ao princípio da autoridade”, sacrossanto princípio que deveria ser preservado a qualquer custo.
Para o pastot metodista norte-americano, Daniel F.Kidder, a Cabanagem teria sido uma guerra de raças. Diz, textualmente em seu livro “Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil”: “em nenhuma parte outra do Brasil se praticaram crueldades tão atrozes contra o gentio. Mas também em nenhuma outra foi tão terrível a vingança do silvícola” (pág.197 da obra).
Para o historiador alemão G.H.Haldemann, autor de uma “História do Brasil”, além de uma guerra de raças, isto é, do aborígene contra o colonizador luso, teria sido , também, uma luta dos pobres contra os ricos. Escreve o mesmo: “Todavia esta feição primitiva apagou-se quando os chefes da revolta chamaram às armas, as populações índias, meio selvagens, os tapuias, e a sublevação apresentou-se como uma guerra de índios contra os brancos, e os destituídos de bens contra os que possuíam bens” (pág.311)
Na historiografia do século XX , outras interpretações serão dadas ao movimento cabano. Caio Prado Júnior, em seu livro “Evolução Política do Brasil”, assim se expressou a respeito da rebelião cabana:
“um dos mais notáveis, se não o mais notável movimento popular do Brasil. É o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem o poder de toda uma província , com certa estabilidade.
Apesar de sua desorientação, apesar da falta de continuidade que a caracteriza, fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação a uma tomada efetiva do poder “ (p´[ag.68 de seu livro)
Esta conquista do poder levou o jornalista-historiador José Júlio Chiavenato a dar ao seu livro sobre o movimento cabano, o sugestivo título: “Cabanagem – O Povo no Poder”
Para o professor Renato Guimarães, a Cabanagem foi “a Revolução no Brasil”, enquanto para o cientista político e também professor Pasquale di Paolo, a Cabanagem foi “a revolução popular na Amazônia”.
Parece-nos, todavia que a historiografia do século XX, mais disatanciada dos acontecimentos, quando se achavam amortecidas as paixões e cicatrizadas as feridas abertas por cinco anos de guerra civil, está mais próxima da verdade histórica. A Cabanagem foi, realmente, a Revolução Popular da Amazônia, e consequentemente do Brasil, em que o povo chegou ao poder e o exerceu por um período de tempo mais ou menos longo. O caráter insurrecional da Cabanagem fica patente pela presença , no movimento, de elementos de todas as camadas sociais da população paraense, bem como de todas as etnias presentes no Pará – branca, preta, ameríndia ou mestiça. Isso lhe tira o caráter de guerra de raças, ou dos pobres contra os ricos. Em certos momentos, se assemelha a luta de libertação nacional, embora os próprios Cabanos disso não tivessem consciência. Nas lideranças mais preeminentes, destacam-se duas famílias do Rio Acará: os Vinagre e os
Nogueira. Mas, se a primeira era mameluca, a segunda era branca.
Cabanagem não foi uma guerra de raças, tampouco uma luta dos destituídos de bens contra os que possuíam. A Cabanagem foi uma insurreição do povo paraense contra a política do Império Brasileiro: foi o coroamento de uma longa série de rebeliões que, durante muitos anos (1823/1840), sacudiram a Província do Grão-Pará “ (IBS)
Recomendamos também a leitura do livro do historiador gaúcho Décio Freitas (que foi ministro de João Goulart),sobre o tema. E o “DOCUMENTOS INGLESES”, do historiador David Cleary (prefácio de Geraldo Coelho; e tradução de Christine Moore Serrão),SECULT/ IOE-2002.

■ Luiz Lima Barreiros - 28.08.2007 – também já publicado na Revista da Associação Paraense de Escritores,nº8,dez/94.

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