11/28/2008

Dênis Cavalcante


Menino de Engenho
O personagem da crônica dessa sexta é um velho conhecido. É e não é. Tentarei explicar. Quando eu e meu amigo-irmão Luis Roberto Meira inauguramos o Baú, ele foi um dos primeiros clientes. Fazia tempo que não aparecia na livraria. Tímido, sisudo, circunspecto, como de costume, negaceou, fingiu garimpar as prateleiras abarrotadas à cata de alguma raridade. Deixei-o à vontade. Freqüentadores de sebos e alfarrábios são seres estranhos. Dispensam conselhos, abominam indicações, palpites. A pior coisa que pode acontecer é um vendedor farejando, seguindo nossos rastros, tentando ser gentil, perguntando o que queremos comprar. Melhor, bem melhor, enfurnar-se em meio as prateleiras bolorentas, e (quase sempre) encontrar um livro que só a nós interessa, só a nós diz respeito. Sabedor dos meandros da profissão, deixei-o a vontade (afinal de contas, antes de ser livreiro, sempre fui alfarrabista) Então...
Lá pelas tantas veio com a mesmíssima ladainha: 'por acaso o senhor não teria algum exemplar de 'Menino de Engenho' (obra prima de José Lins do Rego). Solícito, fui à procura do livro. Felizmente, encontrei um solitário exemplar carcomido pelo tempo. Açodado, folheou com avidez - e mais uma vez - fez cara de poucos amigos. Perguntou o preço, pagou sem pechinchar e mandou embrulhar.
Até então, jamais entendi sua metodologia. O que leva um sujeito adquirir sabe se lá quantos exemplares do mesmo autor, o mesmo título? Deixei de lado meus escrúpulos alfarrabistas e indaguei: 'Me perdoe à intromissão. Mas por que cargas d’água o senhor sempre compra o mesmo livro?'
- Engraçado, nenhum livreiro me perguntou isso. E olha que eu conheço todos os sebos de Belém, a maioria de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. É uma longa história... Quando completei quinze anos, meu pai presenteou-me com um exemplar desse livro. Fiquei fulo da vida! Como todo adolescente, eu queria uma bicicleta, um gravador, uma calça boca de sino, um cordão de ouro, um anel com minhas iniciais gravadas... E o velho me vem com um mísero livro. Paciência. Meses depois, um infarto fulminante o levou. Nem de longe imaginava que a reboque da perda irreparável, minha vida mudaria radicalmente.
O livro, a dedicatória carinhosa e premonitória do velho, ficaram esquecidos numa estante qualquer lá de casa. A última vez que o vi, jazia esmagado entre dois calhamaços da Enciclopédia Barsa. A barra pesou, a grana escasseou, fomos obrigados a mudar de nossa espaçosa e confortável casa no Marco para um minúsculo e insalubre apartamento. Durante a mudança, o livro e outras tralhas se perderam. Desde então, procuro pelos sebos da vida o livro e a dedicatória do velho.
O senhor não vai acreditar. Nas últimas três décadas já adquiri trinta e oito Meninos de Engenho. Oito edições diferentes. Capas duras, brochuras, livros de bolso. Muitas continham dedicatórias reveladoras - menos a que mais me interessa - a que o velho escrevinhou quando completei quinze anos. Dito isso, se fechou em copas.
Pensei com meus botões: Sou um felizardo. Em vida, que eu me lembre, meu pai nunca escreveu nadica pra mim. Minto. Décadas atrás, antes que o traiçoeiro Alzeimher consumisse suas lembranças, minha mãezinha me deu um cartão postal amarelado pelo tempo. Do tempo em que era caixeiro-viajante. Quando ela soube que estava grávida, mandou um telegrama comunicando as boas novas Em resposta, ele enviou-lhe um significativo cartão postal. No finalzinho, uma mensagem pra mim. '... Inconcebido filho meu. Antes mesmo de te ver - te adoro!'

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