12/08/2008

Antônio Cavalcante


TROTE NA J. ALFREDO

Na segunda metade da década de sessenta do século XX havia concluído o colegial, etapa de nossa vida estudantil correspondente ao segundo grau. Uma nova era de descobertas e afirmações nessa fase da adolescência, ou melhor, no seu ocaso, começávamos a nos sentir mais adultos, saíamos de nossa aparência imberbe, com o corpo já definido pela massa muscular adquirida em nossa passagem pelo quartel e a cabeça voltada para fora de nosso universo secundarista, aspirando uma vaga na Universidade, o sonho de todo jovem até hoje.
Belém contava aquela altura com os seguintes cursos superiores: Administração, Biblioteconomia, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Ciências Sociais, Direito, Geologia, História, Geografia, Medicina, Farmácia, Odontologia, Química, Engenharia, Arquitetura, Química Industrial, Serviço Social, Filosofia, Física, Matemática e Letras, todos vinculados a recém criada Universidade Federal do Pará - UFPA. Além da antiga Escola de Agronomia da Amazônia depois Faculdade de ciências Agrárias do Pará - FCAP, atual Universidade Federal Rural da Amazônia - UFRA com seu curso de: Agronomia.
Se hoje passar no vestibular é uma vitória com direito a todos os excessos etílicos, imagine naquela época, que além de serem poucas vagas, somente existiam aquelas unidades de ensino superior já citadas, além do sacrifício para participar do exame de seleção, pois era exigidos o paletó e gravata para os homens e traje social para as mulheres, todas as provas eram eliminatórias. Após a correção da última prova, o “listão” dos aprovados era entregue aos órgãos de imprensa para a divulgação. A cidade como hoje, vivia uma festa só, mas a festa mais esperada, quem promovia não eram os cursinhos, nem os colégios secundaristas como atualmente, mas sim, os diretórios acadêmicos dos cursos existentes na época, quanto mais forte o diretório, maior a festa de recepção aos calouros que ingressavam na vida universitária, uma verdadeira passeata com sabor de vitória.
Eram contratadas bandinhas e batuqueiros das Escolas de Samba. Geralmente a concentração era na porta das faculdades, de onde saiam pelas ruas da cidade em direção ao Centro de Belém, mais precisamente até a rua Conselheiro João Alfredo o ponto de encontro de nossa geração. Vinham com faixas e cartazes com críticas ao poder político de então, sob o olhar atento dos arapongas de plantão, e das polícias estadual e federal para controlar não apenas aqueles que se excediam na bebida, mas também as lideranças universitárias, consideradas um verdadeiro perigo ao regime de exceção recém implantado no país.
Geralmente essas fanfarras acadêmicas eram realizadas nos primeiros sábados que antecediam o carnaval, sendo que o trote geral era o mais esperado, pois congregava todos os calouros das unidades de ensino superior existente, Como que mostrando para a sociedade a nata ilustre do saber e do conhecimento daquela Belém provinciana com ares de metrópole. No eixo Santo Antônio, João Alfredo por volta das 11:00 horas da manhã quando se ouvia os primeiros acordes da bandinha contratada, alguém gritava lá vem o trote! Os comerciantes procuravam cerrar a porta de seus estabelecimentos para proteger seus clientes e mercadorias, até aquela onda irreverente passar. Numa verdadeira troça carnavalesca, pois vinham cantando marchinhas e sambas conhecidos, acompanhados pela banda de música já aquela altura envolvida naquele clima de descontração total, mandava brasa nos sucessos carnavalescos daquele ano, mas a música que fazia realmente o sucesso no meio dos calouros era o samba do Martinho da Vila que dizia mais ou menos assim: “FELICIDADE! PASSEI NO VESTIBULAR MAIS A FACULDADE É PARTICULAR”, aquela letra dizia toda a emoção sentida pelo vitorioso estudante e seus familiares e amigos, tal e qual a marcha do vestibular composta alguns anos mais tarde, mais precisamente na década de 70 e imbatível até hoje em audiência e alegria durante a divulgação dos resultados dos vestibulares da atualidade. No final da passeata vinha uma carroça puxada a burro, onde estava a carga etílica que era distribuída em doses generosas aos participantes, era o combustível da alegria, necessário para dar vida ao trote. Ah! Ia me esquecendo do carro de propaganda volante (carro som) contratado para dar suporte aos oradores ao longo da manifestação.
Também os novos universitários promoviam o lançamento de ovos, talco, trigo nas pessoas conhecidas que encontravam no caminho, demonstrando uma alegria sem fim, como marco de uma vitória em que poucos alcançavam com o preenchimento das poucas vagas oferecidas e que com certeza para muitos, seria o grande marco divisor de suas vidas.

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Tatá Cavalcante

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