12/11/2008

Dênis Cavalcante


Quem não sabe, é como quem não vê

“Carro velho é como asma: melhora, mas nunca fica bom” (Legenda de caminhão)

D
esde que me entendo por gente, automóvel é condução. Basta me levar numa boa, ter ar, um sonzinho maneiro e direção – dou-me por satisfeito. Dispenso vidro elétrico, jance de magnésio, descarga barulhenta, suspensão rebaixada, painel futurista, som de boate, teto solar... Nem pensar! Ia me esquecendo: faço questão de um porta-malas espaçoso, que beba com parcimônia – de preferência – total - flex. Em suma: BBB (bom, bonito e barato). Seguro, nem pensar! Pra que? Dirijo ha décadas e até hoje jamais provoquei um acidente. E olha que já fui proprietário de maquinas antológicas. A primeira, um DKW Vemag igualzinho ao do saudoso Aguilera, pai do Raul. A única oficina autorizada de Belém que mexia neles, era a do Bria, craque paraguaio que fez sucesso jogando no Paissandu. Boaventura, quase esquina com a Quatorze. Tempos que trazem suaves e inesquecíveis recordações.
Tempos depois, adquiri dois fuscas, um Maverick, Corcéis I, II, um guloso Landau 79 abarrotado de multas impagáveis. Herança maldita de um bicheiro carioca, recém chegado a Belém. Impossibilitado de sustentá-lo, repassei o pepino pro boa praça Mauricio Chaves. Depois vieram Monzas, Escortes, Fiat 147 (uma bomba), Vectra, L 200, Galant, Corolla...
Carro bom é carro novo. Tem coisa melhor do que o cheiro que dele exala? Pena que dure tão pouco. Não importa a marca, o preço, o estilo, a potencia do motor. Dou à mão a palmatória pro Henrique Silva - dileto primo postiço. Cansei de ouvi-lo repetir a exaustão. “Se puderes, troque de carro assim que expirar a garantia”. Mas nem sempre é possível.
Todo esse arrazoado porque um dia desses um corretor me abordou na Oswaldo Cruz..
- Quer vender?
- Quanto vale o meu?
- Vinte e três, vinte e cinco mil. Aceitamos troca – o senhor não se interressa por um Audi, BMW, Mercedes, semi-novos? Não dá prego, dor de cabeça. A troca é rapidola, o financiamento imediato. 48 suaves prestações.
Égua! Sou obrigado a confessar: sempre quis ter um alemão!
Peguei o cartão do chapa e segui viagem. Semanas depois, o carango me deixou na mão. Pensei em chamar o Touring. Que droga! Sócio benemérito, remido, sem nunca ter usado as benesses, quando necessito – estava extinto. Algo como pagar um plano de saúde a vida inteira e quando aparece uma mazela: “Procure o SUS”! O jeito foi procurar o Zezinho, o Rei das Baterias. Num piscar de olhos, ele vaticinou: bateria!
Pechincho e a batera morre em três onças. Beleza. Nisso chega uma BMW nas últimas. Foi estacionar e literalmente - mor-reu. Guardadas as devidas proporções – era como se um paciente chegasse fumado à Emergência de um hospital particular. Enfermeiros (mecânicos), médicos, intensivistas – um Deus nos Acuda. Só que o paciente (no caso o carro) não possuía plano de saúde.
Assisti de camarote ao diagnostico preciso e pessimista do Zezinho. Condenou gerador, bateria, velas, dínamo...
Resumo da Ópera: 1800 pilas!
Exultemos todos nós, felizes proprietários de automóveis usados. Caveirinha, Vado, Tony, Yuri, Laríssia, Morgado, Zeca Pimentel... Carro é como contador, advogado, médico, vizinho, amigo, mulher... Se for trocar, melhor conhecer a fundo suas vontades, suas virtudes – e os defeitos também.

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cronista9@hotmail.com

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