12/26/2008

Dênis Cavalcante



Cozinhando no estrangeiro

Quem pensa que o cronista só se aventura pelas cozinhas paroaras, está redondamente enganado. A história da crônica de hoje aconteceu quando estávamos em Santiago do Chile, ao apagar das luzes de 2006. Por influência dos filhos, hospedamo-nos num 'Hostel', pra quem não sabe, uma pensão, um albergue para estudantes. Querem saber a verdade? Uma espelunca! Bem diferente da simpática e aconchegante pousada em que nos hospedamos em Bariloche. Quem quisesse escovar os dentes, tomar um banho decente (sem platéia), tinha que madrugar na porta dos banheiros. Por mim, tudo bem. Viajando ou não, estou acostumado a levantar bem cedo. Depois das nove, era um Deus nos acuda! Uma turba de jovens remelentos e despenteados tomava de roldão as dependências sanitárias. Uma das poucas coisas que prestava no pardieiro, era a moderna e bem aparelhada cozinha. Como toda pensão, cada hóspede levava os ingredientes e preparava sua comida. Sabendo disso, tratei de ir ao mercado, (e que mercado) a fim de comprar os acepipes necessários. Escolhi como piece de resistance, um risoto de hongos (cogumelos desidratados) que lá proliferam como erva daninha.
O Mercado Municipal da cidade de Santiago deixa qualquer gourmet de queixo caído. Pescados, lulas, lagostas, salmões, calamares, pulpos, verduras, frutas... Todos fresquinhos. E o que dizer dos embutidos? Copas, Presunto de Parma, salames... Deixei de lado a gula e adquiri os ingredientes necessários para a janta.
Na volta, entro no albergue cheio de bregueços. Além dos hongos, duas garrafas de Merlot, um pão baguete coberto de gergelim, uma réstia de cebolas roxas, um gigantesco alho-porró, um pacote de arroz arbóreo, meia dúzia de pimentas vermelhas, creme de leite, manteiga, um maço de manjericão, outro de alecrim, uma fatia portentosa de parmesão Faixa Azul.
Ao chegar à cozinha, encontrei três atabalhoados austríacos tentando finalizar um espaguete. Se é que pode se chamar assim, aquela miscelânea. Que heresia! Numa panela abarrotada de água, transbordavam verduras, carnes e uma massa disforme. Bem que eu tentei dar um jeito, melhorar a panelada. Mas era tarde, muito tarde. Já não havia nada a fazer.
Apos os gringos liberarem o fogão, e, literalmente engolirem a gororoba, iniciei os preparativos do risoto. Refoguei em manteiga clarificada: alho-porró, cebola, arroz arbório, uma pitada de noz moscada, lascas de hongos – devidamente hidratados – um cálice de Calvados, (um aguardente de sabor incomparável) acresci manjericão, alho porro, alecrim, e a água demolhada dos cogumelos. Por último, salpiquei uma minúscula porção duma rara e perfumada especiaria – trufas brancas. Quando me preparava para finalizar o prato, ouvi um zum-zum danado. Para minha surpresa, amontoados na porta da cozinha, uma dezena de jovens esfomeados assistiam hipnotizados à cena. Ao ver o frisson que nosso risoto de hongos havia causado, meu filho arrumou um jeito de faturar uns trocados. Por módicos cinco dólares, ofereceu nosso manjar à babel de famintos estudantes.
Foi uma permuta justa – justíssima. Eles comeram e se fartaram - quase de graça - com uma fina iguaria. Eu paguei a janta, e, ainda por cima, economizei a mesada do garoto.
No outro dia, quando nos preparávamos para bater pernas pela cidade, tímidas, duas esfomeadas jovens francesas me abordaram à porta do albergue:
- Monsieur Denis, qual é o menu de hoje?

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