12/05/2008

Dênis Cavalcante


Breve história de um roubo
Não pensem que o cronista se ressente do passado. Muito pelo contrário. Apesar das limitações dos anos sessenta, curti minha juventude de montão. Bonde, tevê, cinema preto e branco, rádio a válvula. Ar refrigerado? Só em loja. Refri, roupa, pisante novo, brinquedo? Só no Natal e no dia do aniversário.
Apesar da extrema facilidade em amealhar amigos, sempre fui um solitário. Quando a mana Denise, o primo Cláudio não estavam por perto, refugiava-me dentro do meu mundinho e me deliciava com meus bregueços. Soldadinhos de chumbo, figurinhas, bolas de gude, uma coleção do Monteiro Lobato e um João Teimoso, que eu espancava à exaustão, quando estava fulo da vida.
Meus pais eram ocupadíssimos. Chegavam em casa tarde, na calada da noite. Um belo dia, escutei um trecho da conversa deles: - 'Temos que economizar mais. Vai que acontece uma necessidade, uma emergência...' Desnecessário dizer que lá em casa a grana era escassa.
Antes da aula, um espartano caneco de café, um pão com manteiga à beça - e pernas pra que te quero - rumo ao Colégio Batista (onde era semi-interno). Às 11 em ponto, o almoço servido no espaçoso refeitório. O único dinheiro disponível era o da condução. Rabo virado pra lua, fiz amizade com o motora do Usina – Forte. Às cinco em ponto ele parava na Conde de Bonfim, abria a porta da frente e eu pulava a roleta. A grana economizada era reservada pra comprar figurinhas.
Até então, nunca dei muita bola pro dinheiro. Isso só aconteceu quando ingressei no 'Andrews' (colégio dos bem nascidos). Apesar do altíssimo preço da mensalidade, meus pais decidiram me matricular, dentre outras coisas, pela qualidade do ensino, pela localização: ficava incrustado na Praia de Botafogo, a um quarteirão de casa. Meus colegas eram filhos de pais abastadíssimos. Chegavam a bordo de reluzentes JKS, Mercedes, Landaus... Motoristas engravatados, um luxo. O lanche deles era de dar inveja. Fenomenais sanduíches de filé, mistos triplex, (pão de forma, queijo cuia, fiambre, maionese). E eu me entalando com ovo cozido – quando muito – um sanduba de mortadela. Isso pra não falar dos brinquedos. Carrinhos de controle remoto, robôs falantes...
Até que um dia (sem querer) vi minha mãe colocando dinheiro dentro de uma gaveta. A ocasião faz o ladrão. Sem muito esforço, descobri onde ela guardava a chave. Esperei a empregada se enfurnar na cozinha e parti célere pro quarto. Ao abrir o armário, um premonitório aviso: o danado rangeu. Coração disparado, corri pra cozinha. Felizmente, ela não se apercebeu. Debaixo de uma camada de lenços coloridos, o fruto de minha cobiça: uma carteira de couro abarrotada de notas. À socapa, subtrai uma cédula e me escafedi.
No outro dia (para inveja dos colegas) cheguei à sala, a pasta cheia de novidades. Mariolas, barras de Diamante Negro, jujubas, uma caneta Parker novinha em folha, figurinhas, e o supra-sumo da época: um vidro repleto de petecas.
Só nos romances, nas novelas, na política, ladravazes ficam impunes, se dão bem. Semanas depois, minha mãe descobriu o roubo. Seu desapontamento era gritante: 'Meu filho... Que tristeza'. Cara a cara – nós dois. Testemunhas de uma imensurável tragédia familiar. Envergonhado, só pensava nas conseqüências do meu desatino, na surra homérica que o velho ia me dar, quando soubesse.
Passaram-se os meses. Que eu saiba, ele jamais descobriu o desfalque. Até que um dia, quando ele se aprontava para um convescote, vislumbrei no fundo do armário de jacarandá da Bahia, junto às botas reluzentes, a sobra do butim. O jogo de botão de galalite, as peças do dominó de osso, o álbum da Copa de 62 e o vidro abarrotado de petecas.

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