6/20/2009



Poetas


Os poetas estão em toda parte. Não sofrem o efeito do tempo e do espaço, pois vivem em uma dimensão que transcende a matéria. Quando estamos próximos de um poeta, se não somos muito materialistas, podemos sentir perfume dos jardins da primavera ao sol das 7 horas da manhã.
Em quatro décadas de jornalismo, Agostinho vira com olhar clínico desfilar nas redações onde trabalhou as mais estonteantes beldades, mas nunca iguais àquela. Devia ter 21 anos, um metro e setenta de altura e pesar sessenta quilos. Parecia um arbusto de goiabeira. Tinha a pele rosada, fresca como as pétalas das rosas colombianas, às 7 horas das manhãs de primavera, os lábios carnudos que lembravam os de Angelina Jolie, os olhos verdes como os da gata, gata mesmo, de Agostinho, e longos cabelos ruivos. As narinas de Agostinho dilataram-se ao captar o subtil perfume das virgens ruivas.
Ágata (“bem merece o nome”, pensou Agostinho) estava ali na frente do diretor de redação, Agostinho, o implacável. Cruzara as pernas, no estilo instinto selvagem de Sharon Stone, mas Agostinho, por detrás da mesa, não podia vê-las, embora, de onde estivesse, fosse presenteado com a visão exuberante de portentoso par de seios, querendo saltar de dentro da blusinha decotada. Ágata era a mais nova estagiária. Parecia selecionada em rigoroso concurso para manequim. Agostinho lembrou-se da penúltima estagiária a apresentar. “Jornalistas, hoje, são todos mulheres, e lindas” – pensou.
O texto da penúltima estagiária, desdizendo a perfeição do seu corpo, revela uma mente absolutamente confusa, sem nexo, sem o menor respeito pela regras mais singelas da gramática. Desde o dia em que Agostinho vira, ao semáforo fechado, o vidro escuro da janela de um carro de luxo baixar e a mão mais bonita do mundo sair, atirar guardanapos de papel gordurosos na rua, recolher-se e o vidro subir, passara a acreditar que algumas mulheres funcionam como flores carnívoras, irresistíveis, mas destituídas de um brilho especial, dificilmente percebido pelos cinco sentidos.
- Gostei muito do jornal e estou disposta a fazer qualquer coisa para aprender e trabalhar aqui – disse Ágata, com aquela voz que descia pela garganta do homem que a estivesse ouvindo e ia até o estômago. – Jornalismo é tudo o que eu quero fazer – continuou dizendo, com seu lindo sotaque carioca.
Agostinho engoliu em seco e continuou em silêncio, olhando para Ágata. De repente, voltou a si.
- Tudo o que você precisa fazer é apenas escrever, escrever como você escreveu aqui – disse, com várias laudas impressas nas mãos.
Era a matéria que Ágata escreveu, sobre uma mulher infiel que matara seu marido, com quem vivera 11 anos e tinha dois filhos naquela idade perdida entre a criancice e a adolescência. No texto, Ágata dissecava o inferno que perpassava a vida daquela mulher, primeiramente o conflito amoroso e agora o passo em falso fatal, que atingia a todos à sua volta e se abatia como facada no casal de filhos. O texto se movia como bisturi, expondo uma história de ciúmes, de mesquinhez, de mesmice, de preconceito, de ignorância, de possessividade, de intolerância, e Ágata utilizava as palavras naquela zona de fronteira em que ciúme significa também um jardim prenhe de perfume e a seguir destroçado.
- Mas... mas acho que você não deveria ficar muito tempo no jornalismo – Agostinho voltou a falar.
- Por que? – disse Ágata, com quase imperceptível estridência na voz- Acho que você deveria se dedicar à literatura, até à poesia, mesmo – disse Agostinho, recostando-se na poltrona
- Oh! – fez Ágata. – Sim, eu escrevo poesia, mas preciso trabalhar. Acho que o trabalho me mostrará melhor a condição humana e me fará exercitar-me na esgrima verbal.
Agostinho viu-a, então, inteiramente. Mais tarde, olhando-a através da meia parede de vidro que separava sua sala da redação, sentiu, de repente, que perdera a noção de tempo e espaço.

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